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POLÍTICA NACIONAL

Agenda do Senado priorizou justiça tributária com recomposição de receitas

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Para milhões de trabalhadores assalariados, o desconto mensal do Imposto de Renda no contracheque significa menos dinheiro para pagar aluguel, transporte e alimentação. Em 2025, diante do peso desproporcional da taxação sobre os mais pobres, o Senado colocou a economia no centro da agenda legislativa e aprovou projetos voltados à justiça tributária.

As propostas — que vão da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda à criação de novos mecanismos de arrecadação sobre altas rendas, fintechs e apostas esportivas — revelam uma estratégia em duas frentes: garantir justiça tributária para quem ganha menos e, ao mesmo tempo, recompor receitas públicas diante da demanda por maior equilíbrio fiscal do país.

Entre as principais medidas aprovadas pelo Senado e que já se tornaram leis, está a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IR) para rendimentos mensais de até R$ 5 mil, acompanhada de redução parcial da tributação de rendas até R$ 7.350 (Lei 15.270, de 2025). 

A medida, encaminhada ao Congresso pelo governo, começou a valer neste mês e deve beneficiar mais de 15 milhões de contribuintes. Até agora, a isenção do IR alcançava apenas quem ganhava até dois salários mínimos.

Dos novos beneficiados, mais de 10 milhões deixarão de ter descontado o IR em seus vencimentos mensais (o Imposto de Renda Retido na Fonte) já a partir de janeiro. Outros 5 milhões terão redução no valor devido. A nova isenção terá impacto na declaração anual do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2027, ano-base 2026. 

Taxação de altas rendas

Para compensar os cofres públicos pela perda de arrecadação, a lei aumenta a taxação de altas rendas, com ganhos a partir de R$ 600 mil anuais. A estimativa é de que esse aumento de imposto alcance 140 mil cidadãos de alta renda. A cobrança é gradual, com alíquota máxima de até 10% sobre os rendimentos de lucros e dividendos. Aqueles que já pagam essa porcentagem ou mais que isso não serão cobrados. 

Segundo o Planalto, a criação de uma alíquota mínima sobre altas rendas reforça o compromisso do governo de fazer justiça fiscal e atende a debates internacionais relacionados à tributação progressiva (em que os que ganham mais, pagam mais imposto).

Alguns tipos de rendimentos não entram nessa conta, como ganhos de capital, heranças, doações e rendimentos recebidos acumuladamente, além de aplicações isentas, poupança, aposentadorias por moléstia grave e indenizações. A lei também define limites para evitar que a soma dos impostos pagos pela empresa e pelo contribuinte ultrapasse percentuais fixados para empresas financeiras e não financeiras. Caso isso ocorra, haverá restituição na declaração anual.

Faixa de isenção permanente

Além das alterações no IR, o Congresso aprovou a inclusão permanente da faixa de isenção na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, conferindo estabilidade jurídica ao benefício e previsibilidade ao planejamento fiscal. A LDO já foi sancionada (Lei 15.246, de 2025).

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A medida dispensa o benefício de revisão anual, o que reduz incertezas para o governo e para os beneficiados.

Atualização patrimonial

Outra frente importante foi a aprovação do projeto que instituiu o Regime Especial de Atualização Patrimonial (Rearp). O mecanismo permite que contribuintes atualizem o valor de mercado de bens — como imóveis e veículos — pagando uma alíquota específica sobre o ganho patrimonial. 

A norma teve origem no PL 458/2021, da Câmara dos Deputados, e já foi convertida na Lei 15.265, de 2025. No Senado, o texto teve relatório favorável do senador Eduardo Braga (MDB-AM).

A iniciativa autoriza a atualização do valor de imóveis e veículos no Imposto de Renda e a regularização de bens lícitos não declarados. A legislação não possuía previsão legal de atualização do valor de imóveis a preço de mercado. Com isso, a declaração não refletia a situação patrimonial do contribuinte, pela defasagem existente entre os valores históricos declarados e os preços de mercado. 

Para pessoas físicas, a lei estabelece que a atualização acarretará cobrança de 4% sobre a diferença entre o valor declarado e o valor de mercado, em substituição ao Imposto sobre Ganho de Capital, que varia de 15% a 22,5%. Para pessoas jurídicas, as alíquotas serão de 4,8% de IRPJ e 3,2% de CSLL.

A nova lei inclui ainda:

  • regularização de criptoativos, respondendo a uma lacuna crescente do mercado;
  • ajustes nas regras de compensações tributárias, tema sensível para empresas e para a Receita;
  • reforço à capacidade de arrecadação sem aumento direto de impostos sobre consumo ou renda do trabalho.

Combate à sonegação 

Além das mudanças no Imposto de Renda, o Congresso também avançou em outro ponto importante para a arrecadação pública e o combate à sonegação: a aprovação do Projeto de Lei Complementar (PLP) 125/2022, que estabelece critérios e sanções mais rigorosos para o chamado devedor contumaz — o contribuinte que apresenta dívidas tributárias reiteradas e injustificadas, usando a inadimplência como estratégia de negócio e vantagem competitiva em relação aos concorrentes.

A proposta, do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), define parâmetros objetivos para classificar uma dívida como substancial (acima de R$ 15 milhões e superior a 100% do patrimônio conhecido), além de ações reiteradas de não pagamento. Antes de ser considerada devedora contumaz, a empresa terá direito a um processo administrativo de defesa.

O projeto busca combater a “concorrência desleal” provocada por empresas que não pagam tributos e, assim, conseguem margem de lucro maior frente aos concorrentes que cumprem a legislação. 

A proposta também cria programas de estímulo à conformidade fiscal e cooperação tributária com a Receita Federal, reforçando a ideia de que, além de punir a inadimplência sistemática, o Estado deve incentivar o adimplente. 

Já aprovado no Senado e na Câmara, o texto pode ser sancionado nesta semana pelo presidente Lula. 

Fintechs e bets 

Outro projeto importante que avançou no Senado foi o PL 5.473/2025, que aumenta a tributação de fintechs e bets. O texto apresentado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) e relatado pelo senador Eduardo Braga atualiza a legislação para segmentos que cresceram rapidamente nos últimos anos, mas cujas contribuições fiscais não acompanham o tamanho de suas operações. 

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A medida, já aprovada na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) da Casa, foi defendida como necessária para equilibrar o ambiente concorrencial e corrigir distorções no sistema tributário. Agora a iniciativa aguarda votação do Plenário para, em seguida, ser analisada na Câmara dos Deputados. 

Na avaliação de Eduardo Braga, a proposta traz avanços importantes no combate à criminalidade e na transparência do sistema bancário, além de ampliar a arrecadação do Estado para que possa retornar como política pública ao cidadão. 

— Finalmente nós estamos fechando a porta para o escândalo que está acontecendo no nosso sistema bancarizado, que é o uso de contas-bolsões para movimentar bilhões de reais sem nenhum pagamento de impostos. Eu me refiro ao uso de contas por fintechs não monitoradas pelo Banco Central e pelo Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras] e que manipulam recursos de bets ilegais, manipulam recursos do crime organizado, manipulam recursos de lavagem de dinheiro e que têm sido, lamentavelmente, uma grande sangria para a economia do povo brasileiro. Porque esses recursos, além de ilegais, além de estarem financiando o crime organizado, esses recursos não pagam nenhum centavo de impostos. 

O projeto altera a Lei 7.689, de 1988, para elevar, de forma escalonada, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Para fintechs, instituições de pagamento, bolsas e administradoras de mercado, a alíquota sobe de 9% para 12% em 2026 e para 15% em 2028. Já sociedades de capitalização e instituições de crédito, financiamento e investimento terão a CSLL elevada de 15% para 17,5% em 2026 e para 20% em 2028.

A proposta também aumenta gradualmente a Contribuição sobre a Receita Bruta de Jogo das empresas de apostas de quota fixa (bets), de 12% para 15% em 2026 e 2027 e para 18% em 2028. Os recursos arrecadados serão destinados à seguridade social, com prioridade para a área da saúde, podendo, de forma excepcional entre 2026 e 2028, ser repassados a estados e municípios para compensar perdas com a isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física.

O texto cria ainda o Programa de Regularização Tributária para Pessoas Físicas de Baixa Renda (Pert–Baixa Renda), voltado a contribuintes com renda mensal de até R$ 7.350, permitindo a quitação de dívidas vencidas com descontos e parcelamento mínimo de R$ 200.

Além disso, a iniciativa corrige distorção na tributação de remessas de lucros e dividendos ao exterior, garantindo o direito à restituição de valores pagos além do limite legal. O prazo para solicitação é de até cinco anos, em conformidade com o Código Tributário Nacional.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Ativistas criticam deportações em massa dos EUA e pedem medidas de acolhimento de migrantes no Brasil

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As deportações em massa dos Estados Unidos e as falhas no acolhimento de migrantes no Brasil dominaram o debate entre ativistas de causas humanitárias em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

A audiência realizada nesta quarta-feira (8) resultou da mobilização internacional de parlamentares e sociedade civil que participaram, em março, da Jornada Continental pelo Direito à Migração e Defesa da Soberania.

Integrante do comitê da jornada em São Paulo, Bárbara Corrales lembrou que o movimento se intensificou a partir da truculência do ICE, o Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos Estados Unidos. “Na semana passada, os agentes do ICE prenderam 10 mil pessoas em cinco dias. Isso não deixa dúvida do que o imperialismo quer: a guerra pode ser com bombas, mas a guerra também pode ser com opressão social.”

Bárbara Corrales afirmou que, mesmo diante de intensa manifestação popular nos Estados Unidos (com o lema “No kings, no ICE, no war”), o governo Donald Trump manteve as deportações em massa e reforçou o orçamento do ICE com 70 bilhões de dólares.

De janeiro de 2025 até junho deste ano, foram cerca de 600 mil deportados, dos quais 4,6 mil brasileiros. Também houve 60 mil detidos de várias nacionalidades, a maioria (70%) sem antecedentes criminais.

Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Direito de Migrar. Brasileira Vivendo nos EUA, Heloisa Galvão.
Por videoconferência, Heloísa Galvão relatou situação de “catástrofe” de brasileiros nos EUA

Brasileiros nos EUA
Falando diretamente de Boston, em Massachusetts, a organizadora do Grupo Mulher Brasileira, Heloísa Galvão, deu detalhes do cotidiano de tentativa de ajuda aos migrantes brasileiros. “A situação aqui é uma catástrofe. É um governo que coloca em risco a vida das pessoas, coloca uns contra os outros e alimenta o ódio. O que a gente vê na nossa comunidade é um medo, é um pavor. Todos os dias a gente recebe ligação de brasileiros presos.”

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Os ativistas calculam que há 17 mil brasileiros enfrentando detenções prolongadas e dificuldades de defesa nos Estados Unidos.

A diplomata Carlota Ramos, que trabalha na Divisão de Assuntos Humanitários do Ministério de Relações Exteriores, afirmou que o Brasil enfrenta a situação com base nos princípios de não criminalização da migração, proteção dos direitos de migrantes e refugiados e integração socioeconômica.

“Vivemos [no mundo] um momento de recrudescimento de discursos anti-imigração, endurecimento de políticas migratórias e crescente erosão de mecanismos internacionais de proteção. Nesse contexto, o Brasil tem atuado para ser uma voz dissonante, que defende soluções baseadas em direitos humanos, cooperação internacional e não discriminação”, afirmou.

Carlota Ramos citou ações em curso, como a Operação Acolhida, voltada aos venezuelanos, e o primeiro Plano Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia (I PlaNaMigra), assinado em junho deste ano.

Ações em andamento
Um dos organizadores da audiência, o deputado Rui Falcão (PT-SP) pediu o fortalecimento do Programa Aqui é Brasil, lançado no ano passado para a reintegração de brasileiros repatriados à força.

“Apesar de toda a boa vontade, tem baixo orçamento. Mais de 5 mil famílias foram deportadas com violência e precisam de acolhimento, direito à moradia, quem sabe acesso a benefícios sociais e também possibilidade de reinserção no mercado de trabalho. Nós não queremos muros, queremos horizontes”, disse o deputado.

Rui Falcão ainda defendeu a formalização de uma delegação multipartidária de parlamentares para verificar a situação dos brasileiros presos nos Estados Unidos.

Migrantes no Brasil
Durante a audiência, migrantes radicados no Brasil também relataram os desafios por aqui, como racismo, xenofobia, trabalho precário, separação da família e medo de deportação e de violência institucional.

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Integrante do Conselho Municipal do Migrante de São Paulo, a nigeriana Constance Salawe afirmou que a legislação migratória brasileira é uma das mais avançadas do mundo, mas precisa ser plenamente implementada.

“Nós, imigrantes, não somos um problema a ser resolvido. Somos parte da solução: trabalhamos, empreendemos, produzimos conhecimento, cuidamos das pessoas, enriquecemos a cultura brasileira e ajudamos a construir um Brasil mais diverso, mais forte e mais humano”, declarou.

Segundo Constance Salawe, “migrar não é apenas mudar de território, é reconstruir uma vida”.

Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Direito de Migrar. Representante Do Conselho Municipal De Imigrantes (Cmi), Constance Salawe
Constance Salawe: a legislação migratória brasileira precisa ser plenamente implementada

Outro organizador do debate, o deputado Reimont (PT-RJ) afirmou que “fronteiras administrativas não podem impedir o livre deslocamento das pessoas”.

Já a deputada Erika Kokay (PT-DF) sugeriu a criação de um observatório para monitorar a situação dos migrantes e uma moção de repúdio da comissão à política anti-imigratória de Trump.

Também na audiência, a palestina Muna Muhammad Obdeh citou a Declaração Universal dos Direitos Humanos como fundamento para a reconstrução da sua vida no Brasil. “Eu, como palestina, resido aqui no Brasil desde 1992, faço pesquisa, estudo e oriento estudantes nessa temática, que transcorre a partir de direitos humanos e de dignidade humana”, disse.

Muna Muhammad Obdeh é professora de saúde coletiva na Universidade de Brasília (UnB) e representou o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) no debate.

Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Pierre Triboli

Fonte: Câmara dos Deputados

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