POLÍTICA NACIONAL
Debate na CRA aponta falhas na reforma agrária; governo defende avanços
POLÍTICA NACIONAL
Dificuldades históricas do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA) — como baixa titulação de lotes e falta de assistência técnica nos assentamentos — dominaram os debates na audiência pública feita pela Comissão de Agricultura (CRA) na quarta-feira (3).
O encontro marcou a primeira etapa de avaliação do PNRA pelo colegiado. O programa foi escolhido pela CRA como política pública federal a ser analisada neste ano.
Autor do pedido do debate (REQ 11/2025 – CRA), o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) destacou que, desde 1975, menos de 10% dos assentamentos foram consolidados, ou seja, chegaram à titulação definitiva. Para ele, o problema vai além da falta de regularização fundiária.
— Temos uma situação grave, com mais de 580 mil beneficiários em situação irregular ocupando 39 milhões de hectares. Isso mostra que o processo não vem funcionando como deveria — afirmou.
O senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), presidente da CRA, reforçou a cobrança pela titulação e defendeu medidas para dar condições reais de produção às famílias.
— O documento da terra é o maior objeto de desejo do agricultor familiar. Sem ele, não há segurança, não há acesso a crédito, e isso compromete o futuro das famílias. É preciso desburocratizar e rever custos de máquinas agrícolas, que chegam a custar mais do que um carro de luxo — criticou.
Órgãos de controle
Representantes do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU) detalharam as auditorias realizadas sobre a política de reforma agrária.
A diretora de Fiscalização do Desenvolvimento, Territórios, Regularização e Reforma Agrária do TCU, Maria Gabriela Freire, explicou que o TCU já identificou irregularidades recorrentes na seleção de beneficiários e fragilidades sistêmicas na gestão do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
— Cerca de 578 mil indícios de irregularidades foram apontados, e, até o último monitoramento, apenas 142 mil haviam sido apurados. Verificamos problemas em sistemas de informação, baixa interoperabilidade e uso de plataformas obsoletas. É fundamental avançar na governança digital e no cruzamento de dados para reduzir riscos — relatou.
Já o secretário de Controle Interno da CGU, Ronald Balbe, destacou que o órgão ouviu mais de 500 famílias em 57 assentamentos para avaliar infraestrutura e condições de vida.
— A percepção foi positiva em relação a energia elétrica e acesso à água, mas persistem dificuldades no saneamento e, principalmente, na comunicação entre o Incra e os assentados. Recomendamos revisão de critérios de consolidação e mais clareza na definição de responsabilidades — explicou.
Visão do Incra e do MDA
O diretor de Governança da Terra do Incra, João Pedro Gonçalves, ressaltou o esforço recente do órgão para ampliar os assentamentos e fortalecer a agricultura familiar.
— Nos últimos dois anos, assentamos 125 mil famílias e temos meta de chegar a 100 mil só em 2025. É preciso lembrar que temos 130 mil famílias acampadas em todo o país, uma pressão social que exige orçamento robusto. A agricultura familiar garante a mandioca, o tomate e a maior parte da comida que chega à mesa do brasileiro — citou.
O diretor de Gestão Estratégica do Incra, Gustavo Noronha, afirmou que a consolidação deve ser vista de forma mais ampla, incluindo responsabilidades de estados e municípios.
— Avaliar um assentamento isoladamente não faz sentido. Ele se desenvolve dentro do pacto federativo. Dos 800 mil indícios de irregularidades apontados pelo TCU, menos de 2% se confirmaram. As provocações dos órgãos de controle têm nos ajudado a avançar na transformação digital, com integração de cadastros e maior transparência — observou.
Representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), o consultor Carlos Henrique Gondim destacou que a reforma agrária é uma obrigação constitucional e uma política econômica.
— Ela devolve terras improdutivas para a produção de alimentos, ajuda a combater a inflação e fortalece o agronegócio. Hoje temos dez modalidades de crédito para assentados, como o fomento, o crédito mulher e o habitacional, além do Pronaf com juros reduzidos — declarou.
Patrimônio da União
A diretora de Caracterização e Incorporação de Imóveis da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), Thaís Brito, apresentou números do programa Imóvel da Gente, voltado à destinação de bens públicos para habitações de interesse social, reforma agrária e urbanização de assentamentos, entre outras ações.
— De janeiro de 2023 a julho de 2025, foram mais de 1.190 imóveis destinados, o que beneficiou 400 mil famílias. No caso da reforma agrária, 16 imóveis atenderam a 720 famílias, com fluxo de análise conjunta com o Incra para garantir viabilidade — informou.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Comissão aprova proibição de leilão e penhora de espaços culturais tombados
A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 66/2026, do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que proíbe a penhora, o leilão e outras formas de expropriação de imóveis indispensáveis à preservação de bens tombados ou de patrimônios culturais imateriais reconhecidos pelo poder público.
A vedação vale sempre que o ato puder:
- comprometer a continuidade, a integridade ou a autenticidade do bem cultural;
- alterar o uso do espaço de forma incompatível com sua função cultural; e
- descaracterizar social, simbólica, econômica ou funcionalmente a prática protegida.
A regra vale para execuções fiscais, trabalhistas, cíveis ou administrativas, contra entes públicos ou privados. O projeto busca proteger o chamado “espaço cultural essencial”, o imóvel público ou privado com função indispensável para a manutenção desses bens tombados.
Se já houver processo judicial ou administrativo de penhora ou leilão sobre um desses bens, o juiz ou a autoridade competente é obrigado a suspender a ação de forma imediata.
A medida pode ser determinada de ofício ou a pedido do Ministério Público, do órgão de proteção ao patrimônio cultural ou de entidade representativa da comunidade envolvida.
A suspensão não impede a apuração da dívida. O projeto determina que sejam priorizadas soluções alternativas, como negociação, parcelamento ou compensação. Qualquer decisão que afaste a suspensão deverá ser expressamente fundamentada, sob pena de nulidade.
Exceções
O projeto admite exceções à proibição, porém somente se forem cumpridos cumulativamente os seguintes requisitos:
- parecer técnico favorável do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ou de órgão cultural competente;
- estudo de impacto cultural, social e econômico, com participação da comunidade;
- autorização expressa do Poder Legislativo correspondente — Congresso Nacional, Assembleia Legislativa, Câmara Legislativa ou Câmara Municipal —, conforme o nível de reconhecimento do bem.
O estudo de impacto cultural deverá avaliar a historicidade da prática, os vínculos sociais e identitários com o espaço, a possibilidade real de continuidade em outro local e os impactos sobre trabalho e renda. A ausência de qualquer requisito torna o ato nulo.
Alternativas à expropriação
O poder público deverá priorizar saídas que preservem o espaço cultural, como a renegociação de dívidas, a transferência da gestão do imóvel para associações ou cooperativas da comunidade e a celebração de convênios ou parcerias voltadas à sustentabilidade do bem protegido.
Lindbergh Farias citou a ameaça de leilão do imóvel da Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro — sede do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, reconhecido por lei federal como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil —, como exemplo do problema que o projeto busca resolver.

Para a relatora, deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) o projeto assegura, na prática, a continuidade das manifestações culturais. “A eventual alienação ou descaracterização desses espaços não representa apenas uma mudança de titularidade patrimonial, mas pode implicar a ruptura de vínculos históricos, sociais e simbólicos que sustentam determinadas práticas culturais”, disse.
Sâmia Bomfim afirmou que as alternativas propostas pelo projeto, como a renegociação de dívidas, a gestão compartilhada e a celebração de parcerias, oferecem uma perspectiva equilibrada entre a proteção do patrimônio cultural e a viabilidade econômica dos espaços envolvidos, buscando o diálogo e o consenso.
Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.
Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Roberto Seabra
Fonte: Câmara dos Deputados
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