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Emater firma parceria de R$ 2,5 milhões e inicia formação de extensionistas para atender famílias do Bolsa Verde no Acre
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Com foco no fortalecimento da produção sustentável e na inclusão social no campo, o governo do Acre, por meio da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Acre (Emater) deu início, nesta segunda-feira, 23, à formação de extensionistas que atuarão diretamente junto às famílias beneficiárias do Programa Bolsa Verde. A capacitação segue até o dia 27, no Sebrae, em Rio Branco.
A iniciativa integra uma parceria firmada entre a Emater e a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), e tem investimento total de aproximadamente R$ 2,5 milhões. O objetivo é ampliar os serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) socioambiental no estado.
Na foto a palestrante Viviane Lage. Foto: Dhárcules Pinheiro/SecomAo todo, mais de 431 famílias de áreas estratégicas de conservação ambiental serão atendidas, incluindo a Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, a Floresta Nacional do Macauã e a Floresta Nacional de São Francisco, localizadas nos municípios de Sena Madureira e Manoel Urbano.
Segundo o diretor técnico da Emater, Altemar Pereira de Lima, a proposta da parceria é aliar conhecimento técnico aos saberes tradicionais das comunidades. “O principal objetivo é implementar ações em áreas de reservas extrativistas, unindo o conhecimento tradicional com a assistência técnica, para evitar o desmatamento e garantir a segurança alimentar dessas famílias”, destacou.
Diretor técnico da Emater, Altemar Pereira de Lima. Foto: Dhárcules Pinheiro/SecomO investimento será aplicado na realização de capacitações e na implantação de unidades demonstrativas, com foco em técnicas inovadoras que respeitam o meio ambiente. “Vamos trabalhar com práticas que não agridem a natureza, mas que aumentem a produtividade e melhorem a qualidade de vida dessas famílias”, explicou o gestor.
Além do apoio produtivo, o projeto também prevê a inclusão das famílias em políticas públicas, como o Pronaf, o PAA e o PNAE, facilitando o acesso ao crédito, regularização documental e programas governamentais. “É um trabalho que vai além da questão econômica, alcançando também o desenvolvimento social das comunidades”, reforçou Altemar.
Formação fortalece atuação no campo
A capacitação reúne cerca de 20 profissionais que atuarão diretamente nas áreas atendidas pelo programa. Para o engenheiro agrônomo e extensionista Ideufonso Silva, o papel do extensionista é essencial na transformação da realidade rural.
Capacitação reúne cerca de 20 profissionais que atuarão diretamente nas áreas atendidas pelo programa. Foto: Dhárcules Pinheiro/Secom“O extensionista presta assistência técnica aos agricultores familiares, ribeirinhos, extrativistas e povos indígenas, orientando desde a produção até o manejo sustentável dos recursos naturais”, afirmou.
Entre as práticas que serão incentivadas estão a apicultura, piscicultura, manejo de espécies nativas como açaí, buriti e patauá, além da produção de hortaliças e artesanato. “A ideia é melhorar o que eles já fazem, sem desmatar ou queimar, aproveitando as áreas já abertas e utilizando técnicas sustentáveis”, destacou.
O extensionista explicou que há desafios, como a logística para chegar até essas comunidades, mas que também há muito potencial.
Troca de saberes e inovação metodológica
A formação é conduzida por Viviane Lage e Rossandra Andrade, especialistas da Anater, A palestrante Rossandra Andrade ressalta que o programa traz uma abordagem diferenciada ao integrar produção e conservação ambiental.
Segundo ela, a capacitação promove uma construção conjunta de conhecimento entre técnicos e comunidades. “Não se trata de fazer para as famílias, mas com elas. Vamos desenvolver projetos produtivos e socioambientais de forma integrada, fortalecendo o que já existe”, afirmou.
Formação também busca preparar os profissionais para os desafios da atuação na Amazônia, como o uso de tecnologias e o monitoramento das atividades em campo. Foto: Dhárcules Pinheiro/SecomA formação também busca preparar os profissionais para os desafios da atuação na Amazônia, como o uso de tecnologias e o monitoramento das atividades em campo. “Precisamos avançar no acesso à internet e a equipamentos, pois isso potencializa o trabalho dos extensionistas”, pontuou.
Desenvolvimento com sustentabilidade
Com 70% dos recursos oriundos da Anater e 30% de contrapartida da Emater, a parceria reforça o compromisso com o desenvolvimento sustentável da Amazônia. A expectativa é que o projeto promova geração de renda, conservação ambiental e melhoria na qualidade de vida das famílias atendidas.
A atuação integrada entre assistência técnica, políticas públicas e preservação ambiental posiciona o Acre como referência em iniciativas voltadas à produção sustentável e valorização das comunidades tradicionais.
Fonte: Governo AC
ACRE
Povo Noke Koî preserva tradição do kambô e fortalece proteção da floresta no Acre
Na Amazônia acreana, em Cruzeiro do Sul, onde a floresta permanece em pé graças à relação ancestral entre os povos indígenas e a natureza, o povo Noke Koî mantém viva uma das mais importantes medicinas tradicionais da floresta: o kambô, conhecimento sagrado transmitido pelos ancestrais há gerações.
Conhecida como “vacina do sapo”, a prática indígena utiliza a secreção da rã, aplicada em pequenas queimaduras na pele (geralmente braço ou perna) com o objetivo de revigorar o corpo e curar doenças. Para os Noke Koî da aldeia Sumaúma, muito mais do que medicina tradicional e cura física; ela simboliza proteção espiritual, fortalecimento do corpo, equilíbrio emocional e conexão com a natureza.

O cacique Mõcha Noke Koî explica que o kambô é um ensinamento ancestral deixado pelos antigos e guiado pelo grande espírito.
“Para nós, o kambô é uma medicina sagrada ensinada pelo grande espírito. Ele traz força, coragem, alegria e limpa o pensamento e a espiritualidade. Desde as crianças pequenas, nosso povo utiliza o kambô como proteção espiritual e fortalecimento do corpo. É uma energia muito forte que vem da floresta e do espírito da medicina”, relata.

Segundo o cacique, o conhecimento sobre a aplicação da medicina atravessa gerações e carrega um profundo compromisso de respeito à natureza.
“A medicina kambô é espírito de proteção. Desde o surgimento, nossos bisavôs e tataravôs preservam, cuidam e respeitam essa medicina. Não é só o kambô. Preservar o kambô é preservar a Amazônia, preservar as plantas, a vida e o planeta. O kambô vive perto das nossas casas porque nosso povo protege e respeita a natureza e a criação do grande espírito”, afirma.

Para os Noke Koî, a preservação da floresta está diretamente ligada à continuidade da medicina ancestral. A retirada da secreção do kambô acontece sem causar danos ao animal, reforçando uma relação de equilíbrio com a biodiversidade amazônica.
Mõcha alerta ainda para o uso inadequado da medicina fora dos territórios indígenas e destaca a importância do conhecimento tradicional para a aplicação correta do kambô.
“Hoje muita gente no mundo usa o kambô, mas sem preparo e sem conhecer a tradição. A medicina não é brincadeira. A gente pode brincar com a medicina, mas a medicina não brinca com a gente. Nosso povo aprendeu com o espírito da medicina a maneira correta de aplicar. Por isso respeitamos e preservamos esse conhecimento ancestral”, destaca.

De acordo com o cacique, entre os Noke Koî, o kambô faz parte da formação espiritual e cultural do povo desde a infância. Os ensinamentos tradicionais orientam a aplicação da medicina em homens, mulheres e crianças, sempre conduzida por pajés e curandeiros preparados espiritualmente.

A secretária extraordinária dos Povos Indígenas do Acre, Francisca Arara, ressalta que o kambô integra um conjunto de conhecimentos ancestrais utilizados historicamente pelos povos indígenas muito antes da medicina farmacêutica chegar às aldeias.

“Os povos indígenas, desde a origem, utilizam muitos conhecimentos tradicionais para cura e fortalecimento espiritual. Um deles é o kambô, que no nosso povo também chamamos de kampô, por conta da língua Pano. Minha mãe conta que meu avô utilizava o kampô para tirar a preguiça, o cansaço e fortalecer os homens antes da caça. Era uma forma de limpar as energias ruins e fortalecer o corpo e o espírito”, explica.
Francisca também destaca que a medicina tradicional está diretamente ligada à preservação da fauna e da floresta amazônica.
“Ninguém mata esse sapo. Nosso povo protege, porque ele faz parte da nossa ciência ancestral. Além da medicina, ele também avisa sobre a mudança do tempo, quando chegam o inverno e o verão. Por isso é muito importante preservar a fauna, a flora e os animais da floresta. O kampô é uma cura espiritual, para tirar tudo que é ruim de dentro da gente”, afirma.

Em um estado reconhecido pela preservação ambiental, com mais de 84% das floresta nativa intacta, os conhecimentos indígenas seguem sendo fundamentais para a proteção da Amazônia. Nas aldeias acreanas, tradição, espiritualidade e sustentabilidade caminham juntas.

Em cada ritual, canto e ensinamento repassado pelos anciãos, o povo Noke Koî reafirma que a floresta não é apenas território: é espírito, memória e vida. Preservar o kambô, para eles, é manter viva uma sabedoria ancestral que continua ensinando ao mundo sobre cuidado, equilíbrio e respeito à natureza.
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Foto: Cleiton Lopes
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