POLÍTICA NACIONAL
Especialistas defendem segurança e clareza em marco das finanças abertas
POLÍTICA NACIONAL
O projeto que regulamenta o compartilhamento de dados entre as instituições como bancos, seguradoras e corretoras de valores, que compõem o Sistema Financeiro Nacional, o mercado segurador e o mercado de capitais, foi tema de debate no Senado nesta quarta-feira (19). Apresentado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), a proposição (PLP 207/2023) estabelece normas e eleva para o nível legal regras que atualmente são infralegais. O texto tambem cria a estrutura de Governança das Finanças Abertas, composta pelo conselho deliberativo, o secretariado e os grupos técnicos.
O conselho deverá criar estratégias e propor padrões técnicos, formado por Banco Central, Superintendência de Seguros Privados, Comissão de Valores Mobiliários, Secretaria Nacional do Consumidor; Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência; Autoridade Nacional de Proteção de Dados; e repressentante de associações do mercado financeiro. O texto determina ainda que o compartilhamento dependerá do consentimento prévio do cliente, que deverá fornecê-lo por escrito ou por outro meio que demonstre a manifestação de sua vontade, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O relator da matéria — responsável pelo parecer — é o senador Alessandro Vieira (MDB-SE). Foi ele quem solicitou o debate, promovido pela Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT), onde a matéria está em análise atualmente.
Os participantes defenderam a iniciativa, mas ressaltaram que a proposta precisa assegurar previsibilidade jurídica e agilidade regulatória, além de dar prioridade à transparência e à segurança do consumidor.
Atualmente o ecossistema — como é chamado o ambiente em que os sistemas se relacionam — possui regulamentação e sua governança é feita de forma setorizada. No sistema financeiro aberto (Open Finance), o cliente consente o compartilhamento de seus dados entre as instituições financeiras autorizadas a operar pelo Banco Central do Brasil (BC).
No sistema de seguros aberto (Open Insurance), o cliente autoriza o compartilhamento de suas informações sobre mercados de seguros, previdência complementar aberta e capitalização entre as instituições reguladas pela Superintendência de Seguros Privados (Susep).
De acordo com os debatedores, o projeto vem dar base sólida legal e unificada para um sistema que já tem alcançado resultados concretos, garantindo que o ecossistema continue contribuindo com segurança jurídica, transparência e com foco no consumidor. Para eles, o projeto deve oferecer princípios estruturantes, mas deve preservar a flexibilidade necessária para que os órgãos reguladores possam continuar ajustando as regras técnicas à medida que o mercado evolui.
Foco no Consumidor
Para a superintendente da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNSeg) o eixo fundamental do projeto deve ser o consumidor, sua proteção, bem como o beneficiário final da ampla concorrência.
— O texto precisa deixar claro que o principal beneficiário de finanças abertas é o cliente e isso significa exatamente que ele não é um mero usuário, ele é de fato o dono dos seus dados, dono de suas decisões. Somente ele pode autorizar o compartilhamento de suas informações, acompanhar o histórico de uso desses dados e divulgar o consentimento a qualquer momento.
Apesar de destacar o avanço da matéria em oferecer segurança jurídica e padronização no ecossistema, a chefe da Divisão de Investigação de Sanções Administrativas da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), Gabriela Schifter, observou que é preciso priorizar na lei a construção de ambiente de confiança, de concorrência leal e de proteção do consumidor. Ela defendeu que o novo marco assegure princípios básicos como o acesso à informação adequada e clara sobre produtos e serviços, responsabilização das instituições, criação de instrumentos de combate à fraudes e vazamento de dados, além da promoção de práticas de crédito responsável, evitando o superendividamento da população.
— Num ambiente de intensa digitalização, ampliação do crédito e circulação dos dados, esses princípios precisam orientar cada etapa da regulamentação do sistema.
A jurisprudência do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) tem buscado garantir que esse ecossistema ofereça um tratamento neutro, isonômico e seguro. De acordo com o assessor da presidência do Cade, Hugo Vitor Vecchiato, o órgão tem atuado como tribunal, analisando caso a caso, em cooperação com demais órgãos da estrutura da administração federal para garantir que a abertura de dados não se traduzir em uma ferramenta de exclusão, mas que promova uma estrutura segura e competitiva e que gere apoio e benefícios para o consumidor final.
— Se essa integração entre empresas diversas se traduz em risco para a concorrência, o Cade se posiciona e tem agido com técnica a respeito desse tema.
Aprimoramentos
De acordo com dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), atualmente o ecossistema de compartilhamento de dados possui mais de 71 milhões de usuários, mais de 111 milhões de consentimentos e 39 instituições financeiras consumindo e transmitindo dados.
Para o diretor de Inovação, Produtos, Serviços e Segurança da Febraban, Ivo Mósca, a governança atual ainda carece de mais eficiência e equilíbrio, ao passo que as crescentes vulnerabilidades em todo o sistema financeiro de desvio de conduta no Open Finance elevam as preocupações com segurança e privacidade da informação.
Ele citou entre os possíveis pontos passíveis de ajustes por meio do projeto a redução da assimetria que, segundo ele, leva à ineficiência. Môsca citou como exemplo o custeio da infraestrutura central, que custa atualmente R$ 160 milhões por ano, e é proporcional ao patrimônio líquido de cada instituição. Na avaliação dele, as maiores instituições consumidoras de informação deveriam desprender mais recurso para bancar a infraestutura central.
— Nós precisamos avançar para que as instituições tenham um custeio dessa infraestrutura central de acordo com o uso do Open Finance.
O diretor também apontou, como vulnerabilidade que gera ineficiência do ecossistema, o fato de o poder de voto das instituiçoes nos conselhos de cada sistema não estar atrelado ao custeio, além da ausência de critérios de ressarcimento de custo.
Mas o coordenador de Regulação do Sistema Financeiro do Ministério da Fazenda (MF), João Paulo Resende Borges, tem outro entendimento sobre esse ponto. Para ele, os custos regulatórios proporcionais buscam incentivar a entrada de instituições menores no ecossistema já que elas buscam ter acesso aos dados e assim fisgar novos clientes.
— Para além da dinamicidade e da concorrência, o Open Finance, ele é de participação obrigatória de instituições maiores, as demais entidades não são obrigada a participar do Open Finance, mas elas têm muito mais incentivo à participarem justamente porque são menores.
Governança
A consultora do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central do Brasil, Janaína Pimenta Attie, esclareceu que, de acordo com a regulamentação atual, o BC não é parte da estrutura de governança, apenas atua na regulamentação e na supervisão da implantação do Open Finance no Brasil nas suas atividades. Uma espécie de “autorregulamentação vigiada” que, na opinião dela, trouxe profissionalismo e neutralidade para que a governança da estrutura pudesse ocorrer.
— O Banco Central não é parte hoje dessa estrutura de governança. Ele não tem poder de voto na assembléia, ele não tem poder de voto no conselho e isso se dá por um motivo bastante específico: no nosso entendimento, ele tem que ter o poder de corrigir eventuais rumos. Então a gente tem que ter a prerrogativa de aprovar ou reprovar alguma decisão do mercado para garantir que o projeto, que a iniciativa continue ali alinhado com os objetivos públicos do regulador.
O superintendente de Desenvolvimento de Mercado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Antonio Carlos Berwanger, afirmou que a estrutura atual do Open Finance já atende aos participantes do mercado de capitais e que a entidade vem trabalhando junto ao BC para colocar em prática determinações previstas na resolução da CVM (210/2024) para promover automação e agilidade na portabilidade de investimentos, uma das principais reclamações do setor.
— Esse trabalho nosso com o Banco Central é justamente para aprimorar essa automatização e essa comunicação entre os participantes, entre os intermediários, aqui no caso, que são instituições financeiras.
Na avaliação da diretora de Infraestrutura de Mercado e Supervisão de Conduta da Superintendência de Seguros Privados (Susep), Julia Normanda Lins, o projeto em discussão é uma das iniciativas mais inovadoras para o setor, ao mudar o paradigma colocando o consumidor no centro da relação com o mercado. Ela elogiou a maturidade das estruturas de governança de cada setor e considera um avanço que a legislação mantenha a autonomia dessa regulamentação.
— Hoje já existem estruturas de governança separadas entre Open Insurance e Open Finance, sendo que nos casos que há necessidade de integração entre os ecossistemas a própria estrutura, através dos seus conselhos deliberativos, secretariados, grupos técnicos, os próprios reguladores, eles se reúnem para avaliar e propor soluções mais adequadas, então a gente mantém a independência para tratar de assuntos internos mas, ao mesmo tempo, existe uma frequente colaboração entre as estruturas, entre os reguladores, o que é bastante saudável em termos de ecossistema.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto
O fim da chamada escala 6×1, com seis dias de trabalho e um de folga por semana, seguirá em discussão no Senado em agosto, após o recesso parlamentar. A expectativa de alguns senadores é de que a PEC 221/2019 seja votada após a volta dos trabalhos.
Além de acabar coma escala 6×1, a proposta reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários.
O texto chegou ao Senado no fim de maio, após aprovação na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, determinou que a proposta passasse pelas comissões.
O presidente do Senado tem se reunido com os setores interessados no tema para discutir a proposta. No início de julho, a reunião foi com as centrais sindicais, que defenderam o avanço na análise do texto. Antes, em maio, ele já havia recebido integrantes dos empregadores, que defenderam a votação da proposta somente após as eleições.
Agosto
Em entrevista na segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que o fim da escala 6×1 é “prioridade absoluta” para o governo e que continuará trabalhando para que a votação ocorra assim que possível.
— Mesmo no período das eleições, o Senado vai funcionar em esforços concentrados e remotamente. Não impede que possamos ainda votar a PEC do fim da escala 6×1 em agosto. Nós vamos, ainda, insistir em avançar sobre essa proposta de emenda à Constituição ainda nesse período.
As semanas de esforço concentrado serão entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro, e devem coincidir com os esforços concentrados na Câmara, conforme anunciado por Davi Alcolumbre na quarta-feira (15).
— O calendário é exatamente o mesmo que será adotado pela Câmara dos Deputados, permitindo que o Congresso Nacional funcione em plenitude e de modo eficiente e harmônico — informou Davi.
Defesa
Em pronunciamentos recentes, o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da proposta, disse ter esperança de que a votação ocorra em agosto. Para ele, o debate sobre a redução da jornada não “pertence” ao governo, à oposição e nem aos partidos políticos, e sim ao povo.
— Tenho muita esperança de que a PEC vai ser votada no mês de agosto, porque, com certeza, o trabalhador brasileiro sabe que não vai nadar, nadar e morrer na beira da praia. Espero que esta Casa compreenda a dimensão histórica dessa decisão — defendeu.
Para Paim, o fim da escala 6×1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir. Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.
Também em defesa do avanço na análise da PEC, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) comparou a jornada dos trabalhadores à dos parlamentares. Ele lembrou que o período de campanha eleitoral começa em agosto e disse que o eleitor precisa cobrar seus representantes.
— Muitos que vão aí pedir voto para você não querem votar o fim da escala 6×1, querem fazer você trabalhar igual a um condenado no 6×1, e nós aqui trabalhando, durante este ano de 2026, o que não vai dar nem um mês de trabalho, do jeito que está aí — criticou.
Eleições
Outros senadores demonstram preocupação com os efeitos da PEC e defendem que a votação fique para depois das eleições. Em sessão temática no início de julho, o líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN), defendeu o amadurecimento do debate e a discussão do tema fora do período eleitoral.
— Não é proibido, não é interditado discutirmos jornada de trabalho. Pelo contrário, é uma discussão que tem que acontecer. Mas por que agora? Por que neste momento? — questionou o senador.
No mesmo debate, o senador Jayme Campos (União-MT) afirmou que votará a favor da PEC, mas defendeu que o debate seja feito com serenidade e que todos os setores sejam ouvidos para que a solução seja equilibrada.
— Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de tempo dedicado à família, ao descanso, à qualificação profissional e, ao mesmo tempo, da competitividade das empresas e da capacidade de gerar empregos. É justamente por isso que este debate exige serenidade, responsabilidade e diálogo — ponderou.
Outras propostas
Também na sessão temática, o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) criticou a falta de estudos de impacto econômico e social da medida durante a análise na Câmara e afirmou que a PEC vai ter consequências negativas na economia. Ele defendeu a aprovação de outra proposta em análise no Senado.
— Defendemos a PEC 12/2026, que permite ao trabalhador negociar uma jornada flexível de acordo com as suas necessidades. Direitos como férias, décimo terceiro e FGTS seguirão de forma proporcional à jornada acordada — garantiu.
A proposta foi apresentada pelo senador Rogerio Marinho logo após a chegada da PEC 221 ao Senado. Pela proposta, seria possível escolher entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. A PEC deixa claro que o contrato individual prevalece sobre possíveis acordos coletivos. Benefícios como FGTS, férias e 13º salário também seriam proporcionais às horas trabalhadas.
Na Câmara, a PEC 221 era analisada junto com outra proposta, a PEC 8/2025, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que previa uma carga máxima de 36 horas em quatro dias de trabalho. O texto foi arquivado.
Outro projeto, o PL 1.838/2026, foi apresentado em abril pelo Executivo. Ele define em 40 horas semanais o limite da jornada normal de trabalho e garantir ao trabalhador dois repousos semanais remunerados de 24 horas consecutivas. Após a aprovação da PEC 221, o governo retirou o pedido de urgência para o projeto, que segue em análise na Câmara.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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