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TJAC lança Medida Protetiva Eletrônica nos 20 Anos da Lei Maria da Penha
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Ferramenta digital busca agilizar o atendimento e garantir socorro imediato a mulheres em situação de violência no Acre
A Lei Maria da Penha completou 20 anos neste mês de agosto. Ela transformou profundamente a forma como o Estado brasileiro enxerga e enfrenta a violência doméstica. A normativa rompeu com o silêncio, a tolerância e a invisibilidade para afirmar definitivamente que a violência cometida dentro de casa não é um assunto privado, mas sim uma questão de direitos humanos e uma responsabilidade de toda a sociedade.
Essa mudança de perspectiva é um lema que orienta o trabalho do Poder Judiciário, como visto nesta sexta-feira, 14, quando o Tribunal de Justiça do Acre (TJAC) realizou a abertura da 33ª Semana da Justiça pela Paz em Casa e o lançamento da Medida Protetiva Eletrônica.

A coordenadora das Mulheres em Situação de Violência (Cosiv), juíza Louise Santana, assinalou que nesta edição da 33ª Semana da Justiça pela Paz em Casa haverá um mutirão com 139 audiências pautadas na Lei Maria da Penha. “O enfrentamento não ocorre apenas na sala de audiência, mas em todo acolhimento. Então, a Medida Protetiva Eletrônica é mais uma porta de entrada, oferecida pelo Judiciário acreano, porque sabemos que cada dificuldade pode representar um risco”, declarou.
Em suas palavras, a presidente da Associação dos Magistrados do Acre (Asmac), juíza Olívia Ribeiro, afirmou que acompanhou o momento histórico do início da aplicação prática da Lei Maria da Penha no Acre, justamente pelo fato de ter sido a partir da nova lei que se criou a vara especializada e ela foi a primeira titular.
A secretária de Estado da Mulher, Simone Santiago, enfatizou que a inovação facilita o acesso à justiça. “Ela diminui a burocracia e aumenta a agilidade. A Medida Protetiva Eletrônica representa uma redução da distância entre o pedido de socorro de uma mulher e a resposta do Estado. Isso pode representar a diferença entre a vida e a morte”, alertou.






Por sua vez, a presidente da Comissão Mulher Advogada, Caruline Simão, deu relevo à importância da paz, que figura como destaque no nome do evento “Semana pela Paz em Casa”: “A paz, quando ela começa em casa, ela fortalece o ser humano”. Já a defensora-geral Juliana Marques aproveitou a oportunidade para reafirmar o compromisso e a parceria da instituição em prol da proteção das mulheres. “Devemos fomentar políticas públicas e ações em defesa da mulher vítima de violência para prevenir todos os tipos de violência. É a força da nossa união que faz com que a política pública chegue até a ponta e chegue a quem precisa”, ressaltou.
Na oportunidade, a Cosiv outorgou homenagens à desembargadora emérita Eva Evangelista e à vice-presidente do TJAC, desembargadora Regina Ferrari. Em seu discurso, a desembargadora Eva citou episódios que marcaram sua trajetória profissional. “Vocês dizem que eu sou inspiração, mas eu não sou inspiração. Foi porque acreditaram em mim e com a ajuda de toda a rede de proteção, que muito pode ser feito”, agradeceu.
A vice-presidente do TJAC destacou que o lançamento da Medida Protetiva Eletrônica é um marco de proteção prioritária, para encurtar a distância entre o que está escrito no papel e alcançar a realidade de uma problemática grave do Acre. “Essa ferramenta digital vai permitir que uma mulher que esteja em um momento urgente e desesperador, no qual às vezes não dá tempo de chegar à delegacia. Ela vai estar disponível quando o medo aperta o peito. A Justiça está abrindo mais uma porta, exatamente quando cada minuto pode ser a diferença entre a vida e a tragédia”, concluiu.
Também estavam presentes na solenidade: o corregedor-geral da Justiça, desembargador Nonato Maia; o coordenador dos Juizados Especiais, desembargador Junior Alberto; o diretor da Escola do Poder Judiciário, Luís Camolez; o promotor de Justiça Luís Rolim; a comandante da Patrulha Maria da Penha, tenente coronel Cristiane Soares; a coordenadora da Delegacia Especializada da Mulher, Elenice Carvalho; a diretora do foro de Rio Branco, juíza Luana Campos; a juíza Natália Maia, membro da Cosiv; os juízes Bruno Perrota e Gilberto Matos; bem como defensores, policiais, equipe multidisciplinar da Vara de Proteção à Mulher e servidores do TJAC.



Medida Protetiva Eletrônica
A Medida Protetiva Eletrônica já pode ser feita diretamente pelo site do TJAC. A solicitação on-line tem o prazo de até 48 horas para entregar uma resposta à vítima, conforme o artigo 18 da Lei Maria da Penha. Elas podem ser concedidas, independentemente de audiência.
Veja o conjunto de proibições que podem ser impostas para garantir a integridade da vítima:

O atendimento é feito por meio do preenchimento do Formulário Nacional de Avaliação de Risco. Em caso de risco imediato, que precisa da intervenção da polícia, a recomendação ainda é ligar para o 190.
















Fotos: Elisson Magalhães/Secom TJAC
Fonte: Tribunal de Justiça – AC
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Do preconceito à oportunidade: projeto abre caminhos para mulheres egressas do sistema prisional
Enfrentando a rejeição e o preconceito, reeducandas encontram no projeto do TJAC a oportunidade essencial para reconstruir suas trajetórias

“Não foi uma, nem duas portas que se fecharam para mim. Eu tinha muita dificuldade para arrumar emprego. Quando viam que eu tinha passado pelo sistema penitenciário, as chances desapareciam.” Para Ana Lídia Paolino, de 28 anos, cada porta fechada carregava o peso de um passado que insistia em acompanhá-la. Sem emprego, a única renda da família vinha do Bolsa Família, enquanto Ana precisava sustentar a própria casa e outras pessoas que dependiam dela. De repente, em meio às rejeições, uma porta se abriu: a oportunidade de integrar o projeto social Memória, História e Transformação Social e trabalhar no Tribunal de Justiça do Acre (TJAC).
Dados apontam que, em 2026, o Acre possui 5.433 pessoas presas para 4.133 vagas disponíveis. As informações foram apresentadas pelo juiz do Trabalho Daniel Gonçalves, titular da 3ª Vara do Trabalho de Rio Branco e integrante do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF). Além disso, ele enfatiza que, das 5 mil pessoas privadas de liberdade, apenas cerca de 700 estão inseridas em atividades laborais.

Na avaliação de Daniel, o preconceito associado ao histórico prisional é uma das principais barreiras enfrentadas pelas pessoas egressas. “Essas pessoas já carregam um estigma. Normalmente, os empregadores têm um receio de inserir dentro da sua empresa, da sua unidade produtiva, uma pessoa que é egressa, que já passou pelo sistema prisional.”, afirmou o magistrado.
Mais do que uma fonte de renda, o trabalho representa uma ferramenta de reconstrução da trajetória após o cumprimento da pena. “Para ocorrer a reinserção, que é o objetivo maior da pena, o trabalho é um meio, uma ferramenta essencial para que se torne efetivo esse processo”, declarou. É justamente nessa barreira que a história de Ana Lídia se reconhece.
“Alguns lugares que eu ia fazer entrevista e percebiam que eu tinha tornozeleira eletrônica, na hora já descartavam a chance de eu ser contratada”, relembra Ana. Segundo o diretor de Reintegração do Instituto de Administração Penitenciária (Iapen), André Vínicios, o Acre tem um total de 226 mulheres privadas de liberdade, sendo 192 em Rio Branco e 34 em Tarauacá. Já o número de mulheres monitoradas eletronicamente chega a 540 em todo o estado.
Arquivos que geram oportunidades
O projeto Memória, História e Transformação Social surgiu a partir de uma necessidade administrativa do Tribunal, mas ganhou uma dimensão social ao abrir oportunidades para mulheres em situação de vulnerabilidade, entre elas reeducandas e vítimas de violência doméstica.
A proposta uniu duas necessidades diferentes. De um lado, o Judiciário precisava organizar um grande acervo físico acumulado ao longo de vários anos. De outro, mulheres que enfrentavam dificuldades para retornar ao mercado de trabalho encontraram uma oportunidade de aprender, estudar e obter renda.
Segundo a juíza auxiliar da presidência do TJAC, Zenice Mota, que acompanha de perto o projeto, a ideia surgiu juntamente com a Comissão de Memória e História do Tribunal. Mesmo diante da digitalização dos processos, que provocou uma redução significativa na produção de novos documentos em papel, o acervo antigo continuou existindo e precisava ser organizado, avaliado e, quando autorizado, eliminado.

Em vez de terceirizar o serviço, o Judiciário optou por criar uma oportunidade vinculada também à formação das reeducandas.
“A ideia não era apenas oferecer uma função, mas permitir que elas saíssem da experiência com algum tipo de formação”, conta a magistrada.
Diante disso, inicialmente foram criadas oportunidades de estágio para estudantes do ensino médio. O objetivo era permitir que as participantes trabalhassem e, ao mesmo tempo, concluíssem a educação básica.
Ana Lídia faz parte das cinco mulheres que atualmente integram a iniciativa. Durante o estágio de nível médio, elas recebiam uma bolsa de R$600 e, atualmente, todas concluíram o ensino médio.
“Eu acho que o primeiro grande impacto e que eu me orgulho do projeto é elas terem concluído o ensino médio.”, conta a juíza Zenice. Para ela, a conclusão da educação básica representa uma mudança que ultrapassa o certificado escolar.
Elinei Carvalho, analista judiciária que monitora e acompanha as participantes na Gestão Documental da Cidade da Justiça, conta que o trabalho exige leitura e interpretação de processos judiciais. As participantes precisam compreender os documentos para identificar o que deve ser preservado permanentemente e o que pode ser eliminado. “É um trabalho, na realidade, físico e intelectual”, explica Elinei.

A gestão documental envolve a avaliação dos processos, a aplicação da tabela de temporalidade, a identificação dos documentos que devem ser preservados permanentemente e daqueles que já podem ser eliminados.
Na prática, as jovens analisam processos judiciais das comarcas do interior do Acre. Elas identificam sentenças, decisões e outras peças que precisam ser preservadas. Os documentos considerados secundários são separados e, quando autorizados, encaminhados para destruição.
Antes da eliminação, os documentos passam por uma nova conferência da equipe responsável pela gestão documental, para evitar que peças de guarda permanente sejam descartadas.
Quando autorizada, a eliminação inclui a trituração dos documentos. O material fragmentado é encaminhado para a cooperativa Catar, onde retorna à cadeia de reciclagem. Em 2025, 1.133,45 quilos de papel foram destinados à cooperativa. Ao longo de dois anos, a iniciativa alcançou 14 comarcas e registrou 100% de publicação dos editais relacionados ao descarte documental.
Porém, havia uma dificuldade recorrente que preocupava Elinei e Zenice: justamente quando as jovens começavam a dominar o trabalho, concluíam o ensino médio e precisavam deixar o estágio.
Do ensino médio à universidade
A experiência mostrou que a formação não precisava terminar junto com a conclusão da educação básica. Por isso, a magistrada, em conjunto com outros servidores do Tribunal, conseguiu uma bolsa de estudos para o ensino superior e matriculou as reeducandas na universidade.
Ana Lídia e as demais colegas terminaram o ensino médio e atualmente estão cursando ensino superior, com isso agora elas recebem uma bolsa de estágio de ensino superior no valor de R$1.794. Antes dependente do Bolsa Família para manter a casa, atualmente consegue contribuir com as próprias despesas e investir na formação universitária, no curso de licenciatura em Pedagogia.

“Pra mim viver tudo isso está sendo maravilhoso, eu sou muito grata porque além de eu poder terminar os estudos, o projeto me proporcionou cursar um ensino superior.
Para a juíza Zenice, existe uma dimensão simbólica nessa trajetória: “O mesmo Judiciário que acabou decidindo por colocá-las no sistema penitenciário, abre as portas para uma mudança e uma oportunidade de um futuro melhor”, declarou.
Trabalho e educação como ferramentas de reintegração
A experiência das reeducandas da Gestão Documental dialoga com uma das principais diretrizes do Pena Justa: a utilização do trabalho, da educação e da qualificação como instrumentos de reintegração social.
Para Zenice, a reintegração precisa começar ainda durante o período de privação de liberdade, com educação, qualificação, tratamento para dependência química, fortalecimento da autoestima e construção de perspectivas para o futuro.
“A massa da nossa população carcerária, infelizmente, é pobre, preta, de baixa escolaridade, sem profissão”, afirma. Na avaliação da magistrada, aproveitar o período de segregação para oferecer formação e criar perspectivas pode aumentar as possibilidades de que a pessoa não retorne ao sistema.
“Se durante esse tempo de segregação social se aproveita para trabalhar dependência química, autoestima, perspectiva de futuro, com formação e qualificação, eu tenho uma chance de que essa pessoa não reingresse no sistema.”
De acordo com o IAPEN, apenas três mulheres egressas foram encaminhadas para empregos e 12 recebem acompanhamento. Os dados evidenciam que o desafio, porém, não termina quando uma mulher consegue uma oportunidade.
Caminhos a percorrer
O projeto já produziu resultados concretos: cinco reeducandas concluíram o ensino médio, chegaram ao ensino superior e continuam trabalhando no Tribunal.
Mas existe uma etapa que ainda não foi completamente estruturada: o que acontece depois que elas deixam o projeto?
Atualmente, o Tribunal não possui um acompanhamento sistematizado das mulheres que já passaram pela iniciativa. Não há, por exemplo, informações consolidadas sobre quantas conseguiram emprego, continuaram estudando ou foram contratadas por outras instituições.
Outro desafio é que o estágio de ensino superior tem duração de dois anos, enquanto uma graduação pode levar quatro anos ou mais.
Pensando em tornar efetiva a trajetória profissional dessas mulheres, a equipe do Tribunal já discute a possibilidade de criar uma ponte com outros órgãos públicos para que as participantes continuem recebendo apoio depois de deixar o Tribunal. Outra possibilidade é encaminhá-las para instituições que também possuem demanda por profissionais capacitados em gestão documental.
A intenção é que outras instituições públicas possam aproveitar demandas semelhantes de gestão documental para criar novas oportunidades. “Ministério Público, Executivo e outros órgãos também possuem grandes acervos que precisam ser organizados, preservados e, quando permitido, eliminados. Eu quero que as pessoas conheçam o projeto para que possam replicar, para que elas, as Anas, Marias, as Luizas, essas mulheres, possam ter oportunidade em outros estados e em outras instituições”, conclui a juíza Zenice.
A ausência desse acompanhamento revela que a reintegração não se encerra com a abertura de uma vaga de trabalho. A oportunidade profissional pode ser o primeiro passo, mas a permanência fora do sistema penal depende de uma rede capaz de sustentar o recomeço.
Por mais portas abertas
Para Ana Lídia, o projeto já representa uma mudança que vai além do trabalho.
“Fazer uma faculdade é tudo o que um dia eu sempre quis, os anos que eu perdi presa eu sei que eles não voltam, mas hoje eu sou muito feliz e muito grata por esse projeto e eu espero futuramente ter mais portas abertas”, declarou Ana Lídia.
A trajetória que começou marcada por portas fechadas e pelo preconceito ao ter passado pelo sistema prisional, teve uma porta aberta pelo judiciário, de trabalho, conclusão do ensino médio e ingresso no ensino superior, realidade ainda escassa para reeducandas no Acre e em todo o país, o que se apresenta como reflexão de que para que o recomeço seja oportuno é preciso garantir caminhos para que mais portas sejam abertas.
Fonte: Tribunal de Justiça – AC
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