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Mercado do trigo mantém firmeza no Brasil, mas segue pressionado por dólar e concorrência externa
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Trigo mantém preços firmes no Brasil, mas avanço é limitado
Os preços do trigo seguem sustentados em importantes regiões produtoras, como Rio Grande do Sul e São Paulo. De acordo com o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), a firmeza dos valores é resultado da menor disponibilidade interna e do bom desempenho das exportações brasileiras.
Apesar desse suporte, a valorização da commodity tem sido contida pela queda do dólar frente ao real e pela desvalorização dos contratos futuros nas bolsas norte-americanas. Segundo dados da Secex, o Brasil exportou 370,6 mil toneladas de trigo em janeiro de 2026, praticamente todas oriundas do Rio Grande do Sul. No acumulado de 12 meses, os embarques somam 2,1 milhões de toneladas, volume ligeiramente abaixo do registrado entre fevereiro de 2024 e janeiro de 2025.
Por outro lado, as importações continuam expressivas: 504,2 mil toneladas foram desembarcadas apenas em janeiro, totalizando 6,68 milhões de toneladas em 12 meses, praticamente estáveis em relação ao mesmo período anterior.
Negociações lentas e “mão-para-a-boca” no Sul do país
O mercado de trigo na região Sul continua operando em ritmo cauteloso. Segundo levantamento da TF Agroeconômica, as indústrias moageiras têm mantido a postura de comprar apenas o necessário — o chamado modelo “mão-para-a-boca” — acompanhando o escoamento da farinha e as oscilações dos preços regionais.
No Rio Grande do Sul, o trigo é negociado entre R$ 1.150 e R$ 1.200 nos moinhos, enquanto o branqueador — mesmo com boa coloração — registra preços próximos de R$ 1.140 a R$ 1.150 FOB, com demanda limitada. A competitividade do trigo argentino, favorecida pela desvalorização cambial, também pressiona os preços locais.
Em Santa Catarina, os moinhos priorizam o trigo gaúcho e paraguaio, mais acessíveis. As ofertas internas, ao redor de R$ 1.250 CIF, têm dificuldade para avançar. Já no Paraná, a queda do dólar ampliou a vantagem do trigo importado, especialmente do Paraguai, que chega ao país com valores mais competitivos, apesar dos desafios logísticos.
Cotações internacionais oscilam com ajustes técnicos e menor risco climático
No cenário global, o mercado de trigo apresentou movimentos mistos nesta semana. Após as perdas registradas na segunda-feira, os contratos voltaram a subir levemente na Bolsa de Chicago (CBOT), onde o vencimento mais negociado abriu a terça-feira (10) a US$ 5,29 por bushel, alta de 0,25%.
Analistas apontam que o avanço reflete ajustes técnicos e uma postura mais cautelosa dos vendedores, diante das condições das lavouras de trigo de inverno no Hemisfério Norte e da demanda internacional ainda moderada.
Na segunda-feira, o contrato de trigo brando (SRW) para março fechou em queda de 0,19%, cotado a US$ 528,75 por bushel, enquanto o trigo duro (HRW) de Kansas recuou 0,47%. Já o trigo HRS de Minneapolis teve leve alta de 0,09%, e na Euronext de Paris, o trigo para moagem caiu 0,26%, a €189,50 por tonelada.
Rússia e Estados Unidos aliviam preocupações sobre oferta global
A recente redução dos riscos climáticos contribuiu para o comportamento mais estável dos preços internacionais. O governo russo informou que 97% das lavouras estão em boas condições, além de manter o imposto de exportação zerado pela quinta semana consecutiva, o que ajuda a equilibrar o mercado.
Nos Estados Unidos, a competitividade do trigo ganhou impulso com a desvalorização do dólar frente ao euro e com a assinatura de um acordo comercial de US$ 3,5 bilhões com Bangladesh, que inclui o trigo como principal commodity.
Além disso, as inspeções de embarques norte-americanos cresceram 75% na semana, superando as expectativas e indicando ritmo mais firme no comércio internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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