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Em Epitaciolândia, 64 histórias de amor reforçam seus laços no casamento coletivo do Projeto Cidadão

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Cerimônia marcada por emoção, inclusão e pioneirismo reuniu famílias, parceiros e sonhos realizados em um momento festivo para o município

O município de Epitaciolândia viveu uma manhã que ficará guardada na memória de dezenas de famílias. Além do aniversário de emancipação de 37 anos, o casamento coletivo promovido pelo Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) nesta terça-feira, 28, dentro da programação do Projeto Cidadão, reuniu 64 casais que disseram um alto e sonoro “SIM” diante de familiares, amigos e de uma rede de instituições parceiras que tornaram possível a realização desse sonho.

A cerimônia teve um significado ainda mais especial por marcar um momento novo: foi conduzida por Janávila Araújo, juíza de paz eleita, que se tornou a primeira mulher a celebrar um casamento coletivo no município. Em meio a uma decoração preparada com cuidado, bolo, espaços para fotos e um ambiente pensado para acolher com direito a entrada por tapete vermelho e música ao vivo, o evento foi além de um ato formal, transformou-se em uma verdadeira celebração da vida em comunidade.

Ao longo da cerimônia, o desembargador Samoel Evangelista, coordenador do Projeto Cidadão, reforçou o propósito da iniciativa, que há 30 anos busca aproximar o poder público da população. Em sua fala, destacou que o projeto nasce da necessidade de levar serviços essenciais até onde o cidadão está, rompendo barreiras burocráticas e tornando o acesso mais humano e direto. Ele também ressaltou a importância do casamento coletivo como instrumento de cidadania, ao garantir direitos e facilitar um processo que, historicamente, foi distante para muitos.

Como de costume, o desembargador também trouxe uma mensagem firme e necessária: a valorização de relações baseadas no respeito, na paz e na convivência saudável, com um posicionamento claro contra a violência doméstica. O casamento, nesse contexto, foi apresentado não apenas como união legal, mas como compromisso de cuidado mútuo.

Entre os 64 casais presentes, histórias diversas se encontravam, todas atravessadas por sentimentos semelhantes: esperança, perseverança e amor.

História que atravessa jornadas 

Foi assim com Isabel Cristina da Silva, agora Rodrigues, e Lídio Rodrigues. O que começou de forma simples, com encontros nas rodas comunitárias, foi se transformando ao longo de cinco anos em uma relação sólida. “A gente sempre se via”, lembra Isabel. “Eu tava solteira, soube que ele tava solteiro também. Começamos a nos encontrar e foi ficando um sentimento bom entre a gente”, conta um pouco tímida. 

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Para Lídio, não há dúvidas ao olhar para trás: “Foram muito bons esses cinco anos”. E o tempo só fortaleceu o que sentiam. Já com quase seis anos de união se aproximando — “dia 30 de dezembro faz seis anos”, conta ele — o casal decidiu que era hora de dar um novo passo. “Vamos aproveitar, hoje é o dia”, disseram, transformando o desejo antigo em realidade.

O casamento, celebrado durante o Projeto Cidadão, representa mais do que uma formalidade, mas a concretização de um sonho guardado por Isabel. “Sempre eu dizia pra ele ‘vamos nos casar’. E ele respondia ‘quando tiver uma oportunidade, a gente casa’”, recorda, emocionada. E essa oportunidade chegou de forma inesperada com a ação do TJAC, trazendo consigo a chance de oficializar o amor sem custos. “Graças a Deus, hoje está sendo concluído”, afirma.

Entre sorrisos e olhares cheios de significado que apenas quem tem já uma bagagem de vivências é capaz de dar, o mesmo sentimento é compartilhado pelos dois: alegria e a certeza de um futuro juntos. “É uma união que está dando certo. Daqui pra frente é só alegria”, diz Lídio. Isabel concorda, com brilho nos olhos: “A gente espera a partir de agora muito mais felicidade”.

Decididos e comprometidos

Também entre os noivos, o casal mais jovem da cerimônia, Eudes Souza Almeida e Ana Clara da Silva Chaves, emocionaram pela simplicidade e pela força do sentimento, algo possível de observar na maneira afetuosa em que Eudes segurava o braço da amada durante toda a cerimônia, além do intenso beijo do sim quando chegou a hora. 

Após três anos de relacionamento e já com um filho pequeno, eles revelam a intensidade de um amor jovem e vibrante. “A gente já queria casar há bastante tempo”, conta Eudes, com a tranquilidade de quem vê um desejo antigo finalmente se concretizar. Para ele, a cerimônia representa a confirmação de algo que já existia: o amor construído no dia a dia.

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Para Ana Clara, no entanto, o momento carrega um significado ainda mais profundo. “É um sonho”, resume, emocionada. O casamento, segundo ela, vai além de uma formalidade, é a realização de um desejo que agora se torna possível. “Hoje, com essa oportunidade que apareceu, a gente está realizando o sonho da gente”, diz, reforçando que a união já vinha sendo construída com bases sólidas.

Já Leonardo Clementino e Tamires da Silva representam aquelas histórias que crescem com o tempo. Colegas de escola no passado, quase não se conheceram direito nos corredores onde estudavam. Foi só anos depois que a convivência aproximou os dois, dando início a um relacionamento marcado por desafios e superações. 

“Teve altos e baixos, mas o que prevaleceu foi o amor”, resume Leonardo. Após quatro anos juntos, o casamento simboliza a consolidação de tudo o que viveram, uma união construída com paciência, amadurecimento e afeto. Com uma criança a caminho, a celebração do amor dos dois ganha novos capítulos que ficarão além da certidão de casamento. 

Sem amigos, sem ação 

Histórias diferentes, trajetórias únicas, mas um mesmo sentimento compartilhado por todos os casais presentes: a felicidade de transformar sonhos em realidade. Em meio a abraços, lágrimas e celebrações, o casamento coletivo do Projeto Cidadão reafirmou seu papel de aproximar direitos, fortalecer vínculos e mostrar que, quando o poder público se faz presente de forma sensível, ele também se torna parte das histórias que ajudam a construir.

A ação desenvolvida pelo TJAC com a dedicação de diversos de seus servidores envolvidos diretamente contou com o apoio de parceiros fundamentais, como o cartório do município, a Associação de Pastores e a Prefeitura de Epitaciolândia, além da participação do Rotary Club, que realizou a doação de duas cadeiras de rodas durante o evento, um gesto nobre que reforça o caráter solidário e abrangente do Projeto Cidadão.

Fotos: Gleilson Miranda/Secom TJAC

Fonte: Tribunal de Justiça – AC

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Chaveiro consegue na Justiça remédio para lúpus e alcança remissão da doença

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Entre diagnósticos errados, dívidas e o medo da morte, a história de Saulo Negreiros revela a força da união familiar e a importância de lutar pelo direito à saúde

Saulo Negreiros, de 67 anos, nasceu no Seringal Silêncio, em Boca do Acre. Trabalha há 30 anos como chaveiro em Rio Branco. Seu empreendimento, o Universo das Chaves, fica no Mercado do Bosque, onde divide a rotina com os filhos, e é a principal fonte de renda da família. Contudo, em 2018, apareceram os primeiros sintomas de uma doença que afetaria toda a sua vida. Desde então, iniciou-se uma longa jornada até alcançar o diagnóstico de lúpus e, a partir daí, a busca por um tratamento adequado que o permitisse continuar entregando, todos os dias, o sorriso fácil que lhe é característico.

“Descobri a doença na minha própria pele, através dos roxos. Minha perna, atrás [nas costas], o pescoço, problema na língua, e eu não sabia o que era. Então procurei um clínico geral. Ele achou que era alergia e o remédio que ele passou não serviu para nada! Ele não me passou nem exame! Ele culpou o cigarro, porque eu fumava muito. Culpou a covid. Ele falou tudo, menos o que realmente era. Aí nem voltei mais nesse médico” — essa foi a primeira tentativa.

A segunda consulta também foi com um clínico geral: “Mas pelo menos esse passou exame. Fiz todos os exames que você pensar que existe. Nesse período apareceu o inchaço de uma glândula debaixo do braço. Então, tinha que investigar. Não doía, mas tava inflamado. Aí disseram que era tuberculose”.

O paciente discordou do segundo diagnóstico. “Eu pensava: como era uma tuberculose, se eu não sentia nada? Não tinha nem tosse. Mas o tratamento, esse sim foi me matando devagarzinho. Todo dia eu morria um pouco. Voltei no médico e disse que ia parar de tomar essa medicação, porque estava me matando. Mas ele disse que se eu parasse, era pior, que aí teria que começar o tratamento de novo”.

Não houve sinal de melhora. “Comecei a inchar mais. Essa minha perna direita começou a inchar, escureceu mais e meu coração parecia que estava batendo numa lata d’água. Fui ficando sem oxigênio. Um novo exame mostrou que eu estava com água na pleura [derrame pleural — acúmulo excessivo de líquido entre as membranes que envolvem os pulmões e a parede do tórax] e pressão no pulmão. Não conseguia nem andar direito, não conseguia subir um degrau, nenhum esforço. Eu estava morrendo”, descreveu.

Nesse momento, precisou ir ao cardiologista. “Ele foi muito sincero comigo e disse: ‘Do seu coração, eu cuido. Você faz esse exame aqui para mim, que eu vou cuidar. Mas o resto que você tem aí, você precisa ver com outro tipo de médico. Aí, nessa altura, além da água na pleura e da pressão no pulmão, já tinha uma lesão no coração”, resumiu.

Mais duas intervenções ainda fizeram parte dessa etapa de incertezas. Posteriormente, outro profissional concluiu que ele tinha câncer, por isso as glândulas estariam crescendo. Com esse procedimento, foi removido o conteúdo do inchaço que estava embaixo do braço e foram adicionadas outras medicações. Porém, os corticoides prescritos afetaram a diabetes e novas complicações surgiram.

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Em 2022, já acumulando anos de sofrimentos, o idoso foi ao hospital e a médica pediu uma biopsia dos rins. O material foi analisado por um laboratório de Belo Horizonte. “Eu tava numa situação feia, feia mesma. Foi aí que eu tive o diagnóstico de que estava com alto grau do lúpus. Tava pra ir pra hemodiálise, meu rins estavam falindo já. Não sentia nenhuma dor, mas foi preciso me internar”.

Andrey, filho de Saulo, afirma que essa foi uma das fases mais difíceis. “Ele estava tão debilitado que falava todo dia que estava morrendo e foram palavras que me marcaram muito”.  Ao mostrar fotos, o filho ilustra o quanto o pai tinha emagrecido, perdido os cabelos e as dificuldades em se locomover.

Com emoção nos olhos, Andrey relembra as dificuldades: “A doença abalou tudo. Tanto a parte financeira, quanto a parte física e mental, porque são várias coisas que não pode fazer. A família toda estava preocupada, a gente fazia tudo o que podia. Tivemos que moldar a rotina, a casa, o trabalho e o cuidado para lutar pela vida do meu pai”.

Contudo, ao narrar os episódios, sua explicação é: “Demorou para ter o diagnóstico correto e iniciar o tratamento, por quê? Porque o lúpus é uma doença rara no homem, sendo mais frequente em mulheres. Então, todos os médicos não cogitaram o lúpus. Aí foi a visão de uma outra médica em questionar e pensar – por que não pode ser lúpus? Já que tudo indica que é lúpus”.

Lúpus é considerado uma doença rara em homens; cerca de 90% dos casos ocorrem em mulheres.

A incidência é de aproximadamente um homem para cada 10 casos femininos.

A conversa com o pai e filho foi registrada em vídeo e foi publicada na rede social: Assista aqui.

Uso off-label

O lúpus eritematoso sistêmico é uma enfermidade crônica, autoimune e multissistêmica. Ela causa inflamação do tecido conjuntivo e as manifestações clínicas são variáveis e progressivas, sendo a doença potencialmente fatal se não tratada. O laudo apontou ainda acometimento renal, nefrite grau IV, glomerulonefrite proliferativa e artralgia com dor à palpação nas mãos e no quadril, responsável pela limitação dos movimentos.

Os exames foram apresentados a uma nova médica, a reumatologista Adriana Marinho, responsável por prescrever o Rituximabe e encerrar uma odisseia de medo. “A primeira dose custou R$ 9 mil, na época. Esse é o preço de cada ampola e são necessárias quatro doses para completar um ciclo, que deveria ser repetido a cada seis meses. A partir daí, a gente começou a se endividar”, contou o filho.

A situação era urgente. “Mas desde a primeira dose, já senti um alívio. Com dois meses, a melhora foi visível. As manchas foram sumindo, foi desinchando. Tirou-me o cansaço. Eu me senti muito bem. O remédio me deu uma nova vida”, testemunhou Saulo.

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Com um novo fôlego de esperança, a família perseverou no propósito de restaurar a saúde de Saulo. “A gente começou a ir atrás, porque, por mais que a gente trabalhasse, não dava para sustentar o tratamento. Haja empréstimo, haja vender as coisas de casa… e era a vida dele! Foi quando a gente foi à Defensoria Pública”, explicou o filho.

Inicialmente, o fornecimento do remédio foi negado pela Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), porque se trata de um fármaco não integrante das diretrizes terapêuticas da doença. Portanto, a indicação do Rituximabe para o tratamento de lúpus é chamada de off-label: o uso de um medicamento para uma finalidade diferente da que está aprovada na bula da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O que, nas palavras do paciente, significa: “O remédio não é específico para lúpus, ele é prescrito para câncer. O Estado tem essa medicação, mas para mim não dava”. 

Dose de vida

Após cinco meses, veio a decisão judicial. Saulo conseguiu o tratamento na Justiça. O mandado de segurança foi julgado pelo Tribunal Pleno Jurisdicional do Tribunal de Justiça do Acre (TJAC), e a ordem foi concedida por unanimidade pelos desembargadores. “De seis em seis meses, o Estado me fornece. O tratamento tem sido um sucesso. Isso é uma dose de vida, foi o melhor remédio que já existiu para mim. Já são três anos [de tratamento] e ele me dá uma sobrevida muito grande, me tirou todas as dores das articulações. Inclusive, no ciclo passado, a médica falou que a doença estava entrando em remissão”, comemora.

Essa vitória é recente. A remissão é a fase em que os sinais e sintomas diminuem muito ou somem dos exames após o tratamento.  “Mas eu sei que lúpus não tem cura. Então, o remédio é um paliativo, só serve para me dar uma vida melhor. Tenho consciência que não vai ter cura. Mas estou vivo para contar essa história e falar o que está na Constituição: a saúde é direito de todos”, conclui satisfeito. Com efeito, a trajetória de luta fez Saulo se empoderar dos direitos fundamentais e aplicação da lei salvou sua vida.

Hoje foi mais um dia de usufruir do direito garantido: Andrey enviou fotos do pai fazendo a infusão, procedimento que dura cerca de três horas. “Foi uma luta conseguir o remédio, juntar documentação, correr atrás de tudo. Mas hoje todo o tratamento é pelo SUS. Isso foi um fator fundamental para a sobrevida do meu pai. Se ele tá aqui, se ele tá melhor, se ele tá andando, se ele tá conversando, se ele tá aproveitando a vida dele, toda essa superação é por conta do SUS, por isso é muito importante procurar os direitos, porque a Justiça funciona”, agradece.

Mandado de Segurança Cível n.º 1000911-54.2024.8.01.0000

Fotos: Elisson Magalhães/Secom TJAC

Fonte: Tribunal de Justiça – AC

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