AGRONEGÓCIO
Frio reduz produção de mel no Rio Grande do Sul e preocupa apicultores com chegada do inverno
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As baixas temperaturas registradas nas últimas semanas vêm impactando diretamente a apicultura no Rio Grande do Sul. De acordo com o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar, divulgado recentemente, o frio tem reduzido a atividade das abelhas, comprometido o forrageamento e exigido medidas extras de manejo por parte dos produtores para garantir a manutenção dos enxames durante o inverno.
Além dos desafios produtivos, apicultores de algumas regiões também enfrentam dificuldades para comercializar o mel, cenário que aumenta a preocupação do setor em um momento de menor atividade das colmeias.
Frio acelera cristalização e dificulta extração do mel
Na região de Itaqui, vinculada ao escritório regional de Bagé, as baixas temperaturas aceleraram o processo de cristalização do mel. A situação tem dificultado o trabalho dos produtores que não dispõem de estruturas climatizadas para a extração e beneficiamento do produto, elevando os custos operacionais e reduzindo a eficiência do processamento.
Menor oferta de flores reduz alimentação das abelhas
Nas regiões de Caxias do Sul, Erechim, Porto Alegre e Santa Rosa, a combinação entre temperaturas mais baixas e chuvas pontuais reduziu significativamente as floradas disponíveis para as abelhas. Como consequência, houve queda no forrageamento e menor oferta de alimento natural para as colmeias.
Para minimizar os impactos, os apicultores intensificaram a suplementação proteica dos enxames e adotaram práticas de manejo voltadas à preparação das colmeias para o período mais rigoroso do inverno.
Na região de Ijuí, entretanto, a situação permanece mais estável, com as colmeias apresentando reservas alimentares consideradas adequadas para atravessar os próximos meses.
Produtores reforçam manejo sanitário e renovação das colmeias
Em Frederico Westphalen, o frio praticamente interrompeu a atividade de coleta das abelhas. Com isso, os produtores direcionaram os trabalhos para a revisão das colmeias, substituição de favos antigos e adoção de medidas sanitárias preventivas, fundamentais para preservar a saúde dos enxames durante a estação fria.
Já na região de Passo Fundo, as floradas estão limitadas a espécies como cipó, eucalipto e nabo, restringindo ainda mais a disponibilidade de recursos naturais para as abelhas e reduzindo o potencial produtivo das colmeias.
Preparação para o inverno mobiliza apicultores
Na região de Pelotas, os apiários passam por um intenso processo de preparação para o inverno. Entre as principais ações estão a suplementação alimentar e o controle dos enxames, medidas consideradas essenciais para reduzir perdas durante os meses de temperaturas mais baixas.
Enquanto isso, em Santa Vitória do Palmar, o setor apícola teve um importante momento de valorização com a realização do 9º Concurso Regional de Qualidade do Mel de abelhas Apis e das espécies nativas Jataí e Mandaçaia. O evento reuniu produtores de 13 municípios e contou com a participação de cerca de 200 pessoas, entre apicultores, técnicos, estudantes e representantes de entidades parceiras.
Além da premiação dos melhores méis da região, a programação incluiu atividades educativas voltadas à conscientização sobre a importância das abelhas para a biodiversidade, a produção de alimentos e o desenvolvimento da cadeia produtiva do mel.
Comercialização preocupa produtores em Soledade
Além dos desafios climáticos, os apicultores da região de Soledade enfrentam dificuldades para escoar a produção. Segundo o levantamento da Emater/RS-Ascar, o mercado interno não tem absorvido totalmente o volume produzido na última safra, o que tem limitado as vendas e aumentado a preocupação dos produtores.
O cenário reforça a necessidade de ampliação dos mercados consumidores e de estratégias que fortaleçam a comercialização do mel gaúcho, especialmente em um período marcado pela redução da atividade produtiva e pelos custos adicionais de manutenção dos enxames.
Perspectivas para a apicultura gaúcha
Com a aproximação do inverno, a expectativa é de que os apicultores mantenham os investimentos em manejo nutricional, sanidade e proteção das colmeias. A adoção dessas práticas será fundamental para preservar a força dos enxames e garantir melhores condições para a retomada da produção quando as temperaturas voltarem a subir e as floradas se intensificarem no estado.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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