AGRONEGÓCIO
Soja deve registrar menor expansão de área em 20 anos, enquanto colheita do milho avança no Centro-Sul
AGRONEGÓCIO
O agronegócio brasileiro inicia o planejamento da próxima safra de soja em um cenário de maior cautela financeira, ao mesmo tempo em que acompanha o avanço da colheita da segunda safra de milho. Levantamentos divulgados pela AgRural apontam que a área destinada à soja seguirá crescendo em 2026/27, mas no menor ritmo das últimas duas décadas, enquanto a colheita da safrinha de milho enfrenta desafios relacionados à elevada umidade dos grãos.
Área de soja deve crescer menos de 1% na safra 2026/27
A primeira estimativa de intenção de plantio da AgRural indica que a soja deverá ocupar 49,006 milhões de hectares na safra 2026/27, que será semeada entre setembro e dezembro deste ano.
Caso a projeção se confirme, haverá um acréscimo de 443 mil hectares em relação à temporada anterior, estabelecendo um novo recorde nacional de área cultivada com a oleaginosa.
Apesar do resultado histórico, o crescimento previsto é de apenas 0,9%, o menor registrado desde o início da sequência de expansões anuais da cultura. O aumento também marcará o vigésimo ano consecutivo de ampliação da área plantada com soja no Brasil.
Segundo a AgRural, diversos fatores têm reduzido o apetite dos produtores por novos investimentos. Entre eles estão os custos de produção mais elevados, preços da soja relativamente estáveis, aumento do endividamento rural e condições mais restritivas de acesso ao crédito.
Outro fator que contribui para a cautela é a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño durante o ciclo produtivo, o que pode provocar atrasos no plantio e impactos na produtividade em importantes regiões produtoras do país.
Colheita da safrinha de milho ganha ritmo
Enquanto os produtores planejam a próxima temporada de soja, a colheita da segunda safra de milho segue avançando no Centro-Sul do Brasil.
De acordo com o levantamento da AgRural, até a última quinta-feira (18), os trabalhos haviam alcançado 16% da área cultivada, avanço significativo em comparação aos 8% registrados na semana anterior. No mesmo período do ano passado, a colheita atingia 13% da área.
O destaque continua sendo Mato Grosso, que mantém ampla liderança no ritmo de retirada das lavouras. O estado segue à frente dos demais produtores do Centro-Sul, onde as chuvas frequentes e as temperaturas mais baixas vêm retardando a perda natural de umidade dos grãos e limitando o avanço das colheitadeiras.
Umidade elevada gera desafios logísticos
Mesmo apresentando o melhor desempenho na colheita, Mato Grosso também enfrenta dificuldades relacionadas à qualidade do cereal colhido.
A elevada umidade dos grãos tem exigido maior capacidade de secagem e provocado lentidão no recebimento da produção por parte dos armazéns e unidades de armazenamento localizadas nas regiões onde os trabalhos estão mais avançados.
O cenário exige atenção dos produtores e das empresas de armazenagem, já que a necessidade de secagem aumenta os custos operacionais e pode impactar o fluxo de comercialização do cereal nas próximas semanas.
Mercado acompanha clima e custos para a próxima safra
Os números divulgados pela AgRural reforçam que o setor agrícola brasileiro atravessa um momento de transição entre a conclusão da safra atual e o planejamento da próxima temporada.
Enquanto o milho depende da melhora das condições climáticas para acelerar a colheita, a soja entra em um novo ciclo marcada por desafios financeiros e pela necessidade de gestão mais rigorosa dos custos de produção, fatores que deverão influenciar as decisões dos produtores nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor
Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.
A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.
Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.
Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.
“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.
Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.
A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.
A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.
“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.
A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.
Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.
As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.
Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.
Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.
Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.
Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.
“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.
Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.
No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.
A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.
A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.
O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.
Fonte: Pensar Agro
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