AGRONEGÓCIO
Mercado do Trigo Enfrenta Oscilações: Clima Favorável nos EUA, Oferta Restrita no Sul e Movimentos Antecipados na Ucrânia Definem o Cenário Global
AGRONEGÓCIO
Preços do Trigo Divergem entre Regiões Brasileiras
De acordo com levantamento do Cepea, os preços do trigo apresentaram comportamentos distintos entre os estados brasileiros em fevereiro. Enquanto Santa Catarina e Paraná registraram retração nas cotações, São Paulo e Rio Grande do Sul mostraram leve valorização, refletindo a diferença nas condições de mercado.
Nos estados do Sul, os estoques mais elevados e a demanda enfraquecida pressionaram os valores. Já no Sudeste, a postura mais firme dos vendedores e a expectativa de maior procura no curto prazo sustentaram os preços.
Em Santa Catarina, a média foi de R$ 1.146,62/t (-1,1% frente a janeiro), e no Paraná, R$ 1.169,18/t (-0,8%). Já São Paulo registrou R$ 1.291,83/t (+2,8%), e o Rio Grande do Sul, R$ 1.073,10/t (+2,1%). Apesar da alta mensal em algumas regiões, as cotações seguem até 18% inferiores às de fevereiro de 2025.
Oferta Restrita e Logística Afetam Negociações no Sul
O mercado de trigo do Sul do país mantém ritmo lento, com negociações pontuais e expectativa de preços melhores nos próximos meses. Segundo análise da TF Agroeconômica, a oferta segue restrita nas mãos dos produtores, que aguardam valorização, enquanto os moinhos operam com margens mais apertadas devido à queda nos preços das farinhas.
No Rio Grande do Sul, cerca de 80% da produção já foi comercializada. Os produtores que ainda mantêm estoques buscam melhores oportunidades de venda após abril. Os preços variam de R$ 1.100 a R$ 1.250/t, enquanto moinhos oferecem entre R$ 1.060 e R$ 1.100/t para embarques futuros.
Em Santa Catarina, o mercado segue estável, com negócios pontuais e pressão de armazenagem sobre trigos de menor qualidade. As cotações oscilam entre R$ 59 e R$ 64 por saca, dependendo da região. Para a próxima safra, produtores já sinalizam redução de área destinada ao trigo, com parte migrando para o milho.
No Paraná, o mercado se mantém estável, com referência em R$ 1.250/t CIF moinho. A limpeza de silos pressiona negócios a R$ 1.200/t, mas moinhos mostram maior interesse em contratos para março e abril, pagando até R$ 1.350/t.
Mercado Internacional: Ucrânia Define Preços da Safra 2026
O cenário global também começa a se movimentar com a formação antecipada de preços do trigo da safra 2026 na Ucrânia, que já registra negócios entre US$ 200 e US$ 208/t, segundo dados do portal UkrAgroConsult. A precificação na região do Mar Negro, importante polo exportador, serve como referência internacional e influencia o mercado global.
Embora o Brasil não seja um importador direto relevante do trigo ucraniano, os valores formados no Leste Europeu podem afetar o mercado nacional, impactando:
- O custo do trigo importado;
- A competitividade frente ao produto interno;
- As margens da indústria moageira;
- E o comportamento dos preços internos ao longo de 2026.
A Conab e o Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil destacam que o câmbio, o tamanho da safra nacional e as condições logísticas globais seguirão como fatores determinantes para o mercado brasileiro.
Bolsa de Chicago Fecha em Queda com Realização de Lucros
O mercado internacional do trigo encerrou a semana em queda nas principais bolsas, influenciado pela realização de lucros após fortes altas em fevereiro e pela menor percepção de risco geopolítico.
Na Chicago Board of Trade, o contrato de março do trigo brando SRW caiu 2,83%, encerrando a 574,50 centavos de dólar por bushel. Em Kansas, o trigo duro HRW recuou 1%, e em Minneapolis, o HRS caiu 0,29%. Na Europa, o trigo para moagem em Paris teve baixa de 1,01%, cotado a 195,50 euros/t.
De acordo com a TF Agroeconômica, a correção técnica devolveu parte dos ganhos recentes, após a percepção de que o conflito no Oriente Médio não deve se prolongar. A valorização do dólar também reduziu a competitividade do trigo norte-americano no mercado externo.
Clima Favorável nos EUA e Dólar Forte Mantêm Pressão nas Cotações
O início de março trouxe novas quedas em Chicago, impulsionadas por condições climáticas favoráveis nas regiões produtoras dos Estados Unidos, reforçando perspectivas positivas para a oferta global.
Segundo Elcio Bento, analista da Safras & Mercado, embora a tensão geopolítica siga no radar, o impacto atual ocorre principalmente nos canais financeiros e logísticos, não alterando de forma significativa a oferta global.
Os contratos com entrega em maio de 2026 fecharam a US$ 5,77 ¼ por bushel (-2,4%), enquanto os de julho de 2026 encerraram a US$ 5,85 ½ (-2,21%).
Perspectivas: Produtores Devem Redobrar Atenção ao Cenário Global
Com estoques internos ajustados, cenário climático favorável nos Estados Unidos e movimentação antecipada no Leste Europeu, o mercado do trigo deve continuar volátil ao longo de 2026.
Analistas recomendam que produtores brasileiros acompanhem de perto os desdobramentos internacionais e adotem estratégias de comercialização mais dinâmicas, aproveitando janelas de oportunidade e ajustando seus custos diante das oscilações do câmbio e das commodities.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor
Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.
A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.
Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.
Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.
“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.
Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.
A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.
A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.
“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.
A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.
Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.
As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.
Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.
Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.
Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.
Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.
“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.
Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.
No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.
A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.
A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.
O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.
Fonte: Pensar Agro
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