POLÍTICA NACIONAL
Igualdade de gênero ainda enfrenta desafios nas Américas, aponta encontro
POLÍTICA NACIONAL
A igualdade de gênero ainda tem muito a avançar, especialmente em um momento de agravamento de tensões geopolíticas e retrocessos democráticos. Essa é a visão de participantes do 17º Encontro da Rede Parlamentar para a Igualdade de Gênero do ParlAmericas Pequim +30: Promovendo a equidade em um mundo em transformação.
O evento, organizado pelo ParlAmericas em parceria com o Senado brasileiro, marca os 30 anos da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, adotada em 1995 pela Organização das Nações Unidas (ONU) após a quarta Conferência Mundial sobre as Mulheres. A declaração foi subscrita por 189 países. Do encontro, que se encerra nesta sexta-feira (26), sairá uma declaração conjunta dos países participantes.
O evento começou na manhã de quinta-feira (25), com o tema “Pequim +30: promovendo a equidade em um mundo em transformação”. O encontro reuniu especialistas e parlamentares de 22 países, além do Brasil, para traçar estratégias de equidade e de proteção e promoção dos direitos das mulheres.
Durante a abertura, a vice-presidente para a América do Norte da rede parlamentar, deputada Stephanie Kusie, do Canadá, afirmou que o encontro acontece em um momento decisivo para a igualdade de gênero nas Américas. De acordo com a parlamentar, embora indivíduos de diferentes gêneros sofram com as desigualdades, é inegável a persistência de lacunas significativas para mulheres e meninas.
— A revisão global de progresso das mulheres, publicada este ano, intitulada Women’s rights in review 30 years after Beijing [Direitos das mulheres em revisão 30 anos após Pequim] destaca que a proporção de mulheres nos parlamentos mais que dobrou desde 1995, mas ainda permanece em 27% — alertou a deputada.
Ela também afirmou que as mulheres ainda realizam 2,5 vezes mais trabalho de cuidado não remunerado do que os homens, e os homens entre 25 e 54 anos estão representados na força de trabalho em 92%, em comparação com 63% das mulheres na mesma faixa etária. Além disso, em média, uma em cada três mulheres é submetida à violência física ou sexual em sua vida.
Para a líder da bancada feminina do Senado, senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO), é preciso celebrar as conquistas, mas também encontrar novas soluções. O encontro, na sua avaliação, pode ajudar a construir esses novos caminhos.
— Avanços significativos foram conquistados ao longo desse período. No entanto, não foram simétricos, nem sincronizados. Algumas nações simplesmente foram ágeis, mais bem sucedidas do que outras. Em alguns países, é possível falar de paridade na representação política. Em outros países, continuamos na nossa luta permanente, a construção de cotas e políticas de afirmação e de garantia de espaço político — disse Dorinha.
O presidente do ParlAmericas, senador Iván Flores, do Chile, afirmou que a conjuntura atual é de graves retrocessos democráticos, crescentes tensões geopolíticas no continente e de persistentes desigualdades sociais. Para ele, a exacerbação de diferentes formas de violência contra mulheres que exercem liderança pública e também política não é algo isolado, mas um sinal de dinâmicas que colocam em risco consensos democráticos e direitos fundamentais.
— Não se pode relativizar os direitos fundamentais sob nenhuma circunstância, em nenhuma parte deste planeta. Temos que trabalhar por isso. Discutir a igualdade de gênero não é um tema acessório nem setorial, e muito menos é uma agenda exclusiva das mulheres. É um direito humano fundamental e constitui o pilar sob o qual devemos construir sociedades mais prósperas, estáveis e inclusivas — defendeu.
Paineis
A programação do evento contou com sessões e painéis ao longo dos dois dias de evento.
Na sessão sobre iniciativas parlamentares, na quinta-feira (25), participantes lembraram que os progressos não podem ser dados como certos. As palestrantes compartilharam experiências legislativas para promover a participação política das mulheres, incluindo leis de cotas e paridade, e falaram sobre a necessidade de transformar a cultura política. Também foram apresentadas boas práticas sobre cuidados e planos nacionais de gênero construídos em colaboração com organizações da sociedade civil.
Nos grupos de trabalho, parlamentares, especialistas e jovens lideranças compartilharam estratégias para fortalecer o papel dos parlamentos na igualdade de gênero. As discussões foram sobre como construir consensos na diversidade, gerar vontade política, promover narrativas públicas inclusivas e reforçar a infraestrutura parlamentar para criar condições de equidade.
Também foram discutidos nas sessões e grupos de trabalho dados, ferramentas e estratégias para eliminar as disparidades de gênero nas Américas e no Caribe; tecnologia; solidariedade e sororidade e recursos para o trabalho legislativo sobre equidade de gênero.
Os novos recursos do ParlAmericas para promover a igualdade de gênero foram apresentados nesta sexta-feira pela deputada Brenda Ogando Campos, da República Dominicana. O primeiro é um guia para organizações femininas sobre atuação legislativa. O segundo é uma ferramenta de perspectiva intergeracional para avaliar os impactos de longo prazo das políticas atuais nas gerações futuras.
— Podemos aplicar uma perspectiva intergeracional no trabalho parlamentar tanto por ser uma responsabilidade democrática como por ser uma necessidade muito prática, já que as leis e a alocação de recursos configuram a estrutura social muito além de mandatos parlamentares específicos. A partir daí, poderíamos evitar a miopia política e assim reduzir o risco de danos a longo prazo, fortalecer a legitimidade democrática e a confiança pública — disse a parlamentar.
Prévia
Na quarta-feira (24), precedendo o evento oficial, jovens líderes mulheres se encontraram para debater a “Liderança em Ação pela Equidade de Gênero e Raça”. A iniciativa é parte do programa Impacto Legislativo Jovem – Brasil e busca fortalecer a juventude na construção de uma democracia mais inclusiva, aberta e representativa.
A deputada Carolina Delgado, da Costa Rica, integrante do Conselho do ParlAmericas, abriu o debate na quarta-feira. Para Carolina, a ocupação feminina em espaços de poder tem apresentado ganhos concretos, mas, no ritmo atual, ainda faltariam 100 anos para as mulheres alcançarem a paridade de gênero na participação política, o que reforça a importância do fórum como espaço para troca de experiências.
— As realidades são as mesmas em todos os países; as necessidades e problemas são os mesmos. Se algo funciona aqui, pode ser que, com ajuste, funcione em outro lugar. Por isso, uma organização como o ParlAmericas pode recorrer a experiências de diversos países — disse a deputada.
ParlAmericas
Com sede no Canadá, o ParlAmericas é composto por 35 países das Américas do Norte, Central e do Sul e do Caribe. A instituição promove a diplomacia parlamentar no sistema interamericano e tem como finalidade facilitar o intercâmbio das boas práticas parlamentares, ampliando o diálogo político cooperativo.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto
O fim da chamada escala 6×1, com seis dias de trabalho e um de folga por semana, seguirá em discussão no Senado em agosto, após o recesso parlamentar. A expectativa de alguns senadores é de que a PEC 221/2019 seja votada após a volta dos trabalhos.
Além de acabar coma escala 6×1, a proposta reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários.
O texto chegou ao Senado no fim de maio, após aprovação na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, determinou que a proposta passasse pelas comissões.
O presidente do Senado tem se reunido com os setores interessados no tema para discutir a proposta. No início de julho, a reunião foi com as centrais sindicais, que defenderam o avanço na análise do texto. Antes, em maio, ele já havia recebido integrantes dos empregadores, que defenderam a votação da proposta somente após as eleições.
Agosto
Em entrevista na segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que o fim da escala 6×1 é “prioridade absoluta” para o governo e que continuará trabalhando para que a votação ocorra assim que possível.
— Mesmo no período das eleições, o Senado vai funcionar em esforços concentrados e remotamente. Não impede que possamos ainda votar a PEC do fim da escala 6×1 em agosto. Nós vamos, ainda, insistir em avançar sobre essa proposta de emenda à Constituição ainda nesse período.
As semanas de esforço concentrado serão entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro, e devem coincidir com os esforços concentrados na Câmara, conforme anunciado por Davi Alcolumbre na quarta-feira (15).
— O calendário é exatamente o mesmo que será adotado pela Câmara dos Deputados, permitindo que o Congresso Nacional funcione em plenitude e de modo eficiente e harmônico — informou Davi.
Defesa
Em pronunciamentos recentes, o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da proposta, disse ter esperança de que a votação ocorra em agosto. Para ele, o debate sobre a redução da jornada não “pertence” ao governo, à oposição e nem aos partidos políticos, e sim ao povo.
— Tenho muita esperança de que a PEC vai ser votada no mês de agosto, porque, com certeza, o trabalhador brasileiro sabe que não vai nadar, nadar e morrer na beira da praia. Espero que esta Casa compreenda a dimensão histórica dessa decisão — defendeu.
Para Paim, o fim da escala 6×1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir. Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.
Também em defesa do avanço na análise da PEC, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) comparou a jornada dos trabalhadores à dos parlamentares. Ele lembrou que o período de campanha eleitoral começa em agosto e disse que o eleitor precisa cobrar seus representantes.
— Muitos que vão aí pedir voto para você não querem votar o fim da escala 6×1, querem fazer você trabalhar igual a um condenado no 6×1, e nós aqui trabalhando, durante este ano de 2026, o que não vai dar nem um mês de trabalho, do jeito que está aí — criticou.
Eleições
Outros senadores demonstram preocupação com os efeitos da PEC e defendem que a votação fique para depois das eleições. Em sessão temática no início de julho, o líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN), defendeu o amadurecimento do debate e a discussão do tema fora do período eleitoral.
— Não é proibido, não é interditado discutirmos jornada de trabalho. Pelo contrário, é uma discussão que tem que acontecer. Mas por que agora? Por que neste momento? — questionou o senador.
No mesmo debate, o senador Jayme Campos (União-MT) afirmou que votará a favor da PEC, mas defendeu que o debate seja feito com serenidade e que todos os setores sejam ouvidos para que a solução seja equilibrada.
— Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de tempo dedicado à família, ao descanso, à qualificação profissional e, ao mesmo tempo, da competitividade das empresas e da capacidade de gerar empregos. É justamente por isso que este debate exige serenidade, responsabilidade e diálogo — ponderou.
Outras propostas
Também na sessão temática, o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) criticou a falta de estudos de impacto econômico e social da medida durante a análise na Câmara e afirmou que a PEC vai ter consequências negativas na economia. Ele defendeu a aprovação de outra proposta em análise no Senado.
— Defendemos a PEC 12/2026, que permite ao trabalhador negociar uma jornada flexível de acordo com as suas necessidades. Direitos como férias, décimo terceiro e FGTS seguirão de forma proporcional à jornada acordada — garantiu.
A proposta foi apresentada pelo senador Rogerio Marinho logo após a chegada da PEC 221 ao Senado. Pela proposta, seria possível escolher entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. A PEC deixa claro que o contrato individual prevalece sobre possíveis acordos coletivos. Benefícios como FGTS, férias e 13º salário também seriam proporcionais às horas trabalhadas.
Na Câmara, a PEC 221 era analisada junto com outra proposta, a PEC 8/2025, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que previa uma carga máxima de 36 horas em quatro dias de trabalho. O texto foi arquivado.
Outro projeto, o PL 1.838/2026, foi apresentado em abril pelo Executivo. Ele define em 40 horas semanais o limite da jornada normal de trabalho e garantir ao trabalhador dois repousos semanais remunerados de 24 horas consecutivas. Após a aprovação da PEC 221, o governo retirou o pedido de urgência para o projeto, que segue em análise na Câmara.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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