AGRONEGÓCIO
Acordo União Europeia-Mercosul fortalece o agro de Santa Catarina e amplia perspectivas para o comércio exterior brasileiro
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Assinatura do Acordo UE–Mercosul abre nova era para o comércio agroindustrial
A assinatura do Acordo União Europeia–Mercosul, marcada para o dia 17 de janeiro, representa um passo histórico nas relações comerciais entre os dois blocos e reacende o otimismo no agronegócio catarinense. O tratado prevê redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, além de harmonização de regras comerciais, investimentos e padrões regulatórios.
O acordo também traz avanços na simplificação aduaneira, reconhecimento de certificações, transparência e redução da burocracia, fatores que devem facilitar o comércio e ampliar a competitividade dos produtos agrícolas e industriais dos países do Mercosul — com destaque para o Brasil.
Santa Catarina se posiciona como protagonista nas exportações agroindustriais
Santa Catarina entra nesse novo contexto com forte presença no mercado europeu, sobretudo em produtos agroindustriais de maior valor agregado. Segundo o Observatório Agro Catarinense, as exportações do agro catarinense para a União Europeia somaram US$ 765 milhões em 2025, um aumento de 15,4% em relação ao ano anterior.
Entre os principais produtos embarcados, destacam-se:
- Carnes de frango e derivados: US$ 335,7 milhões;
- Madeiras e obras de madeira: US$ 186,5 milhões;
- Tabaco e derivados: US$ 99 milhões;
- Móveis de madeira: US$ 54 milhões.
Os Países Baixos, Bélgica, Espanha, Itália, Alemanha, Portugal e França estão entre os principais destinos dessas exportações, confirmando o peso estratégico do mercado europeu para o agro catarinense.
Impactos do acordo: oportunidades e desafios à vista
Para o analista de Socioeconomia e Desenvolvimento Rural da Epagri/Cepa, Roberth Andres Villazon Montalvan, o acordo traz grande potencial para o agronegócio de Santa Catarina, mas sua efetivação dependerá da ratificação pelos parlamentos dos países envolvidos — um processo que pode levar de seis a sete meses.
“Os efeitos práticos só devem ser sentidos a partir do segundo semestre de 2027, após a conclusão dos trâmites burocráticos. É essencial acompanhar os termos finais do tratado para entender com precisão seus benefícios e riscos para o setor”, explica o especialista.
Ele destaca ainda que, enquanto o acordo não for implementado integralmente, partes do tratado poderão ser aplicadas de forma provisória, especialmente as ligadas à redução tarifária, dependendo de consenso político entre os países membros.
Barreiras técnicas e concorrência europeia seguem como desafios
Embora a abertura de mercado seja vista como uma conquista, as barreiras não tarifárias — como exigências sanitárias e técnicas — permanecem como obstáculos significativos. Produtos como mel e derivados agrícolas enfrentam exigências rigorosas que dificultam o acesso ao mercado europeu.
Além disso, o acordo deve estimular a concorrência na indústria de alimentos da União Europeia, o que pode impactar cadeias produtivas brasileiras ligadas a chocolates, bebidas, massas, farinhas e outros derivados agrícolas.
Diversificação de mercados e adaptação do agro catarinense
O avanço do Acordo UE–Mercosul reflete uma estratégia de diversificação de mercados adotada por Santa Catarina, especialmente após o aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos em 2025.
Com o tratado, o mercado europeu tende a ganhar maior relevância para os produtos catarinenses, fortalecendo o papel do estado como um exportador de alimentos seguros e de qualidade.
“O desafio é aproveitar as oportunidades sem ignorar os ajustes regulatórios e institucionais que virão. Santa Catarina tem condições de se adaptar e de consolidar sua imagem como fornecedor confiável no comércio internacional”, afirma Villazon Montalvan.
União Europeia: um dos principais parceiros comerciais de Santa Catarina
As importações catarinenses oriundas da União Europeia também registraram crescimento. Em 2025, o estado importou US$ 941 milhões em produtos do bloco, alta de 6% em relação ao ano anterior.
A pauta é liderada por bebidas alcoólicas e não alcoólicas, sucos e vinagres, açúcares, cacau e chocolates, além de carnes suínas e derivados. Os principais países de origem dessas importações foram Portugal, Áustria, Itália, Alemanha, Países Baixos, Espanha e Bélgica.
Esses números consolidam a União Europeia como um dos principais parceiros comerciais de Santa Catarina, tanto nas exportações quanto nas importações do setor agroalimentar.
Perspectiva: integração global e fortalecimento da competitividade
Com a consolidação do Acordo UE–Mercosul, Santa Catarina deve ampliar sua participação no comércio internacional, especialmente em produtos com alto padrão sanitário e valor agregado.
A expectativa é que o estado fortaleça sua imagem de excelência na produção de alimentos, impulsionando investimentos, inovação e geração de emprego no campo e na indústria.
“O acordo não é um fim, mas um novo começo para o agro catarinense. Ele abre portas, mas exige preparo, adaptação e estratégia”, conclui Villazon Montalvan.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor
Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.
A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.
Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.
Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.
“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.
Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.
A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.
A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.
“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.
A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.
Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.
As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.
Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.
Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.
Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.
Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.
“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.
Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.
No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.
A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.
A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.
O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.
Fonte: Pensar Agro
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