POLÍTICA NACIONAL
Debate aponta carência de atenção integral para pessoas com doenças raras
POLÍTICA NACIONAL
Pessoas com doenças raras carecem de políticas públicas de atenção integral: acesso ao diagnóstico precoce, tratamento adequado, organização da linha de cuidados no Sistema Único de Saúde (SUS) e garantia de apoio às famílias. Essa é uma das conclusões da audiência pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos do Senado (CDH) nesta segunda-feira (9).
Também foi apontada no debate a importância de se combater o bullying contra as pessoas com doenças raras. A audiência aconteceu por solicitação da presidente da CDH, senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
As doenças raras são definidas pelo Ministério da Saúde como aquelas que afetam até 65 pessoas a cada 100 mil habitantes (Portaria 199, de 30 de janeiro de 2014, do Ministério da Saúde). Segundo Damares, apesar da baixa prevalência, o conjunto dessas enfermidades representa um desafio significativo para os sistemas de saúde.
De acordo com esse ministério, estima-se que cerca de 13 milhões de cidadãos convivam com alguma doença rara no Brasil. Parte dessas doenças tem origem genética e se manifesta ainda na infância, demandando diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e tratamento especializado.
— Precisamos atuar para acabar com o diagnóstico tardio e com a dificuldade de acesso aos serviços especializados, que ainda representam entraves relevantes para a efetividade da atenção integral às pessoas com doenças raras no Brasil — defendeu a senadora.
Atraso nos atendimentos
A presidente da Associação Maria Vitória de Doenças Raras (Amavi), Lauda Santos, ressaltou que “o tempo do Estado não acompanha o tempo da doença”. Segundo a convidada, os atrasos nos atendimentos e nos estudos para a criação de novas medicações custam vidas. Ela disse que essas dificuldades têm sido recorrentes e são enfrentadas por todos os centros de referência do país.
— O Brasil é o único país que cobra quatro impostos para a importação de medicamentos de uso em pesquisas clínicas. Quando o país deixa de fazer uma pesquisa, a gente perde fases importantes [para o desenvolvimento das medicações] e tudo isso tem ocorrido mesmo após o cumprimento das exigências técnicas da agência reguladora — salientou Lauda.
Diretora de comunicação da Casa de Saúde Nossa Senhora dos Raros, Rosely Maria Fanti Garcia Cizotti declarou que pessoas com doenças raras sofrem de todas as formas possíveis. Ela apontou a falta de apoio institucional, inclusive de caráter psicológico, para pacientes e suas famílias.
De acordo com Rosely, o sistema reprime e discrimina pessoas com doenças raras, já que muitos ainda consideram dispendiosa a assistência a essa parcela da população.
— Os gestores e os parlamentares, que deveriam estar ao nosso serviço, batem as portas nas nossas caras porque nos consideram caros. A gente precisa olhar para a pessoa com doença rara por inteiro. Isso geraria uma economia enorme e mudaria a vida de milhares de brasileiros.
Diagnóstico tardio
Fundadora do Instituto Anaju, Laira dos Santos Inácio observou que 30% das crianças com doenças raras morrem antes de completar cinco anos de idade. O maior desafio, segundo a debatedora, é evitar o diagnóstico tardio.
— Uma família pode demorar anos até descobrir qual doença a criança realmente tem. São anos de consultas, exames, anos de incertezas. E quando falamos de doenças graves, tempo é vida. Cada mês sem o diagnóstico pode significar o avanço do mal, e cada atraso no tratamento pode representar perda de chance [de sobrevivência].
Teste do pezinho
Daniella Neves defendeu o teste do pezinho como um instrumento fundamental para o diagnóstico precoce de doenças graves e raras tratáveis. Ela é gerente de saúde do Instituto Jô Clemente – Laboratório de Triagem Neonatal. Feito por meio da coleta de algumas gotas de sangue do calcanhar do bebê após 48 horas de nascimento, o tempo ideal para realizar esse exame é entre o terceiro e o quinto dia de vida da criança.
Segundo Daniella, a Lei 14.154, de 2021, que buscou aperfeiçoar o Programa Nacional de Triagem Neonatal, previa a implementação das ações de forma escalonada pelo Ministério da Saúde dentro de cinco anos. Ela frisou, no entanto, que isso não aconteceu, já que não houve avanço a partir da etapa 2 da norma.
— A triagem neonatal biológica, que a gente chama de teste do pezinho, não é apenas um exame. É um grande programa que garante que toda a linha do cuidado seja executada no tempo adequado de prevenção das doenças. É uma verdadeira corrida contra o tempo, que contribui para a redução de deficiências, sequelas e óbitos, favorecendo a melhoria da qualidade de vida.
Bullying
A presidente da CDH repudiou o bullying contra pessoas que têm doenças raras — esses atos de violência são caracterizados pela prática repetitiva de atos violentos (físicos ou psicológicos) com o objetivo de intimidar e humilhar a vítima.
Damares citou o episódio no qual um adolescente diagnosticado com Prader-Willi (uma síndrome que resulta em dificuldades de aprendizado e facilidade para ganho de peso) foi forçado por um grupo de colegas a comer pelo menos sete pedaços de bolo, além de ser filmado enquanto usava o banheiro em uma escola pública de Fortaleza (CE). O caso aconteceu no fim de fevereiro e gerou forte repercussão.
— Foi um dos mais terríveis atos de bullying que já vi. Uma falta de sensibilidade da escola por não ter observado [o caso], dos professores, que não orientaram [os alunos], e de todos em volta. Os colegas foram extremamente cruéis com o menino, e as imagens não merecem ser compartilhadas. Estou entrando, inclusive, com um pedido à Meta para a exclusão dessa publicação das redes sociais — informou ela.
Tema em evidência na CDH
A senadora lembrou que a CDH tem debatido doenças raras de modo recorrente. Ela enfatizou que essa comissão é o lugar adequado para a discussão do assunto e que o tema continuará em evidência no colegiado.
— Debater esse assunto é sempre um momento de desafio, mas também de muita alegria para mim. Se possível fosse, eu promoveria essa discussão todos os dias porque, na minha visão, tal assunto precisa estar na pauta constantemente.
Também participaram da audiência pública desta segunda-feira a médica especialista em doenças raras Marina Alves Noronha; a diretora clínica do Hospital da Criança de Brasília José Alencar, Elisa de Carvalho; e Luiza Habib, que tem uma doença rara ainda sem diagnóstico (ela apresenta em suas redes sociais dicas e sugestões sobre como viver com mais autonomia e independência).
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto
O fim da chamada escala 6×1, com seis dias de trabalho e um de folga por semana, seguirá em discussão no Senado em agosto, após o recesso parlamentar. A expectativa de alguns senadores é de que a PEC 221/2019 seja votada após a volta dos trabalhos.
Além de acabar coma escala 6×1, a proposta reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários.
O texto chegou ao Senado no fim de maio, após aprovação na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, determinou que a proposta passasse pelas comissões.
O presidente do Senado tem se reunido com os setores interessados no tema para discutir a proposta. No início de julho, a reunião foi com as centrais sindicais, que defenderam o avanço na análise do texto. Antes, em maio, ele já havia recebido integrantes dos empregadores, que defenderam a votação da proposta somente após as eleições.
Agosto
Em entrevista na segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que o fim da escala 6×1 é “prioridade absoluta” para o governo e que continuará trabalhando para que a votação ocorra assim que possível.
— Mesmo no período das eleições, o Senado vai funcionar em esforços concentrados e remotamente. Não impede que possamos ainda votar a PEC do fim da escala 6×1 em agosto. Nós vamos, ainda, insistir em avançar sobre essa proposta de emenda à Constituição ainda nesse período.
As semanas de esforço concentrado serão entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro, e devem coincidir com os esforços concentrados na Câmara, conforme anunciado por Davi Alcolumbre na quarta-feira (15).
— O calendário é exatamente o mesmo que será adotado pela Câmara dos Deputados, permitindo que o Congresso Nacional funcione em plenitude e de modo eficiente e harmônico — informou Davi.
Defesa
Em pronunciamentos recentes, o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da proposta, disse ter esperança de que a votação ocorra em agosto. Para ele, o debate sobre a redução da jornada não “pertence” ao governo, à oposição e nem aos partidos políticos, e sim ao povo.
— Tenho muita esperança de que a PEC vai ser votada no mês de agosto, porque, com certeza, o trabalhador brasileiro sabe que não vai nadar, nadar e morrer na beira da praia. Espero que esta Casa compreenda a dimensão histórica dessa decisão — defendeu.
Para Paim, o fim da escala 6×1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir. Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.
Também em defesa do avanço na análise da PEC, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) comparou a jornada dos trabalhadores à dos parlamentares. Ele lembrou que o período de campanha eleitoral começa em agosto e disse que o eleitor precisa cobrar seus representantes.
— Muitos que vão aí pedir voto para você não querem votar o fim da escala 6×1, querem fazer você trabalhar igual a um condenado no 6×1, e nós aqui trabalhando, durante este ano de 2026, o que não vai dar nem um mês de trabalho, do jeito que está aí — criticou.
Eleições
Outros senadores demonstram preocupação com os efeitos da PEC e defendem que a votação fique para depois das eleições. Em sessão temática no início de julho, o líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN), defendeu o amadurecimento do debate e a discussão do tema fora do período eleitoral.
— Não é proibido, não é interditado discutirmos jornada de trabalho. Pelo contrário, é uma discussão que tem que acontecer. Mas por que agora? Por que neste momento? — questionou o senador.
No mesmo debate, o senador Jayme Campos (União-MT) afirmou que votará a favor da PEC, mas defendeu que o debate seja feito com serenidade e que todos os setores sejam ouvidos para que a solução seja equilibrada.
— Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de tempo dedicado à família, ao descanso, à qualificação profissional e, ao mesmo tempo, da competitividade das empresas e da capacidade de gerar empregos. É justamente por isso que este debate exige serenidade, responsabilidade e diálogo — ponderou.
Outras propostas
Também na sessão temática, o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) criticou a falta de estudos de impacto econômico e social da medida durante a análise na Câmara e afirmou que a PEC vai ter consequências negativas na economia. Ele defendeu a aprovação de outra proposta em análise no Senado.
— Defendemos a PEC 12/2026, que permite ao trabalhador negociar uma jornada flexível de acordo com as suas necessidades. Direitos como férias, décimo terceiro e FGTS seguirão de forma proporcional à jornada acordada — garantiu.
A proposta foi apresentada pelo senador Rogerio Marinho logo após a chegada da PEC 221 ao Senado. Pela proposta, seria possível escolher entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. A PEC deixa claro que o contrato individual prevalece sobre possíveis acordos coletivos. Benefícios como FGTS, férias e 13º salário também seriam proporcionais às horas trabalhadas.
Na Câmara, a PEC 221 era analisada junto com outra proposta, a PEC 8/2025, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que previa uma carga máxima de 36 horas em quatro dias de trabalho. O texto foi arquivado.
Outro projeto, o PL 1.838/2026, foi apresentado em abril pelo Executivo. Ele define em 40 horas semanais o limite da jornada normal de trabalho e garantir ao trabalhador dois repousos semanais remunerados de 24 horas consecutivas. Após a aprovação da PEC 221, o governo retirou o pedido de urgência para o projeto, que segue em análise na Câmara.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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