POLÍTICA NACIONAL
Autismo: primeiro projeto de iniciativa de cidadãos pode se tornar lei
POLÍTICA NACIONAL
A Comissão de Assuntos Sociais (CAS) pode analisar em breve um projeto de lei do Senado que torna obrigatória a oferta de centros de assistência integral a pessoas com transtorno do espectro autista no Sistema Único de Saúde (SUS).
A proposta nasceu de uma ideia legislativa enviada aos senadores por uma cidadã, a cearense Irene Jucá, por meio do Portal e-Cidadania, do Senado. Caso seja confirmada pela CAS e depois pelo Plenário do Senado, esta será a primeira sugestão de cidadãos no e-Cidadania a se tornar lei.
Depois de ser transformada em projeto de lei (PLS 169/2018), a proposta de Irene foi aprovada pelo Senado em 2021 e, em seguida, encaminhada à Câmara. O texto também foi aprovado pelos deputados, em 2023. Porém, por ter sido alterado, retornou para revisão dos senadores, na forma de um substitutivo (texto modificado em relação ao original), o PL 3.630/2021. O relator é o senador Humberto Costa (PT-PE).
Algumas mudanças sugeridas pela Câmara e que serão analisadas para compor ou não o relatório de Humberto Costa são:
- oferta de atendimento aos autistas por meio dos centros especializados de reabilitação (CERs), integrantes da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência (RCPD);
- acompanhamento psicológico especializado aos pais e responsáveis por pessoas com transtorno do espectro autista (TEA);
- possibilidade de o SUS firmar convênio com clínicas privadas, caso não consiga atender à demanda.
— Estamos concluindo as últimas análises do texto, para que ele ofereça toda a segurança jurídica e social necessária. Assim, em breve poderemos apresentar um relatório consistente, que representará um marco na consolidação da política nacional de atenção às pessoas com autismo — disse Humberto à Agência Senado nesta segunda-feira (29).
A proposta altera a Lei 12.764, de 2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Iniciativa popular
Assistente social, Irene Jucá é mãe de Letícia, jovem autista de 31 anos atendida pela Fundação Projeto Diferente, com sede em Fortaleza. Irene diz que se interessou pela temática depois que a filha foi diagnosticada tardiamente com autismo, aos 18 anos. Ela explica que a filha nasceu na década de 1990, quando pouco ou nada se falava sobre o transtorno.
— Era uma criança que se comunicava, tinha determinada autonomia, e o autismo veio se apresentando de maneira meio disfarçada. Apesar de termos recorrido a profissionais para assisti-la, nenhum chegou a diagnosticar o problema. Depois de muito estudar formas de suporte, buscar tratamentos e manter contato com outras mães, decidimos formular a sugestão legislativa — declarou à Agência Senado.
Para Irene, a alteração promovida pelos deputados é ineficaz, por ser já o mecanismo usado atualmente no país e, portanto, não atender às necessidades das famílias, nem garantir acompanhamento multidisciplinar.
— O substitutivo foi um “balde de água fria”, porque não é o que estamos pleiteando, pois há uma série de questões relacionadas ao suporte. A porta de entrada para o tratamento é o posto de saúde, a unidade básica de saúde, onde o médico estratégico da família solicita os atendimentos, que não são nada fáceis de serem conseguidos.
Segundo Irene, existe uma lista de espera virtual que impede acesso ao controle ou informações sobre a posição ocupada pelo paciente. Além disso, de acordo com ela, o médico geralmente solicita profissionais e procedimentos de difícil acesso para o suporte à criança ou jovem que, quando acessados, ainda obrigam as famílias a voltarem novamente para o começo das filas.
— Temos lista de espera com pessoas aguardando há três, quatro anos. Neurologista é outra área que traz uma dificuldade imensa por ser um dos profissionais fundamentais, inclusive, para o diagnóstico inicial. O ideal para nós seria, já no diagnóstico, o paciente ser avaliado por uma equipe multidisciplinar.
Embora a sugestão legislativa enviada ao Senado tenha sido assinada por Irene, foi escrita a várias mãos por um grupo de mães de Fortaleza, do qual ela até hoje faz parte. Essas mulheres se uniram para tentar melhorar o atendimento aos filhos e decidiram propor uma mudança de legislação, por meio da qual o SUS deveria oferecer, em um mesmo lugar, todas as terapias necessárias para crianças e jovens autistas.
Depois de enviar a proposta para o Senado, Irene e outras mães mobilizaram conhecidos e foram às ruas para pedir apoio à causa, alcançando os 20 mil apoiamentos necessários para a ideia ser transformada em sugestão legislativa (SUG 21/2017). A sugestão foi então encaminhada para a análise da Comissão de Direitos Humanos (CDH), que aprovou a proposição, transformando-a em projeto de lei.
Estruturação e financiamento
Diretora da Associação Brasileira de Autismo (Abra), que ajuda a promover acolhimento e informação para pessoas autistas e suas famílias, a advogada Flávia Marçal atua há mais de 10 anos na elaboração e monitoramento de políticas públicas inclusivas. Em entrevista à Agência Senado, ela considerou positivas as alterações propostas na Câmara ao PL 169/2018, mas salientou a necessidade de clareza quanto à estruturação e financiamento permanente desses centros especializados.
— É claro que, ao vinculá-los aos centros de reabilitação, nós temos o compromisso do governo federal quanto aos repasses. Mas é importante que se fale da autonomia das redes de saúde, dos municípios, dos estados e do governo federal na garantia desse direito. E o senador Humberto Costa, assim como todos os demais senadores, têm papel fundamental na escuta e na tradução dos anseios das pessoas com autismo e de suas famílias, por meio das legislações.
Mãe de Matheus, que hoje tem 14 anos e aos 2 anos foi diagnosticado com autismo nível 3 de suporte, Flávia considerou significativo o fato de o andamento da proposta no Congresso Nacional ter levado em conta a experiência de quem enfrenta os cenários mais desafiadores no dia a dia: os pais e mães atípicos, especialmente de pessoas com autismo de níveis 2 e 3 de suporte, que demandam mais atenção e cuidados.
— A grande expectativa da comunidade de pessoas com autismo, com a aprovação dessa legislação, é o fortalecimento de toda a rede de atenção, alinhada ao reforço do orçamento, que atualmente é o maior desafio enfrentado não só pelos gestores públicos, mas pela sociedade em geral.
Celeridade
Andrea Bussade, presidente do Instituto Rio TEAma, com sede no Rio de Janeiro, também considerou benéficas as alterações propostas pelos deputados. Mãe de Gabriel, de 26 anos e autista nível 3 de suporte, ela disse esperar que o relatório de Humberto Costa seja aprovado com celeridade pelo Senado e que as ações sejam colocadas em prática na íntegra quanto antes, em todo o território nacional.
— O PLS 169/2018 aprovado e transformado em lei vai mudar totalmente a vida das pessoas com autismo, porque eles não têm tratamento [adequado], as mães estão exaustas, muitas não conseguem deixar seus filhos na escola porque faltam mediadores, não conseguem uma terapia baseada em evidências pelo SUS, além de não existir hoje tratamento para autistas no sistema público.
Para Andréa, a possibilidade de um projeto de origem popular se tornar lei federal estimula outros brasileiros a buscarem o e-Cidadania para sugerir e acompanhar propostas em favor de diversas outras causas sociais.
— Todas as pessoas têm o direito de apoiar qualquer causa, seja do autismo, seja dos animais ou tantas outras. Achei maravilhosa a iniciativa da Irene Jucá, e acho que poderia se tornar uma constante cidadãos realmente engajados transformarem suas ideias em projetos com chances de virarem novas leis — disse Andréa à Agência Senado.
Ações convergentes
Há 20 anos, a data de 21 de setembro tornou-se o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, por meio da Lei 11.133, de 2005. Para celebrar o marco, o Ministério da Saúde divulgou uma linha de cuidados integrada para autistas no âmbito do SUS, que converge diretamente com as ações previstas no PLS 169/2018.
Essa ação anunciada pelo governo orienta a rede pública de saúde a fazer testes de triagem em crianças entre 16 e 30 meses, permitindo a identificação precoce dos sinais do espectro e garantindo que o acompanhamento se inicie quanto antes.
Humberto Costa, que é médico e ex-ministro da Saúde, considerou positiva a nova política.
— Com isso, damos um passo decisivo para que o SUS possa oferecer mais acolhimento, mais segurança e mais qualidade de vida às famílias brasileiras. Essa iniciativa dialoga diretamente com o projeto sob minha relatoria no Senado — analisou o parlamentar.
Entre as ações, o ministério anunciou investimento de R$ 72 milhões para 71 novos serviços da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. Destacam-se, entre os serviços, a habilitação de 23 novos centros especializados em reabilitação (CERs), que oferecem diagnóstico, tratamento e acesso a tecnologias assistivas. Outros 33 CERs passam a contar com um custeio adicional de 20%, reforçando a capacidade de atendimento às pessoas com o transtorno. Também foram habilitados 15 veículos de transporte sanitário adaptado para garantir deslocamento seguro às unidades de saúde.
A diretriz do ministério prevê ainda a utilização do projeto terapêutico singular (PTS), um instrumento que organiza o cuidado a partir da construção de planos individualizados por equipes multiprofissionais em conjunto com familiares. A nova linha de cuidado traz orientações sobre os fluxos de encaminhamento, esclarecendo quando o paciente atendido no centro especializado em reabilitação deve ser encaminhado a outros serviços — como os de saúde mental, caso apresente algum tipo de sofrimento psíquico.
A linha de cuidados implementa um programa de treinamento de habilidades para cuidadores voltado para famílias de crianças com atraso no desenvolvimento ou deficiência, oferecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Espectro autista
O autismo é uma condição neuropsiquiátrica que costuma se manifestar ainda na primeira infância (de zero a 6 anos) e pode comprometer, em graus diversos, o desenvolvimento nas áreas de linguagem, interação social e comportamento. Não há uma causa isolada, podendo resultar da combinação de fatores genéticos e ambientais.
Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que o transtorno do espectro autista afeta cerca de 1% da população mundial, tendo maior incidência sobre pessoas do sexo masculino. Já o IBGE estima que 1,2% da população brasileira viva com TEA. Segundo os dados, 71% dessa população apresenta também outras deficiências.
Avanços no quadro clínico do autista dependem de intervenção terapêutica precoce, que deve ser individualizada e pode se estender por toda a vida do indivíduo. A meta é habilitá-lo a desempenhar atividades cotidianas de modo ativo e independente.
Ideias legislativas
Qualquer pessoa pode enviar ideias legislativas ao Senado. Basta se cadastrar no Portal e-Cidadania, acessar a página Ideia Legislativa e clicar em “Enviar ideia”.
É possível enviar quantas sugestões quiser, desde que não sejam repetidas (veja mais orientações). As ideias ficam abertas por quatro meses para receber apoios da sociedade. As que alcançam 20 mil adesões são encaminhadas à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado e formalizadas como “sugestões legislativas”.
Na comissão, essas propostas são debatidas pelos senadores e recebem um parecer. As aprovadas passam a tramitar como projeto de lei, com as mesmas prerrogativas das propostas de parlamentares.
O Portal e-Cidadania foi criado pelo Senado em 2012 para estimular a participação dos cidadãos no processo legislativo.
Desde a criação do portal, 51 ideias já foram transformadas em projetos de lei, propostas de emenda à Constituição ou indicações (em que o Senado sugere ao Executivo ou ao Judiciário a adoção de providência ou o envio de projeto, quando o assunto for de competência exclusiva desses outros Poderes).
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto
O fim da chamada escala 6×1, com seis dias de trabalho e um de folga por semana, seguirá em discussão no Senado em agosto, após o recesso parlamentar. A expectativa de alguns senadores é de que a PEC 221/2019 seja votada após a volta dos trabalhos.
Além de acabar coma escala 6×1, a proposta reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários.
O texto chegou ao Senado no fim de maio, após aprovação na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, determinou que a proposta passasse pelas comissões.
O presidente do Senado tem se reunido com os setores interessados no tema para discutir a proposta. No início de julho, a reunião foi com as centrais sindicais, que defenderam o avanço na análise do texto. Antes, em maio, ele já havia recebido integrantes dos empregadores, que defenderam a votação da proposta somente após as eleições.
Agosto
Em entrevista na segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que o fim da escala 6×1 é “prioridade absoluta” para o governo e que continuará trabalhando para que a votação ocorra assim que possível.
— Mesmo no período das eleições, o Senado vai funcionar em esforços concentrados e remotamente. Não impede que possamos ainda votar a PEC do fim da escala 6×1 em agosto. Nós vamos, ainda, insistir em avançar sobre essa proposta de emenda à Constituição ainda nesse período.
As semanas de esforço concentrado serão entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro, e devem coincidir com os esforços concentrados na Câmara, conforme anunciado por Davi Alcolumbre na quarta-feira (15).
— O calendário é exatamente o mesmo que será adotado pela Câmara dos Deputados, permitindo que o Congresso Nacional funcione em plenitude e de modo eficiente e harmônico — informou Davi.
Defesa
Em pronunciamentos recentes, o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da proposta, disse ter esperança de que a votação ocorra em agosto. Para ele, o debate sobre a redução da jornada não “pertence” ao governo, à oposição e nem aos partidos políticos, e sim ao povo.
— Tenho muita esperança de que a PEC vai ser votada no mês de agosto, porque, com certeza, o trabalhador brasileiro sabe que não vai nadar, nadar e morrer na beira da praia. Espero que esta Casa compreenda a dimensão histórica dessa decisão — defendeu.
Para Paim, o fim da escala 6×1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir. Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.
Também em defesa do avanço na análise da PEC, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) comparou a jornada dos trabalhadores à dos parlamentares. Ele lembrou que o período de campanha eleitoral começa em agosto e disse que o eleitor precisa cobrar seus representantes.
— Muitos que vão aí pedir voto para você não querem votar o fim da escala 6×1, querem fazer você trabalhar igual a um condenado no 6×1, e nós aqui trabalhando, durante este ano de 2026, o que não vai dar nem um mês de trabalho, do jeito que está aí — criticou.
Eleições
Outros senadores demonstram preocupação com os efeitos da PEC e defendem que a votação fique para depois das eleições. Em sessão temática no início de julho, o líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN), defendeu o amadurecimento do debate e a discussão do tema fora do período eleitoral.
— Não é proibido, não é interditado discutirmos jornada de trabalho. Pelo contrário, é uma discussão que tem que acontecer. Mas por que agora? Por que neste momento? — questionou o senador.
No mesmo debate, o senador Jayme Campos (União-MT) afirmou que votará a favor da PEC, mas defendeu que o debate seja feito com serenidade e que todos os setores sejam ouvidos para que a solução seja equilibrada.
— Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de tempo dedicado à família, ao descanso, à qualificação profissional e, ao mesmo tempo, da competitividade das empresas e da capacidade de gerar empregos. É justamente por isso que este debate exige serenidade, responsabilidade e diálogo — ponderou.
Outras propostas
Também na sessão temática, o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) criticou a falta de estudos de impacto econômico e social da medida durante a análise na Câmara e afirmou que a PEC vai ter consequências negativas na economia. Ele defendeu a aprovação de outra proposta em análise no Senado.
— Defendemos a PEC 12/2026, que permite ao trabalhador negociar uma jornada flexível de acordo com as suas necessidades. Direitos como férias, décimo terceiro e FGTS seguirão de forma proporcional à jornada acordada — garantiu.
A proposta foi apresentada pelo senador Rogerio Marinho logo após a chegada da PEC 221 ao Senado. Pela proposta, seria possível escolher entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. A PEC deixa claro que o contrato individual prevalece sobre possíveis acordos coletivos. Benefícios como FGTS, férias e 13º salário também seriam proporcionais às horas trabalhadas.
Na Câmara, a PEC 221 era analisada junto com outra proposta, a PEC 8/2025, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que previa uma carga máxima de 36 horas em quatro dias de trabalho. O texto foi arquivado.
Outro projeto, o PL 1.838/2026, foi apresentado em abril pelo Executivo. Ele define em 40 horas semanais o limite da jornada normal de trabalho e garantir ao trabalhador dois repousos semanais remunerados de 24 horas consecutivas. Após a aprovação da PEC 221, o governo retirou o pedido de urgência para o projeto, que segue em análise na Câmara.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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