AGRONEGÓCIO
Arco Norte cresce nas exportações, mas rodovias ruins limitam avanço
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Os portos do chamado Arco Norte, conjunto de corredores logísticos do Norte e parte do Nordeste, voltaram a registrar expansão no volume exportado em 2025. Entre janeiro e outubro, a movimentação superou 53 milhões de toneladas, avanço próximo de 9% frente ao mesmo período do ano passado, segundo dados de autoridades portuárias e do Ministério da Agricultura. A alta reforça a transferência gradual das exportações de soja, milho e farelo para rotas mais próximas das áreas produtoras do Centro-Oeste, reduzindo custos logísticos e ampliando a competitividade dos embarques brasileiros.
O desempenho contrasta com o ritmo mais moderado de crescimento observado nos portos do Sul e Sudeste, que operam próximos ao limite estrutural e, nos últimos anos, vêm perdendo participação relativa. Em 2015, o Arco Norte respondia por menos de 20% das exportações de grãos; em 2025, já se aproxima de 38%, movimento influenciado tanto pela ampliação da capacidade dos terminais quanto pelo ganho de eficiência das hidrovias amazônicas.
Apesar do avanço, o setor ainda considera o acesso rodoviário à região o maior obstáculo para a consolidação do corredor logístico. As BRs 163 e 230, principais rotas utilizadas entre Mato Grosso e os terminais fluviais do Pará, continuam sujeitas a trechos degradados, pontos sem pavimentação e falta de manutenção rotineira. Transportadoras e operadores portuários relatam aumento no tempo de viagem, maior consumo de combustível e desgaste acelerado da frota, fatores que elevam o custo operacional e reduzem a previsibilidade do fluxo de cargas.
A Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport), afirma que a navegação na hidrovia do Tapajós segue operando dentro da normalidade, com ajustes apenas nos tamanhos de comboios e no volume transportado por questões de segurança durante o período de águas mais baixas. O problema, segundo a entidade, está exclusivamente no acesso terrestre, que não acompanha o ritmo de expansão da capacidade portuária.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Pará publicou editais de licitação para dois trechos considerados críticos. O primeiro, entre Rurópolis e Santarém, prevê orçamento de R$ 463,2 milhões e prazo de execução de três anos. O segundo, entre Campo Verde e Rurópolis, envolve R$ 11,25 milhões destinados à atualização de projetos antes da contratação das obras, previstas para 2026. A avaliação do setor é que as intervenções são necessárias, mas tardias, e que a falta de manutenção acumulada comprometeu trechos que haviam sido recuperados há poucos anos.
Outro ponto sensível é a chamada Transportuária, ramal que conecta a BR-230 aos terminais privados de Miritituba. A via não é pavimentada, apresenta erosões frequentes e é considerada um gargalo estrutural. O Consórcio Via Brasil BR163, responsável pela concessão do trecho entre Sinop e Miritituba, prevê a construção de uma nova via de acesso, projetada do zero, com capacidade compatível ao fluxo atual e futuro de caminhões. As obras estão na fase inicial, e a concessionária estima concluir o novo acesso até outubro de 2026. Enquanto isso, empresas associadas à Amport vêm arcando com custos mensais para manter o ramal atual transitável, devido à ausência de definição sobre a responsabilidade legal da estrada.
Mesmo com essas limitações, o Arco Norte mantém trajetória de expansão e deve encerrar 2025 com nova participação recorde nas exportações de grãos. Operadores avaliam que, se os projetos rodoviários saírem do papel no ritmo previsto, a região poderá ultrapassar 40% de participação já nos próximos anos. A expectativa é que a combinação entre terminais mais eficientes, hidrovias estabilizadas e estradas recuperadas consolide o corredor como a rota dominante para o escoamento da produção do Centro-Oeste.
Fonte: Pensar Agro
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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