AGRONEGÓCIO
Café do Brasil deve atingir 73,3 milhões de sacas na safra 2026/27, aponta Rabobank
AGRONEGÓCIO
A produção brasileira de café deverá registrar forte recuperação na safra 2026/27, alcançando 73,3 milhões de sacas, segundo levantamento divulgado pelo Rabobank em sua atualização mensal sobre o mercado cafeeiro. O crescimento é puxado principalmente pelo avanço da produção de café arábica, beneficiada pela melhora das condições climáticas nas principais regiões produtoras do país.
De acordo com a análise assinada por Claudio Delposte, a safra brasileira 2026/27 está estimada em 48,7 milhões de sacas de arábica e 24,6 milhões de sacas de conilon. O cenário representa uma recomposição importante da oferta nacional após ciclos marcados por restrições produtivas e impactos climáticos adversos.
Exportações brasileiras de café recuam no primeiro trimestre
Apesar da perspectiva positiva para a produção, as exportações brasileiras seguem em ritmo mais lento. Em março de 2026, o Brasil embarcou 3,04 milhões de sacas de café, volume 7,8% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. Na comparação com fevereiro, no entanto, houve avanço de 15%.
No acumulado do primeiro trimestre, as exportações somaram 8,5 milhões de sacas, representando retração de 21% frente ao mesmo intervalo de 2025. Segundo o Rabobank, a redução reflete a postura mais cautelosa dos produtores brasileiros diante dos elevados diferenciais de preços e da menor competitividade do café nacional no mercado internacional.
Tensões geopolíticas elevam custos e ampliam volatilidade
O relatório destaca que o mercado global do café continua operando sob forte volatilidade, influenciado pelas tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã. Esse ambiente pressiona os preços da energia e dos fertilizantes, aumentando os custos operacionais no campo.
O impacto é especialmente relevante para o Brasil, que importa cerca de 90% dos fertilizantes utilizados na agricultura. O aumento dos custos de produção, colheita e logística também intensifica os riscos cambiais e dificulta a fixação de preços pelos produtores.
Relação de troca do café piora em abril
Outro ponto de atenção destacado pelo Rabobank é a deterioração da relação de troca entre café e fertilizantes. Em abril, foram necessárias 4,97 sacas de café arábica para a compra de uma tonelada do fertilizante blend 20-05-20, contra 4,66 sacas em março.
Na comparação anual, a perda de poder de compra do produtor é ainda mais evidente. Em abril de 2025, bastavam 2,25 sacas de café para adquirir o mesmo volume de fertilizante. O cenário reforça a pressão sobre as margens do cafeicultor brasileiro.
Mercado do café mantém preços historicamente elevados
Os preços do café seguiram voláteis ao longo de março e abril. O café arábica encerrou março com valorização de 3%, sustentado pela oferta restrita e pelos baixos estoques globais. Já o robusta fechou o mês com queda de 9%, influenciado pela realização de lucros no mercado internacional.
Em abril, o arábica acumulou nova alta de 2%, enquanto o robusta registrou recuperação de 3%. Mesmo com comportamento mais defensivo e lateralizado nas últimas semanas, os preços permanecem em níveis historicamente elevados.
Clima favorece colheita, mas déficit hídrico preocupa
No campo climático, abril apresentou redução das chuvas em importantes regiões produtoras de café, favorecendo o avanço da colheita brasileira. Entretanto, o Rabobank alerta para a expectativa de menores volumes de precipitação nos próximos meses e agravamento do déficit hídrico em áreas do cinturão cafeeiro.
O relatório também aponta riscos associados a um possível episódio de El Niño, fator que pode influenciar o desenvolvimento das lavouras e a produtividade futura caso haja intensificação das condições climáticas adversas.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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