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Café brasileiro dispara e ultrapassa R$ 500 por saca, mas mercado segue volátil
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O mercado de café no Brasil encerrou agosto em forte alta, com a colheita concluída e preços que superaram R$ 500 por saca de 60 kg. Dados do Cepea mostram valorização expressiva: o robusta avançou quase 50%, enquanto o arábica acumulou alta de 28%. Segundo pesquisadores, a disparada é resultado de uma oferta limitada, com quebras de produção superiores às estimativas iniciais, o que deve dificultar a recomposição dos estoques globais.
Outro fator que sustenta os preços é a tarifação extra dos Estados Unidos sobre o café brasileiro. Mesmo reduzindo os embarques, as taxas impulsionaram os preços no mercado norte-americano, refletindo em ganhos nos contratos da Bolsa de Nova York (ICE Futures) e, consequentemente, no mercado interno.
Clima adverso pressiona safra e aumenta incertezas
O clima tem sido outro elemento de instabilidade. De acordo com boletim do Escritório Carvalhaes, a safra 2025 está em fase final de colheita e confirma perdas expressivas no arábica. O padrão climático irregular, marcado por secas, chuvas desordenadas, geadas e até granizo, comprometeu a produção e afastou a expectativa de uma safra recorde em 2026.
A Bloomberg destaca que a volatilidade deve continuar, já que a indefinição sobre as tarifas americanas segue pesando nas negociações internacionais. Nesta quarta-feira (3), por volta das 9h15 (horário de Brasília), o contrato de arábica na ICE avançava 710 pontos, cotado a 389,30 cents/lbp para setembro/25, enquanto o robusta oscilava entre quedas e ganhos nos vencimentos futuros.
Poucos negócios no mercado físico brasileiro
No Brasil, o dia foi de retração nas negociações. Apesar da alta de mais de 1% na Bolsa de Nova York, a queda do dólar frente ao real (–0,57%, a R$ 5,44) inibiu a movimentação dos produtores, que preferem aguardar cenários mais favoráveis. Segundo a Safras & Mercado, o volume de negócios na terça-feira (2) foi baixo, com preços pressionados pelos referenciais externos.
No sul de Minas, o arábica bebida boa com 15% de catação recuou para R$ 2.320,00/2.325,00 a saca. No cerrado mineiro, o arábica bebida dura foi negociado a R$ 2.330,00/2.335,00. Já o arábica “rio” tipo 7 na Zona da Mata ficou em R$ 1.810,00/1.815,00. No Espírito Santo, o conilon tipo 7 caiu para R$ 1.435,00/1.440,00 a saca.
Estoques globais e cenário financeiro
Os estoques certificados de café nos armazéns credenciados da ICE Futures somavam 699.404 sacas de 60 kg em 2 de setembro, queda de 10.792 sacas em relação ao dia anterior.
No câmbio, além da desvalorização do dólar, o Dollar Index também registrou baixa de 0,15%, a 98,242 pontos. Nos mercados globais, as bolsas da Ásia encerraram em queda, enquanto as principais da Europa operavam em alta. Já o petróleo WTI para outubro recuava 2,28%, a US$ 64,10 o barril em Nova York.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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