AGRONEGÓCIO
Importações ganham papel estratégico no Brasil e pressionam custos das empresas em 2026
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A dinâmica da balança comercial brasileira está passando por uma mudança estrutural em 2026. Embora o Brasil continue registrando superávit comercial, especialistas alertam que a análise focada apenas nas exportações já não é suficiente para medir os impactos econômicos sobre empresas e cadeias produtivas.
O avanço das importações, aliado à dependência crescente de insumos estrangeiros, transformou o comércio exterior em um dos principais fatores de competitividade, formação de custos e sustentabilidade financeira das empresas brasileiras.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que a corrente de comércio brasileira movimentou mais de US$ 580 bilhões em 2025. Desse total, as importações ultrapassaram US$ 240 bilhões, evidenciando o peso das compras internacionais na economia nacional.
Ao mesmo tempo, levantamento da Confederação Nacional da Indústria aponta que custos logísticos, tributários e operacionais podem representar até 30% do valor total de uma operação de importação no país.
Dependência externa amplia riscos para empresas brasileiras
Segundo Thiago Oliveira, a importação deixou de ser apenas um indicador econômico e passou a exercer influência direta sobre a operação das empresas.
“A importação impacta custo, competitividade e até a viabilidade financeira de muitos negócios no Brasil”, afirma o especialista.
A forte dependência de insumos importados em setores industriais, tecnológicos e varejistas torna as empresas brasileiras mais vulneráveis às oscilações externas.
Quando há variações cambiais, crises geopolíticas ou gargalos logísticos internacionais, os efeitos rapidamente atingem o caixa, o planejamento financeiro e a cadeia de suprimentos das empresas.
“Grande parte da indústria brasileira depende de componentes importados. Qualquer distorção cambial ou atraso logístico afeta diretamente a operação”, explica Oliveira.
Volatilidade do dólar preocupa setor produtivo
O câmbio segue como um dos maiores desafios para empresas que atuam no comércio exterior.
Dados recentes da CNI mostram que 57% das empresas exportadoras e importadoras apontam a volatilidade cambial como um dos principais fatores de risco nas operações internacionais.
A oscilação do dólar interfere diretamente na formação de preços, no custo dos insumos e na previsibilidade financeira das empresas.
Além da alta da moeda americana, a falta de estabilidade cambial dificulta negociações com fornecedores internacionais e compromete o planejamento estratégico de médio e longo prazo.
“Não é apenas o valor do dólar que preocupa, mas a imprevisibilidade do câmbio. Empresas sem proteção financeira acabam absorvendo prejuízos silenciosos”, destaca o especialista.
Custos indiretos elevam pressão sobre margens
Apesar de muitas empresas recorrerem às importações para reduzir custos produtivos ou acessar insumos de maior qualidade, a falta de planejamento pode gerar efeito contrário.
Tributos, armazenagem, frete internacional, taxas portuárias e despesas operacionais elevam significativamente o custo final das operações.
Em alguns casos, os custos indiretos podem ultrapassar 50% do valor original da mercadoria importada, pressionando margens e afetando a competitividade das empresas brasileiras.
Além disso, problemas estruturais históricos do Brasil — como burocracia, infraestrutura logística limitada e elevada carga tributária — continuam encarecendo as operações de comércio exterior.
Benefícios fiscais ganham importância estratégica
Diante desse cenário, especialistas defendem que a importação passou a exigir planejamento estratégico e gestão integrada.
Regimes especiais e incentivos fiscais vêm sendo utilizados por empresas para reduzir custos e melhorar competitividade nas operações internacionais.
Estados como Alagoas, Santa Catarina e Minas Gerais possuem programas tributários específicos para importação, enquanto mecanismos como Recof, drawback e ex-tarifário permitem redução ou suspensão de tributos em determinadas operações.
No caso do drawback, por exemplo, empresas exportadoras conseguem importar insumos com benefícios fiscais quando destinados à fabricação de produtos voltados ao mercado externo.
Gestão cambial e suporte técnico reduzem riscos
Outro ponto considerado fundamental é a adoção de estratégias de proteção cambial.
Ferramentas como hedge, contratos a termo e contas internacionais em moeda estrangeira ajudam empresas a reduzir exposição ao dólar e ampliar previsibilidade financeira.
“Empresas que incorporam a gestão cambial na estratégia conseguem proteger margens, negociar melhor e crescer com maior estabilidade”, afirma Thiago Oliveira.
Especialistas também reforçam a importância do suporte técnico especializado nas operações de comércio exterior.
A complexidade tributária, regulatória e logística exige acompanhamento profissional para evitar erros operacionais, atrasos alfandegários e aumento de custos.
Importação deixa de ser operação tática e vira diferencial competitivo
O avanço das importações no Brasil evidencia uma mudança importante na lógica do comércio exterior brasileiro.
Enquanto as exportações continuam fundamentais para geração de divisas e crescimento econômico, as importações passaram a definir diretamente estrutura de custos, eficiência operacional e capacidade produtiva das empresas.
Segundo especialistas, companhias que conseguem estruturar adequadamente suas operações internacionais tendem a conquistar vantagens competitivas relevantes, como redução de custos, diversificação de fornecedores e maior eficiência produtiva.
“A importação bem planejada deixa de ser um problema e passa a ser uma ferramenta estratégica de crescimento. O diferencial está na gestão da operação”, conclui Oliveira.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor
Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.
A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.
Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.
Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.
“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.
Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.
A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.
A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.
“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.
A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.
Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.
As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.
Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.
Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.
Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.
Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.
“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.
Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.
No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.
A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.
A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.
O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.
Fonte: Pensar Agro
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