AGRONEGÓCIO
Avicultura brasileira ganha espaço para liderar agenda global de bem-estar animal e ampliar competitividade nas exportações
AGRONEGÓCIO
O Brasil, maior exportador mundial de carne de frango e um dos principais produtores globais de proteína animal, vive um momento estratégico para consolidar sua liderança internacional. Além da eficiência produtiva, a competitividade da avicultura brasileira passa a depender cada vez mais de fatores como bem-estar animal, rastreabilidade, sustentabilidade, biossegurança e uso responsável de antimicrobianos.
A avaliação integra a terceira edição do Observatório do Frango, estudo desenvolvido pela Alianima, que analisa as transformações do mercado global de alimentos e destaca que o bem-estar animal deixou de ser um tema secundário para ocupar posição estratégica nas cadeias internacionais de produção de proteína.
Segundo o levantamento, consumidores, investidores, governos e grandes compradores internacionais exigem cada vez mais transparência sobre a origem dos alimentos e as práticas adotadas durante toda a cadeia produtiva.
Bem-estar animal passa a influenciar acesso aos mercados
O estudo mostra que temas ligados ao conceito de Saúde Única, resistência antimicrobiana, influenza aviária e sustentabilidade estão cada vez mais integrados às exigências comerciais internacionais.
Esse movimento ganhou ainda mais força com o avanço das negociações entre Mercosul e União Europeia, que ampliaram o debate sobre padrões de produção e elevaram o nível de exigência em relação às boas práticas adotadas pelas cadeias agroalimentares.
Na avaliação da médica-veterinária Ana Paula Souza, especialista em bem-estar de aves da Alianima, a discussão ultrapassa aspectos éticos e passa a impactar diretamente a competitividade do setor.
“Não se trata apenas de uma discussão sobre bem-estar animal. Estamos falando de fatores que influenciam acesso a mercados, percepção de risco, reputação e competitividade ao longo de toda a cadeia produtiva”, afirma.
Brasil reúne vantagens para liderar essa agenda
A publicação realizou uma análise estratégica baseada na metodologia FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas e Ameaças) para avaliar o posicionamento da avicultura brasileira diante das mudanças globais.
Entre os principais diferenciais competitivos do país estão:
- modelo consolidado de integração entre produtores e agroindústrias;
- elevado padrão de biossegurança e controle sanitário;
- ampla capacidade técnica da cadeia produtiva;
- potencial de inovação tecnológica;
- experiência na gestão da qualidade e eficiência produtiva.
Esses fatores colocam o Brasil em posição favorável para participar da construção das novas referências internacionais relacionadas ao bem-estar animal.
Por outro lado, o estudo aponta desafios importantes, como ampliar a coordenação entre os diferentes agentes da cadeia, fortalecer mecanismos de transparência e antecipar tendências regulatórias que já avançam em mercados compradores.
Transparência torna-se diferencial competitivo
Segundo a análise, deixar de adotar compromissos estruturados relacionados ao bem-estar animal deixou de representar uma posição neutra.
A ausência de metas, indicadores e divulgação consistente das práticas adotadas pode aumentar a percepção de risco por parte de investidores e compradores internacionais, além de dificultar a construção de uma imagem sólida da avicultura brasileira.
Para especialistas, o fortalecimento dessa agenda depende de uma estratégia coordenada entre empresas, entidades e produtores.
Grandes empresas já ampliam divulgação de indicadores
O levantamento destaca que parte das principais companhias do setor já incorporou indicadores de bem-estar animal em seus relatórios de sustentabilidade.
Empresas como BRF e Seara aparecem entre aquelas que apresentam informações mais consolidadas sobre manejo, densidade de alojamento das aves e metas relacionadas às condições de criação, alinhando-se às expectativas de investidores e dos mercados internacionais.
A tendência indica que a adoção de métricas de desempenho deve ganhar importância crescente nos próximos anos.
Produção brasileira já avança em práticas mais modernas
O estudo revela que aproximadamente 1,5 bilhão de aves são produzidas atualmente no Brasil sob parâmetros de densidade de alojamento considerados mais avançados em bem-estar animal.
Esse volume representa cerca de 27,7% da produção nacional, demonstrando que parte significativa das melhorias já está incorporada à cadeia produtiva.
Apesar disso, os pesquisadores apontam que ainda existe espaço para ampliar a formalização de metas, indicadores e mecanismos de transparência capazes de evidenciar os avanços já alcançados pelo setor.
Oportunidade para fortalecer a liderança mundial
Na avaliação dos especialistas, o principal desafio da avicultura brasileira não está na capacidade produtiva, mas na construção de uma agenda nacional capaz de transformar boas práticas já existentes em um diferencial competitivo reconhecido globalmente.
Combinando eficiência produtiva, sanidade animal, inovação tecnológica e compromisso crescente com sustentabilidade e rastreabilidade, o Brasil reúne condições para assumir protagonismo na definição dos novos padrões internacionais do setor.
Segundo Ana Paula Souza, a discussão não é mais sobre a necessidade de adaptação, mas sobre quem irá liderar esse processo.
“A questão não é se haverá mudanças nas expectativas dos mercados internacionais, mas quem irá liderar esse processo. O Brasil reúne condições para participar da construção dessas soluções, e não apenas reagir a exigências externas no futuro”, conclui a especialista.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor
Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.
A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.
Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.
Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.
“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.
Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.
A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.
A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.
“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.
A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.
Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.
As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.
Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.
Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.
Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.
Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.
“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.
Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.
No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.
A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.
A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.
O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.
Fonte: Pensar Agro
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