AGRONEGÓCIO
Com o Agro Show Solidário, modelo de cidadania, termina nesta sexta o Show Safra MT
AGRONEGÓCIO
Após uma semana marcada por lançamentos tecnológicos, debates sobre produtividade e forte movimentação de negócios, o Show Safra Mato Grosso chega ao fim nesta sexta-feira (27,03) em Lucas do Rio Verde (330 km da capital, Cuiabá), consolidando-se como um dos principais eventos do agronegócio brasileiro. Ao longo dos últimos dias, produtores, empresas e especialistas circularam pelos estandes da feira, em uma programação que combinou difusão de conhecimento técnico e articulação comercial em larga escala.
Organizado pela Fundação Rio Verde, o evento manteve o perfil que o projetou nacionalmente: vitrine de inovação, com ênfase em tecnologias voltadas ao aumento de produtividade e à sustentabilidade no campo. Mas, para além dos negócios, a edição deste ano voltou a evidenciar um movimento crescente dentro do setor, o fortalecimento de iniciativas de impacto social.
E nesse contexto foi realizado o Agro Show Solidário, iniciativa criada pela Associação dos Engenheiros Agrônomos de Lucas do Rio Verde e incorporada à programação oficial do Show Safra Mato Grosso como um dos principais eventos de caráter social da feira. Realizado anualmente e já em sua quinta edição, o encontro reúne produtores, empresas e comunidade em uma noite beneficente voltada à arrecadação de recursos para entidades locais de saúde e assistência. O evento realizado na última terça-feira (25) e reuniu mais de mil pessoas no Pavilhão Roberto Munaretto, em uma noite que combinou entretenimento e mobilização comunitária. Toda a arrecadação será destinada ao Hospital São Lucas.
Presidente da associação, Pedro Duarte afirmou que a iniciativa sintetiza o papel social desempenhado por entidades ligadas ao agro em regiões de forte expansão produtiva. “É uma festa que fazemos para retribuir à sociedade. Este ano, 100% do resultado será para o Hospital São Lucas. Quanto melhor a festa, maior a contribuição”, disse.
Criada em 2011, a associação reúne hoje cerca de 160 profissionais e, segundo o dirigente, cumpre também uma função de integração. “Muitos chegam à cidade sozinhos. A entidade ajuda a conectar essas pessoas, discutir a profissão e inseri-las na comunidade”, afirmou. Retomada em 2020, após um período de inatividade, a organização ampliou sua base e se consolidou como a maior do gênero no Estado.
O Agro Show Solidário nasceu justamente desse processo de reorganização. De acordo com Duarte, a primeira edição foi estruturada em tempo recorde. “A gente fez com 17 dias de preparação e sem experiência. Hoje, com planejamento de mais de um ano, ainda é complexo. Isso mostra o quanto o evento cresceu”, afirmou.
A estrutura montada reflete essa evolução. Cerca de 300 pessoas estiveram envolvidas na organização, incluindo equipes de apoio, segurança e operação gastronômica. No formato open food, o evento contou com 14 estações de churrasco, oferecendo cortes bovinos, suínos, cordeiro e peixe, além de apresentações musicais — com destaque para o show da dupla Rick & Renner.
A proposta, segundo a organização, foi garantir fluidez no atendimento e manter o padrão que transformou o Agro Show em referência regional. A estimativa é de que mais de duas toneladas de carne tenham sido preparadas ao longo da noite.
Para a Fundação Rio Verde, a iniciativa reforça a integração entre o ambiente de negócios e as demandas sociais do município. O diretor executivo da entidade, Rodrigo Pasqualli, avaliou que o evento amplia o alcance da feira. “O Agro Show Solidário enriquece a programação do Show Safra. Ele mostra a capacidade de mobilização da comunidade em torno de uma causa concreta”, disse.
Pedro Duarte entrega o Prêmio Terra e Progresso a Luiz Carlos Nava
Um dos momentos mais simbólicos da noite foi a entrega do Prêmio Terra e Progresso ao engenheiro agrônomo Luiz Carlos Nava, reconhecido como pioneiro no desenvolvimento agrícola da região. A homenagem destacou uma trajetória iniciada ainda na década de 1980, período de consolidação da atividade produtiva em Lucas do Rio Verde, e que se estende por mais de quatro décadas de atuação no Estado.
Ao entregar o Prêmio Terra e Progresso, o presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Lucas do Rio Verde, Pedro Duarte, destacou a trajetória de Luiz Carlos Nava como indissociável da própria história agrícola de Lucas do Rio Verde. “Estamos homenageando um profissional cuja caminhada se confunde com o desenvolvimento da nossa região. É a história de quem acreditou quando ainda havia incertezas e ajudou a construir o que hoje é referência nacional no agronegócio”, afirmou.
Formado técnico agrícola em 1973, no Colégio Agrícola de Erechim (RS), e graduado em 1979, Nava chegou ao município em 1983 para atuar na Fazenda Divisão, do Grupo J. Basso, onde, ao lado de Carlos Simon, participou de um dos ciclos mais decisivos de expansão produtiva local. Em 1995, ambos fundaram a Plantar, inicialmente voltada às próprias lavouras, então com cerca de 200 hectares. “A trajetória do Nava representa perseverança, competência e compromisso com o campo. É um exemplo para as novas gerações de profissionais”, acrescentou Duarte, ao ressaltar mais de quatro décadas de contribuição direta ao desenvolvimento do agronegócio mato-grossense.
Ao encerrar mais uma edição, o Show Safra reafirma não apenas sua relevância econômica de Lucas, mas também o papel que o agronegócio local vem assumindo na articulação de iniciativas voltadas à comunidade. Em um cenário de alta competitividade e transformação tecnológica no campo, a combinação entre inovação e responsabilidade social se consolida como um dos eixos centrais do setor.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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