A miscigenação de culturas que formou o Acre também deu origem a adaptações gastronômicas que se transformaram em patrimônio culinário de um povo que lutou para ser brasileiro. Um dos melhores exemplos é o quibe de macaxeira, criação que une tradição árabe, saberes indígenas e criatividade nordestina.
Inspirado no tradicional kibe árabe, trazido ao Acre pelas famílias sírio-libanesas que chegaram ao Estado durante o ciclo da borracha, o prato ganhou novo sabor ao ser preparado com a macaxeira, raiz cultivada e consumida há séculos pelos povos originários da Amazônia. O resultado foi uma iguaria única, que conquistou o paladar dos acreanos e também dos visitantes.
O quibe de macaxeira, criação que une tradição árabe, saberes indígenas e criatividade nordestina. (Foto: Vitória Souza/Secom)
A versatilidade da macaxeira
A macaxeira — também conhecida como mandioca, aipim ou maniva — é base da alimentação de milhares de famílias no Norte do Brasil. Sua versatilidade permite a criação de uma infinidade de delícias, doces e salgadas, como tucupi, tapioca, farinha, bolos, mingaus e aperitivos. Dentro da série de reportagens do Festival da Macaxeira, o quibe recebe destaque como um dos preparos mais emblemáticos dessa raiz tão especial.
Encontrado em bares, lanchonetes, cafés, mercados e até em vendas ambulantes, o quibe de macaxeira é feito com massa da raiz cozida e amassada. (Foto: Vitória Souza/Secom)
Encontrado em bares, lanchonetes, cafés, mercados e até em vendas ambulantes, o quibe de macaxeira é feito com massa da raiz cozida e amassada, geralmente recheada com carne moída e frita até ficar dourada. Uma releitura criativa do prato do Oriente Médio que ganhou alma e sabor amazônicos.
O sabor que move profissões
No Mercado do Bosque, tradicional ponto gastronômico de Rio Branco, o quibe de macaxeira é uma das estrelas do cardápio. Ali, o quitute costuma ser acompanhado de molho de pimenta feito com tucupi, combinação que ressalta ainda mais o sabor regional. O salgadeiro Elildo Ferreira, que há quase três décadas trabalha no ramo, explica que a prática trouxe experiência e técnica para lidar com a raiz.
O salgadeiro Elildo Ferreira, que há quase três décadas trabalha no ramo, explica que a prática trouxe experiência e técnica para lidar com a raiz. (Foto: Vitória Souza/Secom)
“Há 27 anos trabalho assim, faço variedades de panificação e trabalho com a fabricação de salgados. Eu faço quibes de macaxeira e de arroz aqui no Mercado do Bosque para várias lanchonetes. No caso do quibe de macaxeira, é higienizar bem a raiz, colocar para cozinhar. Depois de cozida você amassa até virar uma massa, tempera com um pouco de sal, tira aqueles talinhos e então é só rechear com carne moída e fritar em óleo bem quente. O quibe de macaxeira e de arroz são os mais vendidos aqui no Mercado”, relatou.
O historiador José Wilson Aguiar lembra que a culinária acreana é reflexo direto da mistura de povos que ajudaram a formar o Estado. “Essa miscigenação de sírio-libaneses, turcos, índios, nordestinos, negros, essa mistura cultural, podemos dizer que originou o nosso quibe de macaxeira, assim como outras comidas. O Acre é um pedaço do Ceará, um pedaço do Brasil, vieram pernambucanos, maranhenses, paraibanos, e aqui se uniram aos índios nativos da Amazônia. Esse casamento cultural e gastronômico perdura até hoje”, destacou.
O historiador José Wilson Aguiar lembra que a culinária acreana é reflexo direto da mistura de povos que ajudaram a formar o Estado. (Foto: Marcos Araújo/Secom)
O sustento de muitas famílias
Além de parte da identidade cultural, o quibe de macaxeira também é fonte de renda para muitas famílias. A permissionária Marilândia Holanda, mais conhecida como Mary, vende salgados há mais de 15 anos em seu quiosque na Praça do Relógio, em Rio Branco.
A permissionária Marilândia Holanda, mais conhecida como Mary, vende salgados há mais de 15 anos em seu quiosque na Praça do Relógio, em Rio Branco. (Foto: Vitória Souza/Secom)
Emocionada, ela afirma que o quibe de macaxeira é parte essencial do sustento de sua família. “É daqui que tiro o meu sustento e da minha família. Quando comecei vendia só salgado, suco e refrigerante, hoje temos uma grande variedade de coisas de café da manhã e lanche, mas o salgado ainda é o mais vendido, sobretudo o quibe de macaxeira e de arroz”, comemora.
Ingredientes da massa • 1,5 kg de macaxeira • 3 colheres de sopa de manteiga ou óleo • Sal a gosto • Recheio de sua preferência (tradicionalmente carne moída)
Modo de preparo
1. Cozinhe a macaxeira com um pouco de sal até ficar macia. 2. Escorra e, ainda quente, amasse com garfo ou passe em um moedor. 3. Acrescente a manteiga ou o óleo para dar consistência. 4. Com a massa, molde bolinhos na mão, fazendo um furo no meio para colocar o recheio. 5. Feche os bolinhos e, se desejar, empane em farinha de rosca ou de trigo. 6. Leve ao congelador por 15 minutos antes de fritar. 7. Frite em óleo bem quente até dourar.
O quibe de macaxeira é mais do que um prato: é uma expressão viva da miscigenação cultural do Acre, símbolo de resistência e criatividade culinária, que une passado e presente no sabor da raiz mais versátil da Amazônia.
O quibe de macaxeira é mais do que um prato: é uma expressão viva da miscigenação cultural do Acre. (Foto: Val Fernandes/Secom)
Essas e outras iguarias feitas a partir da macaxeira poderão ser encontradas no ‘2º Festival da Macaxeira: da agricultura familiar ao agronegócio’, que acontecerá entre os dias 26 e 28 de setembro, no Horto Florestal. A mudança de espaço vem acompanhada de um novo formato em comparação com a edição anterior, que foi realizada na Praça da Revolução.
O ‘2º Festival da Macaxeira: da agricultura familiar ao agronegócio’, que acontecerá entre os dias 26 e 28 de setembro, no Horto Florestal.(Foto: Val Fernandes/Secom)
A proposta deste ano foca na valorização da produção local e da cultura regional. Ao contrário da primeira edição, não haverá atrações de nível nacional. Toda a programação artística será composta exclusivamente por talentos da própria região. Além das apresentações culturais, o festival terá uma programação voltada para a tecnologia e para o fortalecimento do setor produtivo.
Estão previstas palestras e oficinas especialmente voltadas aos produtores rurais, com temas ligados a diversas cadeias produtivas, como a mandioca, o café, o milho e outras culturas que desempenham um papel importante na economia do Acre.
As atividades acontecerão tanto no período diurno quanto noturno, o que permitirá maior flexibilidade para que o público participe em diferentes momentos do dia.
Por alguns minutos, na manhã desta quinta-feira (1º de outubro), Rio Branco não viveu apenas a apresentação de uma nova frota de ônibus. A capital acreana viveu um momento carregado de memória, emoção e esperança.
Diante de autoridades, trabalhadores do transporte, representantes de entidades e da população, o prefeito Alysson Bestene apresentou oficialmente os novos veículos que começam a circular pelas ruas da cidade a partir desta sexta-feira (2).
Diante de autoridades, trabalhadores e representantes da sociedade, o prefeito apresentou oficialmente os novos ônibus, que começam a circular pela cidade nesta sexta-feira (2). (Foto: Val Fernandes/Secom)
Mas, naquele momento, os ônibus eram apenas parte da história. A emoção tomou conta do prefeito ao falar sobre o significado daquele dia. Em meio à celebração, Alysson lembrou da mãe, Antonieta Bestene Lins, a Dona Antonieta, que morreu em 2021, aos 72 anos, vítima da Covid-19, durante um dos períodos mais difíceis da pandemia.
A lembrança tornou ainda mais pessoal um momento que, para o prefeito, representa uma conquista coletiva.
Renovação da frota representa uma tentativa de melhorar a relação da população com o transporte coletivo, após anos de dificuldades operacionais e veículos antigos. (Foto: Val Fernandes/Secom)
Mais do que veículos novos, a entrega simboliza a tentativa de reconstruir a relação da população com um serviço que, durante anos, foi marcado por dificuldades, ônibus antigos, problemas operacionais e sucessivas medidas emergenciais.
Uma cidade que aprendeu a esperar
A história recente do transporte coletivo de Rio Branco é marcada por mudanças e crises.
Durante anos, a população enfrentou dificuldades relacionadas à qualidade da frota, à manutenção dos veículos, à regularidade das linhas e à própria sustentabilidade do sistema. Em 2022, a Prefeitura decretou a caducidade dos antigos contratos de concessão do transporte coletivo e anunciou a necessidade de uma nova licitação. A partir daquele período, a operação passou a ser conduzida em caráter emergencial.
Nova frota chega após um longo período de espera da população por melhorias na previsibilidade, no conforto e na segurança do transporte público. (Foto: Val Fernandes/Secom)
O modelo emergencial, porém, acabou se prolongando e a população continuou convivendo com dificuldades.
Em 2026, antes da mudança definitiva, o sistema voltou a enfrentar episódios de forte instabilidade, incluindo paralisações, redução da frota e problemas que afetaram diretamente os passageiros.
Foi nesse cenário que a gestão Alysson Bestene decidiu romper com o ciclo de soluções emergenciais e avançar para uma nova operação do transporte coletivo.
Agora, a mudança chega às ruas e passa a fazer parte do dia a dia da população. (Foto: Val Fernandes/Secom)
A nova frota chega, portanto, depois de um longo período em que a população esperou por uma solução capaz de devolver previsibilidade, conforto e segurança ao serviço.
Agora, a mudança deixa de estar apenas nos contratos, nos documentos e nas decisões administrativas. Ela chega às ruas.
Motorista profissional há 24 anos, Zenilda Neri sabe o que significa passar a maior parte da vida atrás de um volante. Mas, para ela, conduzir um dos novos ônibus de Rio Branco representa algo diferente.
“É um momento de muita alegria e satisfação. Estou muito honrada por dirigir um ônibus novo e viver uma experiência que será inesquecível”, disse Zenilda. (Foto: Marcos Araújo/Secom)
“É um momento de muita alegria e satisfação. Estou me sentindo muito honrada por uma oportunidade dessa, de estar aqui dirigindo um ônibus novo, maravilhoso. Vai ser inesquecível”, disse.
A fala da motorista traduz o sentimento de uma categoria que também está diante de uma nova etapa.
Para quem trabalha diariamente transportando pessoas, um ônibus novo não representa apenas um equipamento de trabalho. Significa melhores condições para quem dirige e, principalmente, uma experiência diferente para quem passa horas dentro dele.
Acessibilidade que significa dignidade
Para pessoas com deficiência, a renovação da frota representa mais acessibilidade e melhores condições de deslocamento, reduzindo dificuldades enfrentadas diariamente no transporte coletivo. (Foto: Val Fernandes/Secom)
Para as pessoas com deficiência, a mudança tem um significado ainda mais concreto.
Presidente do Centro de Apoio à Pessoa com Deficiência do Acre (Capedac), Edivânio Silva comemorou a chegada dos novos veículos e lembrou das dificuldades enfrentadas por cadeirantes que dependiam do transporte coletivo.
“Nesses últimos anos a gente vinha sofrendo muito pela falta de ônibus novos, ônibus acessíveis que realmente funcionassem a plataforma. Com isso, vários cadeirantes, colegas nossos da associação, sofriam horas e horas na parada de ônibus”, relatou.
“Os novos ônibus representam uma mudança importante, com plataformas acessíveis e mais conforto para as pessoas com deficiência”, destacou Edivânio. (Foto: Marcos Araújo/Secom)
Edivânio afirmou que representantes da entidade já testaram as plataformas de acessibilidade dos novos veículos.
“Hoje, graças a Deus, a gente tem um prefeito que teve a coragem de mudar esse sistema, de trazer ônibus novos para a nossa cidade. A gente já fez o teste, as plataformas são boas, é um ônibus confortável. O prefeito está de parabéns. Parabéns, Prefeitura de Rio Branco.”
Para quem depende da acessibilidade para estudar, trabalhar, ir ao médico ou simplesmente se deslocar pela cidade, uma plataforma funcionando não é um detalhe. É autonomia, respeito. É poder sair de casa sabendo que existe a possibilidade de voltar.
Quando a cidade saiu às ruas
Depois da apresentação, o momento ganhou as ruas.
Alysson Bestene, trabalhadores, autoridades e convidados participaram de uma carreata pelas principais avenidas de Rio Branco. Ao longo do percurso, centenas de pessoas pararam para assistir, filmar, fotografar e aplaudir os novos ônibus.
Na Avenida Getúlio Vargas, no bairro Bosque, estudantes chamaram pelo prefeito durante a carreata, que parou para cumprimentá-los. (Foto: Samuel Moura/Secom)
Mas foi na Avenida Getúlio Vargas, nas proximidades do Pronto-Socorro, no bairro Bosque, que a carreata ganhou um dos momentos mais espontâneos e emocionantes do dia.
Um grupo de estudantes que aguardava o ônibus em uma parada começou a gritar o nome do prefeito. Alysson pediu para parar, desceu e foi ao encontro dos estudantes e os convidou para entrar em um dos novos ônibus e participar daquela que se transformou, simbolicamente, na primeira viagem de uma nova fase do transporte coletivo de Rio Branco.
A parada não estava no roteiro, e nem precisava estar. Era apenas a cidade encontrando a própria história no meio da rua.
Carreata terminou em frente à sede da Prefeitura, onde o clima era de festa e celebração. (Foto: Samuel Moura/Secom)
A carreata terminou em frente à sede da Prefeitura, onde o clima era de festa e celebração.
“É uma simbologia de vida e esperança daqueles que sempre acreditaram em dias melhores”, disse o gestor municipal.
Na chegada, ainda emocionado, Alysson falou sobre o significado daquele momento.
“Muito emocionante. É histórico a gente saber que a gente pode produzir políticas públicas que mudem de fato a vida das pessoas, trazer qualidade, segurança, conforto, melhorar o dia delas quando elas saem de casa, vão para os hospitais, vão para as universidades, vão para as escolas, vão em busca de um novo sonho.”, afirmou Alysson.
O prefeito também relacionou a mudança à ideia de respeito e esperança.
“É mais do que um momento. É uma simbologia de vida, para as pessoas entenderem que também nós precisamos respeitar uns aos outros, amar uns aos outros. Quem vive e mora aqui merece esse serviço de qualidade.”, celebrou.
“Nasci e criei meus filhos aqui e quero passar toda a minha vida nesta cidade, vendo Rio Branco cada vez melhor”, disse o prefeito emocionado. (Foto: Val Fernandes/Secom)
A emoção voltou a aparecer quando Alysson falou sobre sua relação com Rio Branco.
“Eu nasci, fui criado aqui, crio meus filhos aqui. Quero passar os últimos dias da minha vida aqui nessa cidade. Quero vê-la cada vez melhor.”
E foi nesse ponto que o discurso deixou de ser apenas sobre transporte. Passou a ser sobre pertencimento. Sobre uma cidade que o prefeito conhece desde a infância e que agora, na visão da atual gestão, precisa reencontrar a capacidade de acreditar no próprio futuro.
Uma nova fase começa nas ruas
A mudança do transporte coletivo não aconteceu de um dia para o outro. Ela foi precedida por crises, medidas emergenciais, decisões administrativas e um processo de transição que envolveu Prefeitura, empresas, trabalhadores e usuários.
Mas, nesta quinta-feira, tudo isso ganhou uma imagem concreta. Um ônibus novo, uma motorista emocionada, um cadeirante celebrando a acessibilidade. Estudantes entrando no veículo ao lado do prefeito. Uma cidade inteira acompanhando pelas ruas e um prefeito que, em determinado momento, precisou conter as próprias lágrimas ao lembrar da mãe.
A nova frota passa a operar pelas ruas da cidade a partir desta sexta-feira (2). (Foto: Val Fernandes/Secom)
A partir desta sexta-feira (2), os novos ônibus começam a circular.
Para milhares de trabalhadores, estudantes, idosos, pessoas com deficiência e famílias que dependem diariamente do transporte coletivo, será o início de uma nova rotina.
Para Rio Branco, fica a expectativa de que a mudança não seja apenas de veículos, mas de padrão de serviço.
E para Alysson Bestene, o dia 1º de outubro de 2026 ficará marcado como o momento em que uma decisão administrativa ganhou rosto, emoção e significado nas ruas da cidade.
“Tenha fé e perseverança para superar as dificuldades, porque as coisas vão melhorar e a nossa cidade também”, afirmou o gestor. (Foto: Val Fernandes/Secom)
Ao encerrar sua fala, o prefeito deixou uma mensagem de esperança:
“Hoje você está passando pela dificuldade, você vai superar essa dificuldade. Tenha certeza disso. Tenha fé em Deus, tenha perseverança, que as coisas melhoram. E a nossa cidade vai melhorar cada vez mais.”
Na manhã do dia 1 de outubro de 2026, Rio Branco não apenas viu novos ônibus, viu uma promessa de recomeço.
E, pelas ruas, enquanto os veículos passavam sob aplausos e celulares erguidos, uma cidade acostumada a esperar começou a experimentar a sensação de seguir em frente.
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