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Produtores agrícolas revelam dificuldades para contratar funcionários

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Dois em cada três produtores agrícolas de Mato Grosso classificam como alta a dificuldade para contratar funcionários. O índice chegou a 62,62%, enquanto outros 30,34% relataram dificuldade média. Apenas 7,04% disseram enfrentar baixa dificuldade no preenchimento das vagas.

Os números fazem parte da pesquisa Mão de Obra na Agricultura de Mato Grosso 2026, elaborada pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar-MT). Foram ouvidos 415 produtores de 87 municípios entre março e abril. A margem de erro é de cinco pontos percentuais e o nível de confiança, de 95%, válidos para o resultado estadual. Veja a pesquisa completa.

O levantamento mostra que 83,82% dos produtores precisavam de trabalhadores no momento da entrevista. Entre eles, 63,77% buscavam operadores de máquinas agrícolas, função mais citada. Na sequência aparecem trabalhadores de serviços gerais, com 38,65%, técnicos agrícolas ou agrônomos, com 14,25%, monitores de pragas, com 10,87%, e gerentes ou encarregados, com 10,39%.

A lista ajuda a dimensionar a transformação do emprego no campo. A principal escassez já não está apenas em atividades braçais, mas em funções que exigem conhecimento de equipamentos, eletrônica embarcada, regulagem, manutenção, agricultura de precisão e interpretação de dados.

A falta de qualificação técnica foi apontada como principal obstáculo por 69,16% dos entrevistados. Outros 23,37% disseram que o perfil dos candidatos não corresponde às exigências das vagas. A dificuldade de manter o funcionário no cargo foi mencionada por 17,83%, seguida por problemas de relacionamento e convivência, com 13,49%.

O superintendente do Imea, Cleiton Gauer, avalia que, para funções braçais e operacionais específicas, “o risco de um apagão é real”. Segundo ele, além da tecnologia, há uma mudança geracional: filhos de trabalhadores e produtores que acompanharam as dificuldades enfrentadas pelos pais nem sempre enxergam a permanência na fazenda como projeto profissional. A avaliação foi divulgada na apresentação do estudo.

A pesquisa, no entanto, não permite concluir que a falta de qualificação seja a única causa do problema. O questionário foi respondido por produtores, não por trabalhadores, e não levantou salários pagos, jornadas, propostas recusadas nem os motivos apresentados por funcionários que deixaram as propriedades.

Referências a “níveis salariais mais elevados” aparecem apenas entre as respostas reunidas na categoria “outros”, que somou 7,47% e inclui também falta de experiência. Como essas respostas não foram separadas, não é possível calcular quantos produtores enfrentam dificuldades porque os candidatos consideram a remuneração insuficiente.

Os dados nacionais mostram que o salário pode fazer parte da explicação. Em maio de 2026, o salário médio de admissão na agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura foi de R$ 2.201,85, segundo o Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged). O valor ficou 7,6% abaixo da média de todas as atividades, de R$ 2.384,10.

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Também ficou abaixo dos salários de entrada da construção, de R$ 2.589,90, da indústria, de R$ 2.498,83, e dos serviços, de R$ 2.446,38. Por outro lado, superou as médias do comércio, de R$ 2.127,32, e de alojamento e alimentação, de R$ 1.980,77. Portanto, o agro não tem a menor remuneração de entrada, mas disputa trabalhadores com setores que, em média, pagam mais e oferecem empregos próximos às cidades.

Um levantamento do Portal Salário baseado nos registros do Caged indica que um peão agropecuário recebe, em média, R$ 2.353 mensais em Mato Grosso para jornada de 44 horas semanais. No país, a média do trabalhador agropecuário em geral é de R$ 1.947,86. Já o operador de máquinas agrícolas recebe, nacionalmente, R$ 2.734,70. Os valores consideram o salário-base registrado, sem bônus, horas extras e adicionais.

A comparação indica que os salários nominais de algumas ocupações rurais em Mato Grosso podem superar a média nacional da própria função. Isso, contudo, não significa que a remuneração seja suficiente para atrair e reter trabalhadores. Distância dos centros urbanos, separação da família, jornadas concentradas durante plantio e colheita, condições de alojamento e poucas perspectivas de progressão profissional também entram na decisão.

As próprias fazendas tentam compensar parte dessas dificuldades com benefícios. Alimentação é fornecida por 85,19% das propriedades pesquisadas e moradia ou alojamento, por 84,95%. Transporte aparece em 29,37%, plano de saúde em 12,62% e internet em 7,52%. Além disso, 85,92% dos produtores oferecem algum tipo de bonificação aos funcionários fixos, principalmente por produtividade.

A situação é diferente para os trabalhadores temporários, contratados por 86,47% das propriedades. Apenas 10,61% dos produtores oferecem bonificação aos safristas. Como plantio e colheita elevam a demanda por períodos curtos, a ausência de incentivos adicionais pode reduzir a capacidade de atrair profissionais experientes justamente nos momentos mais críticos.

Outro fator importante é o mercado de trabalho aquecido. A taxa de desemprego em Mato Grosso foi de apenas 3,1% no primeiro trimestre de 2026, a segunda menor do país e quase a metade da média brasileira, de 6,1%. A taxa de subutilização da força de trabalho também ficou em 6,7%, ante 14,3% no Brasil. Isso significa que há proporcionalmente menos pessoas disponíveis para ocupar novas vagas. Os indicadores são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE.

A agropecuária mato-grossense ainda ampliou a contratação no início do ano. Mais de 12 mil empregos formais foram criados em janeiro e fevereiro. Somente em janeiro, o Estado respondeu por 43% do saldo de vagas da agropecuária brasileira, com mais de 10 mil postos. A procura crescente pressiona um mercado que já tem pouca mão de obra disponível. Os números foram compilados a partir do Caged.

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No país, o agronegócio empregou o recorde de 28,4 milhões de pessoas em 2025, o equivalente a 26,3% da população ocupada. O crescimento, porém, ocorreu principalmente nos agrosserviços, nos insumos e na agroindústria. Dentro da porteira, o número de trabalhadores recuou 1,1%, com queda de 1,8% na agricultura. Os dados são do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.

Esse movimento mostra que o agro continua criando empregos, mas uma parcela crescente das oportunidades está fora da produção primária e exige maior escolaridade. Nas fazendas, máquinas maiores, automação e agricultura digital reduzem a quantidade de trabalhadores necessária, ao mesmo tempo que aumentam a qualificação exigida de quem permanece.

Em Mato Grosso, 76,39% dos produtores não pretendem ampliar a equipe nas próximas três safras. Entre eles, 18,06% disseram ter optado por máquinas mais eficientes. A substituição de trabalhadores por tecnologia, contudo, não elimina a demanda. Ela concentra a necessidade em profissionais capazes de operar equipamentos cada vez mais caros e complexos.

Também há falhas na forma de buscar candidatos. Mais da metade das propriedades, 53,98%, não possui um responsável formal por recursos humanos. A indicação pessoal é utilizada por 91% dos entrevistados, enquanto canais digitais aparecem em 30,66%, agências de emprego em 10,95% e o Sistema Nacional de Emprego em apenas 0,97%. A dependência de redes informais limita o alcance das vagas e pode impedir o encontro entre trabalhadores disponíveis e fazendas distantes.

A capacitação avançou, mas ainda enfrenta obstáculos. Segundo a pesquisa, 81,20% dos produtores promovem treinamentos. A falta de tempo foi apontada por 35,59%, a ausência de cursos na região por 27,85% e o desinteresse dos funcionários por 25,42%. O Senar-MT é utilizado por 71,13% dos produtores que capacitam suas equipes, e 73,44% disseram ter percebido aumento de eficiência depois dos cursos.

O diagnóstico, portanto, não aponta uma causa isolada. Os salários de entrada do agro ficam abaixo da média geral brasileira e podem tornar algumas vagas menos atraentes, principalmente diante da distância e das condições de trabalho. Mas a escassez também decorre do desemprego muito baixo em Mato Grosso, da exigência crescente de qualificação, da dificuldade de retenção e de sistemas de recrutamento ainda baseados em indicações.

Para determinar o peso exato da remuneração, uma próxima pesquisa precisaria ouvir também os trabalhadores e levantar salário-base, benefícios, jornada, rotatividade, propostas recusadas e razões dos desligamentos. Sem essas informações, atribuir a dificuldade apenas à falta de qualificação transfere toda a responsabilidade aos candidatos e deixa de medir se as vagas oferecidas são competitivas.

Fonte: Pensar Agro

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Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor

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Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.

A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.

Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.

Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.

Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.

“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.

Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.

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A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.

A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.

“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.

A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.

Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.

As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.

Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.

Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.

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Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.

Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.

“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.

Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.

No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.

A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.

A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.

O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.

Fonte: Pensar Agro

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