AGRONEGÓCIO
Retirada de tarifas pelos EUA impulsiona otimismo no mercado de café, mas preços seguem voláteis com clima e oferta restrita
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O setor cafeeiro brasileiro recebeu com entusiasmo a decisão dos Estados Unidos de retirar o café da lista de produtos sujeitos à sobretaxa de 40%. O anúncio, feito em 20 de novembro, sucede a retirada de uma tarifa de 10% aplicada em abril deste ano. De acordo com pesquisadores do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), a medida era aguardada com grande expectativa pelos exportadores, que enfrentavam lentidão nos embarques e temiam perda de espaço para concorrentes internacionais.
Apesar da boa notícia, o café solúvel ainda permanece sujeito à sobretaxa de 50%, mesmo sendo os Estados Unidos um dos principais destinos desse tipo de produto brasileiro. As negociações entre os dois países devem continuar para tentar incluir o café solúvel na lista de isenções.
Os analistas do Cepea ressaltam que, mesmo com o alívio tarifário, o mercado ainda é influenciado pela baixa oferta global e pelos estoques reduzidos, fatores que continuam sustentando as cotações do grão no mercado internacional.
Clima irregular mantém pressão sobre os preços do café arábica e robusta
Os preços do café iniciaram a quarta-feira (26) com movimentos de realização de lucros e ajustes técnicos nas bolsas internacionais, refletindo a volatilidade do mercado futuro. Segundo o portal Barchart, a principal pressão sobre o café arábica vem da seca no Brasil, especialmente em Minas Gerais — maior região produtora da variedade — que recebeu apenas 26,4 milímetros de chuva na semana encerrada em 21 de novembro, o que corresponde a 49% da média histórica.
Já o café robusta encontra suporte na previsão de tempo mais seco no Vietnã, que deve permitir o avanço da colheita após fortes chuvas terem atrasado os trabalhos na principal província produtora do país.
Mesmo com a retirada das tarifas norte-americanas, o Cepea reforça que a escassez de café no mercado e os baixos estoques globais continuam dando sustentação aos preços internacionais.
Mercado futuro opera com ajustes após alta em Nova York
Na manhã desta quarta-feira (26), os contratos do café arábica apresentavam movimento misto na Bolsa de Nova York (ICE Futures US). Por volta das 9h40 (horário de Brasília), o vencimento de dezembro/2025 registrava alta de 675 pontos, cotado a 414,20 cents/lbp, enquanto o contrato de março/2026 recuava 295 pontos, a 380,35 cents/lbp, e o de maio/2026 caía 215 pontos, para 363,55 cents/lbp.
O robusta, negociado na Bolsa de Londres, operava em baixa: o contrato de janeiro/2026 recuava US$ 16, cotado a US$ 4.543/tonelada; o de março/2026, US$ 15 mais barato, a US$ 4.399/tonelada; e o de maio/2026, queda de US$ 7, valendo US$ 4.324/tonelada.
Alta anterior foi sustentada por queda do dólar e preocupações climáticas
Na sessão anterior, o café arábica havia encerrado o dia em alta na Bolsa de Nova York, impulsionado pela desvalorização do dólar frente ao real e pelas chuvas irregulares nas regiões produtoras brasileiras, que acenderam o alerta para a próxima safra.
Segundo analistas, o mercado enfrenta aperto na oferta de curto prazo, com estoques baixos entre consumidores e expectativa de uma boa produção brasileira em 2026. No entanto, o comportamento irregular do clima tem gerado incertezas quanto à produtividade.
Os contratos para março/2026 fecharam cotados a 383,30 cents/lbp, alta de 6,75 cents (1,8%), enquanto a posição maio/2026 encerrou a 365,70 cents/lbp, avanço de 6,70 cents (1,9%).
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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