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As digitais femininas que transformam trajetórias indígenas

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A história indígena não começa em 1500 nem ficou no passado. Quando os colonizadores chegaram, milhões já viviam nas Américas. Hoje, mais de 1,6 milhão de indígenas seguem presentes no Brasil, onde mantêm cantos, tradições e enfrentam disputas por existência. Nesse contexto, as mulheres são maioria, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022), e ocupam a linha de frente da preservação cultural e da defesa da floresta.

Festival Kãda Shawã Shawawa. Foto: Cleiton Lopes/Secom

É nesse cenário que a transformação ganha rosto. A 450 quilômetros de Rio Branco, onde vive, a secretária de Povos Indígenas, Francisca Arara observa, na Terra Indígena Arara/Igarapé Humaitá, o avanço de mulheres que antes não ocupavam esses espaços. Para ela, esse movimento já não é exceção, mas parte de uma mudança em curso nos territórios.

“Seja dentro da aldeia ou fora dela, estamos defendendo direitos, a participação e a escuta, para que a nossa voz seja alcançada em todos os espaços. Assim, vamos construindo um mundo melhor dentro dos territórios. Hoje, temos três frentes: aquelas mulheres que estão fortalecidas com sua autonomia lá nas pontas; mulheres que também estão dentro das associações, como caciques; e, atualmente, contamos com lideranças mulheres, pajés mulheres e professoras mulheres.

Nos territórios e também nos espaços de poder, mulheres indígenas transformam presença em construção coletiva, articulando saberes, decisões e caminhos para o bem comum. Arara afirma ainda: “Somos mulheres indígenas que ocupamos espaços como conselheiras, artesãs e agricultoras, fortalecendo a segurança alimentar nos territórios. Além disso, participamos das tomadas de decisões em conjunto, contribuindo para o que é melhor nas assembleias.

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“Somos guardiãs das línguas indígenas”, Francisca Arara. Foto: Cleiton Lopes/Secom.

Também somos guardiãs das línguas indígenas e seguimos promovendo ações para ampliar a presença feminina nos espaços de poder decisório. E não estamos nesses espaços por sermos mulheres; estamos, sobretudo, porque podemos ajudar na construção de políticas públicas para que o mundo se torne melhor.

Esse avanço não se limita à ocupação de espaços de poder, ele também se constrói na forma como os próprios povos indígenas se reconhecem e se posicionam no mundo. É o que reforça a artesã Júlia Yawanawa, da Terra Indígena Rio Gregório, ao afirmar que os povos originários nunca foram parte da paisagem, mas protagonistas da própria história.

É dessa vivência que nasce o entendimento sobre o que significa, na prática, valorizar os povos indígenas.

“Então, valorizar os povos indígenas é respeitar a nossa existência. Atualmente, na minha visão, falar em valorização dos povos indígenas no Acre passa por reconhecer e respeitar o nosso modo de viver e a nossa forma de enxergar o mundo e a floresta, porque somos defensores da floresta.”

Para além do reconhecimento simbólico, Júlia aponta que essa valorização também passa por condições concretas de vida e permanência nos territórios.

“Para quem conhece a vida na floresta, sabe que é uma luta constante. Não é porque vivemos nela que temos tudo de graça. De fato, não compramos água, nem banana ou mandioca, mas, se não trabalharmos, também não teremos. A nossa relação com a floresta é profunda: faz parte da nossa vida, da nossa espiritualidade, da nossa ciência, da nossa cultura e da nossa tradição. Um indígena sem a floresta é como um indígena perdido.”

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Esse movimento de fortalecimento também se reflete na educação, onde muitas dessas mulheres constroem suas trajetórias e ampliam sua atuação. Entre o ensino e a liderança indígena, a sala de aula se torna um dos principais espaços de formação e protagonismo.

“Há mulheres indígenas que seguem estudando, são graduadas, graduandas e muitas estão na pós-graduação”, Edileuda Shanenawa. Foto: cedida.

Todas as mulheres que têm suas vozes evidenciadas aqui apresentam um perfil de liderança que nasce na educação: são ou foram professoras.

É nesse contexto que se insere a trajetória de Edileuda Shanenawa. Coordenadora da Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac) e gestora da Escola Indígena Tekahyne Shanenawa, em Feijó, ela representa uma geração de mulheres que também avançam sobre os espaços institucionais.

Edileuda Shanenawa (à esquerda) e Francisca Arara. Foto: Arquivo/ Secom.

Mestre em Artes Cênicas, Edileuda afirma que a ocupação desses espaços já é parte do movimento que evidencia o protagonismo feminino indígena.

“Estamos em um espaço de representação, em que somos conhecedoras dos nossos saberes, da nossa vivência, das nossas dificuldades e das nossas necessidades. E continuamos nos aperfeiçoando. Hoje, há mulheres indígenas que seguem estudando, são graduadas, graduandas e muitas estão na pós-graduação. Esse aperfeiçoamento contribui para que possamos assumir cargos nas instituições públicas e efetivar a nossa presença nesses espaços.”

Nos territórios, a mudança deixou de ser promessa para se tornar presença. Entre a sala de aula, a floresta e os espaços de decisão, mulheres indígenas transformam o silêncio em voz e assumem o protagonismo de suas próprias histórias. Agora, são elas que conduzem os caminhos que estão por vir.

Fonte: Governo AC

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Vozes da floresta em conquista

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Por Francisca Arara

Este 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, marca a nossa história, a história da nossa ancestralidade, do povo do cocar, dos povos indígenas na luta pelos seus direitos: direito aos territórios, direito de participação, direito de diálogo, o direito de ajudar na construção de uma política pública que venha a atender os povos indígenas com respeito, com dignidade, levando apoio fazendo com que os recursos cheguem direto nos territórios indígenas.

Antes, as nossas vozes eram silenciadas, sempre alguém falava por nós, e hoje a gente vive um momento histórico de conquista. Avançamos na educação escolar indígena intercultural bilíngue, específica e diferenciada. Hoje  somos nós mesmos ministrando as nossas aulas, sendo os pesquisadores, trabalhando as nossas línguas maternas, nossas línguas indígenas, nas nossas próprias escolas.

Hoje nós estamos conduzindo também a pasta da saúde indígena, nós temos agentes agroflorestais que também cuidam dessa parte, da pauta da gestão territorial e ambiental dos nossos territórios junto com as famílias. Os agentes indígenas de saneamento (Aisan), que estão ali cuidando do tratamento dos recursos hídricos.

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Nós temos a representação indígena nos nove estados da Amazônia, que mantém o movimento indígena fortalecido, como a Organização dos Povos Indígenas da Amazônia.

Os povos indígenas trazem um marco histórico de conquista, de resistência, para que nós possamos manter os nossos direitos, preservar nossa cultura viva e ecoar nossas vozes. Por isso, esse mês representa para nós conquista.

A gente hoje ainda temos muitos desafios a cumprir, mas nós temos alcançado os nossos espaços e a gente luta para isso: que esse ano de 2027 nós venhamos ter os nossos parlamentares federais e estaduais nos estados, que só assim cada vez mais nós estaremos ganhando nossos espaços e levar nossas vozes para defender aquilo que nós tanto desejamos.

O nosso Brasil tem aberto as portas para essas vozes. O Acre hoje sai na frente de outros estados do país, com a indicação da primeira mulher indígena a ser titular de uma Secretaria de Estado de Povos Indígenas, porque isso na história ninguém nunca tinha visto. Mas nós estamos aqui fazendo a política pública de fato acontecer e chegar nas pontas.

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E isso se deu através da formação de lideranças organizada pela Comissão Pro-Indígenas do Acre, que é uma parceira do Estado, pela formação da educação dos professores indígenas na educação.

Todo esse trabalho de luta e conquistas é feito por muitas mãos: sociedade civil, organizações indigenistas e governamentais, movimento indígena. Então, se junta todo mundo, e o Acre tem essa cultura do diálogo, da participação, da escuta, de ouvir os povos indígenas. Por isso que as nossas políticas têm dado certo.

Francisca Arara é Licenciada em Pedagogia e Ciência da Natureza pela Universidade Federal do Acre (UFAC), reconhecida nacional e internacionalmente por sua atuação em salvaguarda sódio ambiental, REDD+ e na defesa de direitos dos povos indígenas, território indígena e no combate às mudanças climáticas e Secretária de Estado de Povos Indígenas do Acre.

Fonte: Governo AC

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