AGRONEGÓCIO
Novo risco logístico global surge com escalada de tensões no Oriente Médio
AGRONEGÓCIO
A intensificação do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã inaugura um novo período de incerteza para o comércio internacional. O cenário afeta diretamente a logística marítima, responsável por aproximadamente 80% do comércio mundial em volume.
A combinação entre tensões geopolíticas, volatilidade no mercado de energia e um ambiente comercial cada vez mais protecionista tende a elevar os custos logísticos e aumentar a imprevisibilidade das cadeias globais de suprimentos. Diante desse contexto, empresas e governos já começam a reavaliar estratégias comerciais e operacionais.
Risco geopolítico passa a influenciar decisões logísticas globais
A atual instabilidade no Oriente Médio representa uma mudança importante na dinâmica do comércio internacional. Nas últimas décadas, a eficiência operacional era o principal fator que guiava as decisões logísticas. Agora, o risco geopolítico passa a ocupar papel central no planejamento das cadeias globais.
De acordo com Marcos Silva, CIO da Datamar e especialista em tecnologia aplicada à logística marítima, o próprio comportamento do setor já demonstra essa transformação.
Segundo ele, o transporte marítimo deixou de apenas reagir aos movimentos da economia global e passou a antecipá-los. Antes mesmo da reação dos indicadores macroeconômicos, a atividade marítima já sinaliza mudanças estruturais no comércio internacional.
Estreito de Hormuz concentra preocupação do mercado
Um dos principais pontos de atenção é o Estreito de Hormuz, região estratégica por onde passa uma parcela significativa do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente.
Qualquer ameaça à estabilidade da área costuma gerar reações imediatas nos mercados energéticos, impactando diretamente o preço do bunker fuel, combustível utilizado pelos navios.
Diante desse cenário, armadores já avaliam mudanças operacionais importantes, como:
- redefinição de rotas marítimas
- aumento do seguro de guerra (war risk premium)
- revisão de escalas portuárias
- ampliação do tempo de trânsito das cargas
Dados da Datamar indicam que, somente em janeiro de 2026, cerca de 71 navios porta-contêineres partiram do Brasil com destino a países direta ou indiretamente envolvidos nas atuais tensões, o que evidencia a exposição do comércio brasileiro ao cenário geopolítico.
Formação de um “arco de risco” nas rotas marítimas
Os efeitos da instabilidade não se limitam ao Golfo Pérsico. Analistas apontam a formação de um chamado “arco de risco” no transporte marítimo global, que inclui outros pontos estratégicos de tráfego, como:
- Canal de Suez
- Estreito de Bab el-Mandeb
O Egito, cuja economia depende fortemente das receitas do Canal de Suez, pode sofrer impactos caso armadores decidam evitar o Mar Vermelho diante da ameaça de ataques — especialmente ligados ao grupo Houthi, no Iêmen.
Já Omã é considerado um importante termômetro da estabilidade no próprio Estreito de Hormuz.
Especialistas destacam que, em cadeias logísticas altamente interdependentes, a instabilidade em um único ponto pode gerar efeitos em cascata em todo o sistema global de transporte.
Mercado já monitora sinais de alta nos fretes
Historicamente, crises no Oriente Médio afetam primeiro a percepção de risco no mercado antes de provocar impactos diretos nas operações logísticas.
Entre os sinais que já começam a ser monitorados pelo setor estão:
- aumento dos prêmios de seguro marítimo
- maior volatilidade nos fretes internacionais
- ajustes preventivos nas rotas de navegação
- alongamento do tempo de trânsito das cargas
Experiências recentes mostram que os custos logísticos podem subir não apenas por interrupções efetivas, mas também pela expectativa de risco nas rotas comerciais.
Comércio exterior brasileiro também pode sentir efeitos
Mesmo distante do epicentro do conflito, o Brasil também apresenta exposição ao cenário.
A pauta de importações mostra forte dependência de insumos petroquímicos provenientes da região. Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, plásticos representaram 74,14% das importações conteinerizadas originadas de países direta ou indiretamente envolvidos nas tensões.
Nas exportações brasileiras para esses mercados, os principais produtos são:
- carne: 67,67%
- madeira: 12,21%
- açúcar: 2,94%
Esse perfil indica que eventuais aumentos no custo do frete marítimo podem afetar diretamente a competitividade das commodities brasileiras.
Protecionismo e tensões aceleram reorganização das cadeias globais
O ambiente geopolítico mais instável também se soma ao avanço de políticas tarifárias, especialmente por parte dos Estados Unidos.
A combinação entre protecionismo e riscos logísticos tende a acelerar mudanças estratégicas nas cadeias produtivas globais, incluindo:
- nearshoring (aproximação da produção dos mercados consumidores)
- diversificação de fornecedores
- revisão de rotas comerciais consideradas críticas
Na avaliação de especialistas, decisões corporativas passam a considerar simultaneamente custo comercial e risco geopolítico, marcando um afastamento da lógica tradicional da globalização baseada exclusivamente na eficiência.
Três cenários possíveis para a logística global
A análise prospectiva do setor trabalha atualmente com três cenários principais para os próximos meses:
- Desescalada controlada
- Redução gradual das tensões e normalização parcial dos custos logísticos.
- Conflito prolongado (cenário base)
- Persistência da volatilidade e fretes estruturalmente mais elevados.
- Escalada ampliada
- Possível choque energético global e reorganização significativa das rotas marítimas.
Diante desse ambiente de maior imprevisibilidade, cresce a necessidade de ferramentas capazes de identificar sinais antecipados de mudanças nas rotas comerciais e na dinâmica do comércio internacional.
Inteligência de dados ganha protagonismo na logística
Em um contexto de incerteza global, a inteligência de dados passa a desempenhar papel estratégico na gestão logística.
Plataformas analíticas funcionam como sensores antecipados da economia global, identificando mudanças por meio de variações nas rotas marítimas, escalas portuárias e comportamento dos fretes.
Segundo Marcos Silva, compreender o funcionamento das rotas marítimas tornou-se fundamental para entender os rumos da economia mundial.
Ele destaca ainda que a vantagem competitiva das empresas não está apenas na adoção de novas tecnologias, mas na capacidade de integrar ferramentas modernas com métodos analíticos já consolidados.
De acordo com o especialista, o avanço tecnológico não substitui soluções que há décadas apoiam decisões corporativas, mas as fortalece. O verdadeiro valor está em combinar novas tecnologias com práticas que já demonstraram eficácia ao longo do tempo.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Soja despenca em Chicago, trava negócios no Brasil e mantém preços estáveis no mercado físico
A forte desvalorização dos contratos futuros da soja na Bolsa de Chicago (CBOT) marcou o mercado ao longo da semana e contribuiu para a paralisação das negociações no Brasil. Mesmo com a valorização do dólar frente ao real, o recuo das cotações internacionais reduziu o interesse dos agentes do mercado e manteve a comercialização em ritmo lento nas principais regiões produtoras do país.
A combinação entre a queda expressiva em Chicago e o feriado da última quinta-feira diminuiu a liquidez do mercado brasileiro. Como resultado, os preços da oleaginosa permaneceram praticamente inalterados nos principais polos de comercialização.
Em Passo Fundo (RS), a saca de 60 quilos seguiu cotada a R$ 126,00 durante toda a semana. Em Cascavel (PR), o valor permaneceu em R$ 121,00 por saca. Já em Rondonópolis (MT), a referência ficou em R$ 110,00. No Porto de Paranaguá (PR), importante termômetro das exportações brasileiras, a cotação se manteve em R$ 132,00 por saca.
Chicago atinge menor nível desde fevereiro
Na Bolsa de Chicago, os contratos futuros da soja com vencimento em julho, os mais negociados do mercado, acumularam perdas superiores a 5% na semana. Na manhã desta sexta-feira (5), o contrato era negociado a US$ 11,26 por bushel, o menor patamar registrado desde o início de fevereiro.
A pressão baixista está diretamente relacionada aos fundamentos globais da oferta. As condições climáticas favoráveis nos Estados Unidos seguem beneficiando o desenvolvimento das lavouras, reforçando as expectativas de uma safra cheia na temporada 2026/27.
Além disso, o mercado já começa a revisar para cima as projeções de produtividade das lavouras norte-americanas. O cenário se soma às safras robustas colhidas recentemente por Brasil e Argentina, ampliando a disponibilidade global da commodity e aumentando a pressão sobre os preços internacionais.
Demanda chinesa ainda decepciona mercado
Pelo lado da demanda, os investidores seguem atentos ao comportamento das importações chinesas. Apesar do acordo comercial firmado entre China e Estados Unidos em maio, o mercado ainda não observa uma retomada consistente das compras chinesas de soja norte-americana.
A ausência desse movimento limita o potencial de recuperação das cotações e reforça o ambiente de cautela entre os participantes do mercado internacional.
Relatório do USDA e tensão geopolítica seguem no radar
Nas próximas semanas, dois fatores devem continuar influenciando os preços da soja.
O primeiro é o relatório mensal de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que será divulgado na próxima quinta-feira, dia 11. O documento poderá trazer novas revisões para produção, estoques e exportações da oleaginosa.
O segundo fator é a escalada das tensões no Oriente Médio, que continua gerando volatilidade nos mercados financeiros e energéticos. O impacto sobre os preços do petróleo e o comportamento dos investidores permanecem no centro das atenções.
Dólar sobe, mas não consegue compensar perdas externas
No mercado cambial, o dólar apresentou valorização ao longo da semana, impulsionado pelas incertezas geopolíticas, preocupações com a inflação global e pela expectativa de manutenção dos juros elevados nos Estados Unidos.
A moeda norte-americana avançou cerca de 1,4% frente ao real no período, voltando ao patamar de R$ 5,12.
Apesar do movimento favorável para as exportações brasileiras, a alta do câmbio não foi suficiente para neutralizar o impacto negativo provocado pela forte queda das cotações em Chicago, mantendo o mercado doméstico praticamente paralisado e com poucas alterações nos preços da soja.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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