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Mercado do trigo dispara com clima nos EUA e tensão no Sul do Brasil; preços seguem firmes

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O mercado de trigo vive um momento de forte atenção climática e volatilidade nos preços, tanto no cenário internacional quanto no Brasil. Enquanto os contratos futuros avançam na Bolsa de Chicago (CBOT) diante das preocupações com a seca nas regiões produtoras dos Estados Unidos, o mercado brasileiro apresenta ritmo desigual entre os estados do Sul, com negócios mais firmes no Rio Grande do Sul, lentidão em Santa Catarina e ajustes pontuais no Paraná.

Além do clima adverso nos EUA, o mercado acompanha o avanço do plantio da safra de inverno no Brasil, os riscos de excesso de chuvas associados ao El Niño e o comportamento da demanda global pelo cereal.

Chicago sobe forte com seca nas lavouras americanas

Os preços internacionais do trigo iniciaram a semana em alta expressiva na Bolsa de Chicago, sustentados principalmente pelas preocupações climáticas nas áreas produtoras de trigo de inverno dos Estados Unidos.

Os contratos futuros operaram com valorização nos principais vencimentos:

  • Maio/26: US$ 6,07 por bushel, alta de 5 pontos;
  • Julho/26: US$ 6,28/bu, avanço de 9 pontos;
  • Setembro/26: US$ 6,43/bu, valorização de 9 pontos;
  • Dezembro/26: US$ 6,63/bu, alta de 8 pontos.

O principal fator de sustentação continua sendo a seca nas Planícies norte-americanas. Dados do USDA apontam que 70% da área de trigo de inverno nos Estados Unidos está sob algum grau de seca, contra 22% no mesmo período do ano passado.

No Kansas, principal estado produtor, a situação climática preocupa ainda mais o mercado:

  • seca moderada em 59,55% da área;
  • seca severa em 40,18%;
  • seca extrema em 5,84%.

A previsão de chuvas limitadas antes do início da colheita mantém as dúvidas sobre produtividade e qualidade das lavouras americanas.

Exportações dos EUA e demanda global sustentam o mercado

Outro importante fator de sustentação para o trigo internacional vem das exportações americanas.

Os Estados Unidos já comercializaram 24,76 milhões de toneladas na temporada, volume acima das 24,49 milhões projetadas pelo USDA para todo o ciclo comercial. O desempenho aumenta a possibilidade de revisão nos estoques finais globais.

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A demanda internacional segue aquecida. A Argélia, por exemplo, realizou recentemente uma grande licitação envolvendo entre 810 mil e 1 milhão de toneladas do cereal.

Ao mesmo tempo, a Austrália pode reduzir em até 13% sua área plantada de trigo, diante da migração de produtores para culturas como canola e cevada.

Mercado brasileiro tem ritmo desigual no Sul

No Brasil, o mercado apresenta comportamentos distintos entre os principais estados produtores.

Segundo análises da TF Agroeconômica, o Rio Grande do Sul teve a semana mais ativa, com bons volumes negociados e preços praticamente estáveis em relação aos últimos dias.

Mesmo com a queda do dólar, não houve avanço significativo da oferta nem da demanda. Um dos pontos que chama atenção é a sobra de sementes relatada por sementeiros, sinalizando possível redução da área cultivada na nova safra.

Para trigo da safra nova, ocorreram negócios pontuais a R$ 1.250 por tonelada CIF porto e CIF moinhos. Até o momento, cerca de 40 mil toneladas já foram negociadas no mercado futuro, entre exportação e moagem.

O preço de balcão ao produtor em Panambi permaneceu estável em R$ 62,04 por saca pela segunda semana consecutiva.

Santa Catarina enfrenta mercado lento e pedidas elevadas

Em Santa Catarina, o mercado segue mais lento, acompanhando o ritmo reduzido das vendas de farinha.

As ofertas continuam vindo dos três estados do Sul, mas as pedidas seguem elevadas:

  • trigo catarinense: mínimo de R$ 1.350/t FOB;
  • trigo do Paraná: entre R$ 1.320 e R$ 1.350/t FOB no Sudoeste;
  • trigo gaúcho: entre R$ 1.350 e R$ 1.400/t FOB.

No mercado de balcão, os preços ficaram estáveis em Canoinhas, Xanxerê, Chapecó e Joaçaba, enquanto Rio do Sul e São Miguel do Oeste registraram alta.

Paraná registra leve acomodação nos preços

No Paraná, os moinhos permanecem abastecidos, provocando leve recuo nas pedidas em algumas regiões.

Na região central, os lotes foram negociados entre R$ 1.330 e R$ 1.350 FOB. No Norte do estado, os negócios variaram entre R$ 1.380 e R$ 1.400 FOB, enquanto em Ponta Grossa os preços giraram próximos de R$ 1.380 FOB.

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Para compradores, as indicações ficaram entre R$ 1.400 e R$ 1.430 CIF.

No mercado internacional, houve poucas ofertas de trigo argentino, com negócios próximos de US$ 280 por tonelada nacionalizada em Paranaguá.

El Niño e clima no Sul entram no radar do mercado

Além das preocupações internacionais, o mercado brasileiro monitora os impactos climáticos sobre a safra de inverno.

O avanço do El Niño aumenta os riscos de excesso de chuvas em importantes regiões produtoras do Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e no Paraná. O cenário gera preocupação sobre produtividade, qualidade e logística durante o desenvolvimento das lavouras.

Outro fator observado pelos agentes do setor é a possibilidade de formação de um Super El Niño até o fim de 2026, hipótese apontada pelo modelo climático europeu ECMWF. O risco climático já começa a ser incorporado aos preços futuros como prêmio de mercado.

Tendência é de preços firmes, mas com menor força

Apesar da recente perda de força nas cotações internacionais após realização de lucros por fundos investidores, o mercado brasileiro segue sustentado pela oferta restrita durante a entressafra.

No Paraná, indicadores do Cepea mostram que os preços acumulam valorização nos últimos 60 dias, embora o ritmo de alta tenha desacelerado nas últimas semanas.

A expectativa do setor é de manutenção dos preços em patamares elevados no curto prazo, porém com comportamento mais lateral, diante da combinação entre clima, custos elevados, ritmo lento de comercialização e oscilações em Chicago.

Com o plantio avançando no Sul do Brasil e o cenário climático cada vez mais sensível, produtores, cooperativas e moinhos seguem atentos às movimentações internacionais e às condições das lavouras para definir estratégias comerciais nas próximas semanas.

Fonte: Portal do Agronegócio

Fonte: Portal do Agronegócio

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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia

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A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.

O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.

Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.

O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.

Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.

A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.

A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.

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Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.

Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.

A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.

Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.

No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.

Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.

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A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.

O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.

A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.

O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.

Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.

Fonte: Pensar Agro

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