AGRONEGÓCIO
Mercado de Trigo no Sul do Brasil e Internacional Passa por Ajustes
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O mercado de trigo brasileiro e internacional atravessa um período de ajustes, influenciado por fatores climáticos, logísticos e mudanças na oferta. No Sul do país, a comercialização segue ritmo diferente entre os estados, enquanto as bolsas globais registram movimentações mistas.
Ajustes no Trigo do Sul do Brasil
Em Santa Catarina, o mês mais curto e a limitação de espaço nos armazéns pressionaram a oferta de trigo de qualidade inferior, negociado a preços mais baixos, enquanto o restante das cotações manteve estabilidade. Os valores de balcão variam entre R$ 59,00 e R$ 64,00 por saca, dependendo da região. Produtores sinalizam intenção de reduzir a área cultivada de trigo na próxima safra, migrando para o milho.
No Rio Grande do Sul, a comercialização segue com menor disponibilidade para abastecer os moinhos locais nos próximos meses, impactada pelas vendas antecipadas para exportação e para outros estados. Compradores buscam trigo para março e abril entre R$ 1.070 e R$ 1.080, enquanto vendedores pedem R$ 1.100. Até 19 de fevereiro, foram embarcadas 1.477.046 toneladas de trigo, com mais 412.096 toneladas no line-up, devendo totalizar ao menos 1,89 milhão de toneladas, acima da projeção inicial. O preço FOB Rio Grande para trigo 12,5% gira em torno de US$ 232 por tonelada, enquanto o trigo importado é cotado a US$ 240 posto Rio Grande e US$ 257 desembaraçado em Canoas. O preço da pedra no produtor subiu para R$ 55,00 em Panambi.
No Paraná, os moinhos voltaram a comprar, mas permanecem atentos aos preços. A referência CIF moinho é R$ 1.250,00, com negócios entre R$ 1.200 e R$ 1.300, conforme qualidade e prazo. Há preocupação com a menor disponibilidade e a qualidade do trigo importado, especialmente o argentino, cotado a US$ 258 CIF Paranaguá.
Mercado Internacional: Bolsas Globais Apresentam Oscilações
No cenário internacional, o comportamento do trigo foi misto nas principais bolsas, influenciado por ajustes técnicos e previsões climáticas. Na Bolsa de Chicago, o contrato de março do trigo brando SRW caiu 0,31%, fechando a 565,75 centavos de dólar por bushel, enquanto o vencimento maio recuou 0,61%. Em Kansas, o trigo duro HRW para março teve baixa de 0,32%, a 552,50 centavos por bushel. Por outro lado, o trigo HRS de primavera negociado em Minneapolis subiu 0,69%, a 583,50 centavos. Na Europa, o contrato de março do trigo para moagem na Euronext Paris encerrou o dia em queda de 1,15%, a 193 euros por tonelada.
A consultoria russa SovEcon revisou para baixo as exportações da safra atual, mas elevou a projeção para 2026/27. A previsão indica que, apesar de ajustes pontuais e perda momentânea de competitividade frente ao trigo europeu, a oferta global seguirá elevada. A logística de inverno no Mar Negro tem dificultado embarques russos, favorecendo a valorização do trigo de primavera de Minneapolis, que compete diretamente com o produto russo no mercado internacional.
Fatores que Impactam a Formação de Preços
Segundo a TF Agroeconômica, a movimentação nos mercados internos e externos está sendo guiada por:
- Previsão de chuvas acima da média nas Grandes Planícies dos Estados Unidos, melhorando as lavouras de inverno e reduzindo riscos imediatos à oferta;
- Demanda interna brasileira para moinhos e exportação;
- Qualidade e preço do trigo importado, com destaque para o argentino;
- Problemas logísticos russos no Mar Negro, que alteram a dinâmica global.
O cenário atual evidencia a necessidade de monitoramento constante pelos produtores, compradores e investidores, considerando tanto fatores climáticos quanto movimentos de comércio internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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