AGRONEGÓCIO
Embrapa lança plataforma que integra vigilância sanitária e análise de risco de doenças suínas
AGRONEGÓCIO
Ferramenta estratégica para a suinocultura nacional
A Embrapa Suínos e Aves (SC) lançou nesta semana a Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS), uma plataforma digital que reúne e analisa dados sanitários de granjas de todo o Brasil.
A iniciativa tem como objetivo fortalecer a vigilância epidemiológica, o controle de doenças e a biosseguridade, além de apoiar políticas públicas e aprimorar a sustentabilidade do setor suinícola nacional.
Desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a CISS permite a integração e padronização de informações sanitárias, utilizando códigos e protocolos internacionalmente reconhecidos, o que facilita o intercâmbio de dados com outros países e eleva o padrão de qualidade da produção brasileira.
Santa Catarina reforça liderança na produção de suínos
Sede da unidade da Embrapa responsável pelo projeto, Santa Catarina se mantém como o maior produtor e exportador de carne suína do Brasil, com recorde de 17,97 milhões de abates em 2024.
O estado é referência em sanidade e produtividade, fatores decisivos para o fortalecimento da imagem do país no mercado internacional.
Segundo a pesquisadora Janice Zanella, líder da iniciativa, a CISS é uma ferramenta que “transforma dados em inteligência estratégica”, permitindo análises preditivas e retrospectivas que ajudam a antecipar riscos sanitários e a orientar decisões na cadeia produtiva.
Doenças respiratórias continuam sendo desafio para o setor
Entre os principais problemas de saúde animal, as Doenças do Complexo Respiratório Suíno (PRDC) seguem como grande preocupação. Essas enfermidades reduzem o ganho de peso, aumentam a mortalidade, o descarte de carcaças e o uso de antibióticos.
A CISS auxilia no monitoramento e análise de agentes causadores dessas doenças, como o vírus da influenza suína, o PRRSV, o circovírus suíno tipo 2 (PCV2) e o Mycoplasma hyopneumoniae, ampliando a capacidade de resposta do setor diante de surtos.
Como funciona a Central de Inteligência em Saúde Suína (CISS)
A plataforma funciona em cooperação com Laboratórios de Diagnóstico Veterinário (LDVs), que enviam dados obtidos a partir de milhares de amostras coletadas em granjas do país.
Essas informações são processadas e analisadas pela Embrapa, formando um banco de dados amplo e representativo da saúde dos rebanhos brasileiros.
Inspirada no Swine Disease Reporting System (SDRS) da Universidade Estadual de Iowa (EUA), a CISS permite análises dinâmicas e atualizadas por estado, tipo de produção e perfil sanitário, tornando-se uma referência nacional em vigilância animal.
Outro ponto importante é a padronização e interoperabilidade dos dados. A ferramenta adota sistemas como o LOINC e o SNOMED CT, utilizados mundialmente para codificação de informações clínicas.
Esse processo é conduzido em parceria entre a Embrapa e a UFMG, garantindo consistência e qualidade nos diagnósticos.
Resultados preliminares indicam sazonalidade de doenças
O projeto-piloto da CISS analisou mais de 253 mil amostras de suínos entre 2019 e 2025, com foco no Mycoplasma hyopneumoniae, agente da pneumonia enzoótica suína.
As análises revelaram picos de infecção no primeiro semestre de 2022, quando 38% dos casos apresentaram resultado positivo.
Os estados com maior número de registros foram Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
A identificação dessas tendências permite planejar ações preventivas, reduzindo perdas econômicas e fortalecendo a biosseguridade nas granjas.
Inteligência artificial e genômica: o futuro da vigilância sanitária
Os próximos passos da Embrapa incluem expandir o monitoramento para outros agentes patogênicos e incorporar novas tecnologias, como inteligência artificial (IA), big data e sequenciamento genômico.
Essas ferramentas poderão prever surtos, identificar variantes emergentes e acelerar respostas sanitárias em todo o território nacional.
“O desafio é transformar esses avanços em soluções acessíveis e sustentáveis para os produtores”, ressalta Janice Zanella.
Além disso, a Embrapa planeja disponibilizar relatórios mensais ao setor e promover encontros virtuais com profissionais da suinocultura, fortalecendo o diálogo técnico e o compartilhamento de informações.
Saúde Única: conexão entre humanos, animais e meio ambiente
A CISS está alinhada ao conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre saúde animal, humana e ambiental.
Segundo Zanella, “animais saudáveis reduzem o uso de antibióticos, o impacto ambiental e geram alimentos mais seguros”.
A pesquisadora destaca que médicos-veterinários e pesquisadores atuam como agentes de saúde global, fundamentais para prevenir doenças zoonóticas e proteger o equilíbrio ambiental.
A abordagem de Saúde Única vem sendo fortalecida dentro da agenda estratégica da Embrapa, com projetos integrados e publicações recentes, como o livro “Saúde Única: Caminho para a Resiliência do Planeta”, lançado durante a COP 30, em 2025.
Suinocultura e segurança alimentar: um compromisso global
A vigilância sanitária e o controle de doenças suínas são temas estratégicos para a segurança alimentar global.
Com o avanço da CISS, o Brasil reforça seu papel como referência em sanidade animal, garantindo produtividade, sustentabilidade e credibilidade internacional nas exportações de carne suína.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Vacilos do Trump faz Brasil se aproximar da liderança mundial no agro
A distância que durante décadas separou Brasil e Estados Unidos no comércio mundial do agronegócio praticamente desapareceu. Em 2025, os norte-americanos exportaram o equivalente a cerca de R$ 883 bilhões em produtos agrícolas, enquanto as vendas brasileiras chegaram a aproximadamente R$ 871 bilhões. Uma diferença de apenas 1,4% entre dois países que começaram este século em posições muito distantes.
Os dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram mais do que uma aproximação circunstancial. Enquanto o Brasil ampliou produção, produtividade e presença em novos mercados, as exportações norte-americanas cresceram em ritmo bem menor e passaram a enfrentar dificuldades em destinos estratégicos.
Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou R$ 871 bilhões, considerando a conversão dos valores divulgados oficialmente. Foi o maior resultado da série histórica e representou crescimento de 3% sobre o ano anterior.
Os Estados Unidos encerraram o mesmo período com aproximadamente R$ 883 bilhões em exportações agrícolas.
A diferença de cerca de R$ 12 bilhões é pequena diante do tamanho do comércio dos dois países e mostra quanto a posição relativa mudou.
No início dos anos 2000, as exportações agrícolas americanas eram mais de duas vezes e meia superiores às brasileiras. Em apenas cinco anos, enquanto as vendas externas dos Estados Unidos cresceram aproximadamente 14%, as brasileiras avançaram 68%.
O movimento continua em 2026.
Entre janeiro e julho, o agronegócio brasileiro exportou aproximadamente R$ 533 bilhões, novo recorde para o período. Somente em julho foram cerca de R$ 84 bilhões, também a maior marca já registrada para o mês.
Parte da aproximação pode ser explicada por uma diferença estrutural entre os dois concorrentes.
Os Estados Unidos possuem uma fronteira agrícola praticamente consolidada e enfrentam limitações para aumentar significativamente sua área cultivada. Na pecuária bovina, o rebanho norte-americano está próximo dos menores níveis das últimas sete décadas, situação que reduziu a disponibilidade de animais e aumentou a necessidade de importação de carne.
O Brasil ainda possui maior capacidade de crescimento da produção, seja pela incorporação de áreas já abertas, seja principalmente pelo aumento da produtividade e pela possibilidade de realizar duas ou até três safras na mesma área durante o ano.
Essa vantagem aparece com clareza na soja.
Brasil e Estados Unidos estão entre os grandes responsáveis pela oferta mundial da oleaginosa, mas o Brasil assumiu a liderança tanto na produção quanto nas exportações e passou a ocupar uma parcela crescente do mercado chinês.
A China é justamente onde a diferença entre os dois países se tornou mais evidente.
Em 2025, os chineses compraram aproximadamente R$ 285 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro. O país asiático respondeu sozinho por 32,7% de tudo o que o setor exportou.
No comércio agrícola norte-americano ocorreu o movimento contrário.
A China, que durante anos esteve entre os principais compradores dos Estados Unidos, caiu para a sexta posição entre os destinos do agro americano em 2025. As vendas recuaram 66% em apenas um ano, para aproximadamente R$ 43 bilhões.
O próprio USDA associa essa retração às tarifas recíprocas e à redução das compras chinesas de soja norte-americana.
A disputa comercial entre Washington e Pequim acelerou uma mudança que já vinha ocorrendo por razões produtivas. Diante das tarifas impostas aos produtos americanos, importadores chineses aumentaram a procura por fornecedores alternativos, e o Brasil estava em posição privilegiada para atender essa demanda.
O efeito ultrapassou a soja.
O Brasil ampliou participação internacional em carnes, algodão, milho e outros produtos agropecuários e passou a disputar mercados que historicamente tinham forte presença dos Estados Unidos.
Na carne bovina, a inversão é particularmente significativa. O Brasil consolidou-se como maior exportador mundial, enquanto os Estados Unidos, pressionados pela redução de seu rebanho, aumentaram as importações para abastecer o próprio mercado.
Essa situação levou recentemente o governo norte-americano a ampliar em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina magra que poderá entrar no país dentro da cota com tarifa reduzida até o fim deste ano, criando uma oportunidade adicional para fornecedores como o Brasil.
A política comercial adotada pelo governo Donald Trump acrescentou uma nova variável a essa disputa.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos atingiram também produtos brasileiros e criaram dificuldades para cadeias que dependem mais diretamente daquele mercado. Café, carnes, suco de laranja e determinados produtos industrializados estão entre os segmentos mais expostos às decisões de Washington.
O efeito sobre o conjunto do agronegócio brasileiro, entretanto, é limitado pela diversificação dos destinos.
Em 2025, os Estados Unidos compraram aproximadamente R$ 59 bilhões em produtos do agro brasileiro, equivalentes a 6,7% das exportações do setor. A China comprou quase cinco vezes esse valor.
Essa diferença ajuda a explicar por que medidas comerciais americanas podem provocar impactos severos em determinadas cadeias sem necessariamente interromper o crescimento das exportações do agronegócio como um todo.
Também mostra por que a abertura de mercados passou a ter peso estratégico para o Brasil. Quanto maior o número de compradores disponíveis para carnes, grãos, fibras, café, frutas e produtos processados, menor a dependência de decisões comerciais tomadas por um único país.
Para o produtor rural, a aproximação dos Estados Unidos no ranking mundial não representa apenas uma disputa estatística. Mercados adicionais significam mais alternativas para escoar a produção e podem aumentar a concorrência entre compradores, especialmente nas cadeias em que o Brasil já possui grande excedente exportável.
Há, porém, um risco nessa trajetória. A crescente concentração das vendas brasileiras na China aumenta a exposição às decisões do país asiático. Quase um terço das receitas do agro brasileiro no exterior depende atualmente daquele mercado.
Por isso, o próximo passo da expansão brasileira passa não apenas por vender mais, mas por diversificar compradores e aumentar o valor agregado dos produtos exportados.
A distância para os Estados Unidos, de qualquer forma, nunca foi tão pequena. Depois de décadas perseguindo o maior exportador agrícola do mundo, o Brasil chega à segunda metade de 2026 em condições de disputar uma posição que, no início deste século, parecia muito distante.
Fonte: Pensar Agro
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