AGRONEGÓCIO
Mercado da Soja Oscila Entre Alta Interna, Pressões Externas e Incertezas Comerciais Globais
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Soja se Valoriza no Brasil com Exportações Fortes e Produtores Mais Cautelosos
O mercado interno da soja encerrou a última semana em alta, impulsionado pela firmeza da demanda internacional e pela limitação na oferta nacional. De acordo com dados do Cepea, a melhora dos prêmios de exportação no Brasil aumentou o interesse pelo grão brasileiro, sustentando as cotações nas principais praças produtoras.
No entanto, produtores do Sul têm demonstrado maior cautela nas negociações. A irregularidade das chuvas e as perdas de produtividade em áreas atingidas pela estiagem têm levado a uma postura mais defensiva, segundo o Cepea. Apesar das dificuldades, as precipitações recentes beneficiaram lavouras ainda em desenvolvimento no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o que ameniza parte das preocupações com a safra.
A Conab indica que, até 14 de fevereiro, a colheita nacional atingia 24,7% da área, abaixo dos 25,5% observados no mesmo período do ano anterior. A lentidão no ritmo de colheita e as incertezas sobre a produtividade reforçam a volatilidade do mercado interno.
Preços em Chicago Mantêm Viés Positivo, Mas Resistências Técnicas Limitam Avanços
Nos Estados Unidos, os contratos futuros da soja em Chicago seguem sustentados, mas enfrentam resistências técnicas após a recuperação registrada desde janeiro. A TF Agroeconômica destaca que, apesar da força compradora recente, há sinais de exaustão, podendo ocorrer correções pontuais sem alterar a tendência geral de alta.
O suporte fundamental vem do complexo de óleos e biocombustíveis. O óleo de soja acumulou alta de mais de 3% na semana, amparado pela forte demanda da indústria de biodiesel. Projeções do USDA indicam que o consumo do derivado pode chegar a 7,84 milhões de toneladas na safra 2026/27, aumento de quase 50% sobre o ciclo anterior. O esmagamento de soja nos EUA atingiu recorde em janeiro, enquanto as vendas semanais de farelo cresceram 35%, reforçando o bom momento do setor.
Entretanto, a ampla oferta sul-americana impõe limites. O Brasil já colheu cerca de 33% da área e deve produzir entre 178 e 181 milhões de toneladas, com exportações acumuladas de 4,56 milhões de toneladas no ano. A pressão da colheita brasileira, somada à expectativa de maior área plantada nos EUA em 2026/27, tende a manter o mercado com viés positivo, porém suscetível a oscilações.
Tarifas Americanas e Incerteza com a China Aumentam Volatilidade no Mercado Internacional
O início da nova semana foi marcado por quedas nos contratos da soja em Chicago, influenciadas pelas baixas no farelo e pelas incertezas em torno da política tarifária dos Estados Unidos. Por volta das 7h (horário de Brasília), o contrato de março operava em torno de US$ 11,32 por bushel, recuando mais de 0,3%.
O mercado acompanha de perto as medidas do presidente americano Donald Trump, que, após decisão da Suprema Corte derrubar tarifas anteriores, anunciou novas taxas globais de até 15%. As medidas ampliam a cautela dos investidores quanto ao impacto nas relações comerciais com parceiros-chave, como China e Índia — fundamentais para o fluxo de exportações do complexo soja norte-americano.
No Brasil, analistas acreditam que o cenário pode favorecer os prêmios de exportação nos portos nacionais, impulsionando a competitividade do produto brasileiro. Ainda assim, a pressão da colheita e o ritmo das vendas externas devem manter a dinâmica de preços bastante volátil.
Encerramento da Semana com Leve Queda e Realização de Lucros
Apesar da forte movimentação ao longo da semana, o mercado encerrou a sexta-feira com leves perdas em Chicago. O contrato de março recuou 0,31%, fechando a 1.137,50 cents por bushel, enquanto o vencimento de maio caiu 0,24%. No entanto, o farelo registrou alta de 1,64%, e o óleo de soja cedeu 1,27%.
A TF Agroeconômica destaca que a queda reflete ajustes técnicos e cautela quanto à demanda chinesa, além da influência sazonal da colheita brasileira. Mesmo com o recuo pontual, a soja acumulou pequena valorização semanal de 0,02%. O relatório do USDA mostrou vendas externas dentro das expectativas, mas ainda 18,6% abaixo do volume do ano anterior, o que reforça o sentimento de precaução no curto praz
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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