AGRONEGÓCIO
Canola avança no Brasil e se consolida como alternativa estratégica de renda no campo
AGRONEGÓCIO
O cultivo de canola tem ganhado destaque no Brasil e se consolidado como uma alternativa promissora para diversificação de renda e fortalecimento dos sistemas produtivos. Tradicional em países de clima temperado, a cultura avança principalmente na região Sul, onde encontra condições ideais e se encaixa na janela de inverno após a colheita de soja e milho.
Atualmente, cerca de 90% da área plantada está concentrada no Rio Grande do Sul, estado com forte tradição em culturas de inverno. A semeadura ocorre, em geral, entre março e maio, ampliando as opções produtivas do agricultor.
Canola contribui para rotação de culturas e melhoria do solo
Além do potencial econômico, a canola tem se destacado pelos benefícios agronômicos. De acordo com o engenheiro agrônomo José Geraldo Mendes, a cultura exerce papel importante na rotação.
Segundo o especialista, o cultivo ajuda a quebrar ciclos de pragas, doenças e plantas daninhas, além de contribuir para a melhoria da estrutura do solo, agregando valor ao sistema produtivo.
Área plantada cresce e produção deve avançar em 2026
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento indicam forte expansão da cultura nos últimos anos. Em 2025, a canola ocupou 211,8 mil hectares no Brasil, crescimento de 43% em relação a 2024, quando a área foi de 147,9 mil hectares.
Desse total, 209,9 mil hectares estão no Rio Grande do Sul, enquanto o restante se concentra no Paraná.
Para 2026, a estimativa é de produção nacional em torno de 300 mil toneladas, avanço de 58% frente às cerca de 195 mil toneladas colhidas no ano anterior. A projeção é que a área cultivada ultrapasse 300 mil hectares.
Além do Sul, novas iniciativas começam a surgir em regiões como o entorno de Brasília, que apresenta condições favoráveis de clima, solo e altitude para o desenvolvimento da cultura.
Demanda global impulsiona mercado da canola
O avanço da canola também está diretamente ligado ao aquecimento do mercado. O óleo extraído da oleaginosa é amplamente utilizado na alimentação humana e reconhecido por suas propriedades nutricionais.
Já o farelo, subproduto do processamento, é utilizado como fonte proteica na alimentação animal, especialmente para bovinos, equinos e pets.
Outro fator relevante é o crescimento dos biocombustíveis. O óleo de canola é utilizado na produção de biodiesel e vem ganhando espaço em estudos para o desenvolvimento de combustível sustentável de aviação (SAF), considerado estratégico para a redução de emissões no setor aéreo.
Esse cenário tende a ampliar a liquidez do mercado e incentivar novos investimentos por parte dos produtores.
Fortalecimento da cadeia é essencial para expansão
Apesar do potencial, o crescimento da cultura depende do fortalecimento da cadeia produtiva. O alinhamento entre produtores, empresas de sementes, indústria e compradores é apontado como fator decisivo para consolidar o mercado.
Também é fundamental ampliar o conhecimento técnico sobre o cultivo e intensificar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, garantindo produtividade e estabilidade ao sistema.
Genética e tropicalização ampliam adaptação da cultura
O acesso a sementes de qualidade e tecnologias adequadas é outro ponto-chave para o avanço da canola no Brasil. Nesse contexto, empresas como a Advanta Seeds vêm investindo em genética e adaptação da cultura às condições locais.
A empresa atua no desenvolvimento de híbridos de alto potencial produtivo e participa de iniciativas voltadas à chamada tropicalização da canola, com foco na expansão do cultivo para áreas do Cerrado.
Atualmente, já existem materiais genéticos adaptados ao país, muitos oriundos de programas de melhoramento da Austrália. Além disso, a produção de sementes no Brasil representa um avanço importante para o setor.
A expectativa é que, no futuro, o país se torne um polo produtor e exportador de sementes de canola, atendendo mercados como Paraguai, Uruguai, Argentina, África do Sul e Cazaquistão.
Canola ganha protagonismo no agronegócio brasileiro
Com crescimento consistente, demanda aquecida e avanços tecnológicos, a canola se firma como uma cultura estratégica no Brasil.
A combinação entre diversificação produtiva, ganhos agronômicos e oportunidades de mercado coloca a oleaginosa em posição de destaque no cenário agrícola nacional, com perspectivas positivas de expansão nos próximos anos.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
AGRONEGÓCIO
Brasil pode unificar rastreabilidade para blindar soja e carne à China e à União Europeia
A integração dos sistemas utilizados para comprovar a origem da soja e da carne bovina pode reduzir custos, evitar auditorias repetidas e fortalecer o acesso dos produtos brasileiros aos mercados da China e da União Europeia. A proposta consta de um estudo divulgado pelo WRI Brasil, que identificou 21 iniciativas públicas e privadas de rastreabilidade e controle ambiental em funcionamento no País, mas com critérios, bancos de dados e formas de verificação diferentes.
O WRI Brasil não é um órgão público nem representa produtores ou empresas do agronegócio. Trata-se de uma associação privada sem fins lucrativos e de pesquisa ambiental, integrante do World Resources Institute, organização internacional fundada nos Estados Unidos em 1982. A instituição atua em mais de 50 países e desenvolve estudos sobre clima, florestas, cidades, alimentos e uso da terra, em parceria com governos, empresas, universidades e organizações da sociedade civil.
Por isso, o protocolo sugerido pelo instituto não tem força de lei, não substitui a fiscalização brasileira e tampouco cria uma certificação obrigatória. A proposta funciona como uma recomendação técnica para aproximar ferramentas que já existem, mas ainda não conversam adequadamente entre si.
O problema identificado está na fragmentação. Uma plataforma verifica a situação ambiental da propriedade; outra acompanha a movimentação dos animais; uma terceira atende a determinado comprador ou certificação. Também existem diferenças nas datas utilizadas para delimitar o desmatamento, no tratamento dos fornecedores indiretos e nos critérios de bloqueio de propriedades.
Na prática, uma mesma fazenda pode estar regular perante a legislação brasileira e, ainda assim, não atender ao protocolo privado de uma empresa ou à exigência ambiental de determinado mercado. Para o produtor, isso significa fornecer informações semelhantes várias vezes, contratar auditorias diferentes e enfrentar dúvidas sobre qual padrão será aceito no momento da venda.
A proposta ganha relevância pelo tamanho das duas cadeias. O Brasil colheu 180,6 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 e poderá exportar 116,3 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento. Na pecuária, o País possui o maior rebanho comercial do mundo, produz mais de 11 milhões de toneladas de carne bovina por ano e ocupa a liderança global nas exportações.
A China está no centro dessa discussão. O país asiático comprou R$ 282 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, considerando o câmbio de R$ 5,10, e respondeu por quase um terço de toda a receita externa do setor. O mercado chinês recebe a maior parte da soja exportada pelo Brasil e aproximadamente metade da carne bovina embarcada pelo País.
Embora a China ainda não tenha uma legislação equivalente ao regulamento europeu contra o desmatamento, compradores, instituições financeiras e grandes empresas chinesas vêm ampliando as exigências de origem e conformidade ambiental. O estudo sustenta que Brasil e China poderiam construir um referencial comum antes que diferentes compradores estabeleçam critérios próprios e aumentem a burocracia.
Na União Europeia, a pressão já está formalizada. O Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR, determina que soja, gado, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de produtos derivados, somente poderão entrar no bloco quando houver comprovação de que não foram produzidos em áreas desmatadas depois de 31 de dezembro de 2020.
A regra começará a valer em 30 de dezembro de 2026 para grandes e médias empresas. A maioria das micro e pequenas terá até 30 de junho de 2027. O importador europeu será o responsável legal pela declaração, mas dependerá de informações fornecidas pela cadeia brasileira, como a localização geográfica da propriedade e a documentação necessária para demonstrar a origem do produto.
Esse é um dos pontos de maior atrito com o setor produtivo. O EUDR não considera apenas se o desmatamento foi legal ou ilegal segundo o Código Florestal brasileiro. Mesmo uma supressão de vegetação autorizada pelas autoridades nacionais, se realizada após a data de corte europeia, pode tornar o produto inelegível para aquele mercado.
No caso da soja, a rastreabilidade precisa chegar à propriedade onde o grão foi cultivado. A dificuldade aparece quando cargas de diferentes fazendas são reunidas em armazéns, cooperativas, cerealistas e tradings. A proposta é integrar documentos fiscais, cadastros ambientais, localização das áreas produtoras e registros comerciais, preservando a identificação da origem mesmo depois da mistura física do produto.
Na pecuária, o desafio é maior. Um bovino pode nascer em uma propriedade, passar pela recria em outra e ser terminado em uma terceira antes de chegar ao frigorífico. Atualmente, a indústria consegue fiscalizar com maior facilidade o fornecedor direto, responsável por entregar o animal para abate, mas nem sempre possui visibilidade completa das fazendas anteriores.
A Guia de Trânsito Animal registra a movimentação dos lotes, enquanto o Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos permite acompanhar animais individualmente em cadeias que exigem esse controle. A adesão ao sistema individual, entretanto, ainda não alcança todo o rebanho nacional.
O governo iniciou a implantação do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com execução prevista até 2032. A recomendação do estudo é que frigoríficos e compradores avancem desde já no controle dos fornecedores indiretos, sem esperar a identificação obrigatória de todos os animais.
A carne brasileira ainda enfrenta outro impasse com a União Europeia, que não deve ser confundido com o EUDR. Além da origem ambiental, o bloco exige garantias sobre o controle de determinados antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais. A Comissão Europeia anunciou a retirada do Brasil da lista de países autorizados a fornecer carnes e outros produtos de origem animal a partir de 3 de setembro de 2026, caso não considere suficientes as garantias apresentadas.
O governo brasileiro sustenta que possui um sistema oficial confiável e que somente certificará produtos que cumprirem integralmente as exigências europeias. O ponto de divergência é a cobrança de uma comprovação prévia para medidas implementadas progressivamente ao longo do ciclo produtivo. Na avicultura, esse ciclo pode ser concluído em cerca de 40 dias; na bovinocultura, a formação de animais plenamente elegíveis pode levar dois anos ou mais.
Assim, a carne brasileira enfrenta duas frentes distintas na Europa: a ambiental, relacionada ao desmatamento e à rastreabilidade da propriedade de origem; e a sanitária, ligada ao uso de antimicrobianos durante a vida do animal. A unificação dos sistemas proposta pelo WRI ajudaria principalmente na primeira frente. Para o produtor, o resultado dependerá de como essa integração será implementada, de quem pagará pela adaptação e de sua capacidade de reduzir burocracia, em vez de acrescentar uma nova camada de exigências ao campo.
Fonte: Pensar Agro
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